Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
União Nacional ?
Não: sideração, recuperação e manipulação
Jean-Yves Le Gallou*, UNION NATIONALE? Non: sidération, récupération et manipulation
Revista Metamag, 14 de Janeiro de 2015
“O desfile da 11 de Janeiro, portanto, era um símbolo eloquente da unanimidade cosmopolita da superclasse global servido pela propaganda dos media.” François Hollande é um grande Presidente. Ele vai subir nas sondagens. O ataque contra o Charlie Hebdo e o hiper casher de Vincennes são verdadeiramente dois grandes presentes políticos. Hollande, ei-lo transformado em pai da da nação, o artesão de um novo consenso francês: ‘Juntos’ e a ser o Presidente em torno do qual o planeta se apressa. Melhor do que a União Nacional, só a União Mundial! De lhe tirar o chapéu, que grande artista!
E, contudo, os acontecimentos de Paris e Dammartin-en-Goële-Vincennes são o resultado de quarenta anos de política de migratória (desde o reagrupamento familiar decidido por Chirac em 1976): uma política em que todos os políticos tomaram parte:
-A imigração desenfreada em primeiro lugar, acelerando-se a cada pseudo-alternãncia: do RPR ou da UMP para o PS, mas também do PS para a UMP.
-A louca política de nacionalidade, consistindo em dar o título francês aos Coulibaly ou aos Kouachi que não o são nem por origem nem por cultura, nem pelos seus afectos. .
-O fracasso das políticas de integração forçando a apoiare a apresentar como sendo modelos de comportamento alguns dos hooligans dos subúrbios: os irmãos Kouachi, convidados pela cadeia de televisão France 2 (canal de serviço público) como artista de rap, em seguida, um deles a beneficiar de um emprego co-financiado na Câmara de de Paris como “Embaixador de tri ” (sic!). Coulibaly foi recebido em 2009 pelo presidente Nicolas Sarkozy no palácio do Eliseu: a oportunidade de obter uma foto lisonjeira no jornal Le Parisien. Coulibaly e Kouachi não eram considerados como marginais, mas sim como exemplos.
“Exemplos” cujo lugar deveria ser estarem na prisão se não tivéssemos tido uma política judicial perfeitamente louca.
Porque é também a política securitária dos sucessivos governos que foi posta completamente em causa: 10 leis liberticidas contra o terrorismo, com que resultados? A falta de tino por parte dos serviços que consistiu em reduzir o dispositivo de protecção de Charlie Hebdo… no Outono de 2014: bravo Cazeneuve, bravo Boucault!
E é no o momento em que os governantes deixaram de implantar uma imigração muçulmana de repovoamento em França que eles desestabilizaram os governos árabes laicos no Iraque, Egipto, na Líbia e na Síria, e incentivaram a fabricação do monstro islâmico. Ainda dois actores do caos sírio, o turco Erdogan e o israelita Netanyahu foram convidados a desfilar em Paris…
Verdade seja dita, este foi o desfile dos incendiários: políticos de Sarkozy a Hollande , políticos internacionais de Cameron a Merkel, associativos de SOS-Racismo ao UOIF que tinham reclamado a proibição de publicação de desenhos sobre Mahomet.
O desfile de 11 de Janeiro foi um símbolo eloquente da unanimidade cosmopolita da superclasse global servido pela propaganda dos media.
O desfile de 11 de Janeiro de 2015, foi um pouco como uma marcha silenciosa em defesa dos direitos das crianças, tendo na primeira fila Marc Dutroux, Emile Louis e Patrick Henry.
Propaganda unívoca e silêncio da FN
O que é o mais surpreendente – no verdadeiro sentido do termo – é a total falta de recuo e de reflexão crítica por parte dos principais media.
A própria Frente Nacional parece ter sido reduzida ao silêncio: seja porque não falou; seja porque os seus dirigentes têm sido discretos. A imagem do primeiro tweet de Florian Philippot sobre o assunto: “horror, uma infinita tristeza.” ou a “declaração solene” de Marine Le Pen evocando o «nada de amálgama» ou «os franceses de todas as origens» e apelando à União Nacional. Nem uma só palavra sobre as causas, nem uma só palavra sobre as responsabilidades.
Tornar-se literalmente inaudível, a Frente Nacional parece ter pago o preço elevado da pasteurização, sem recolher por isso mesmo o benefício da diabolização porque este partido permaneceu totalmente marginalizado e visto um pouco como a peste. Definitivamente há um duplo limite para o discurso de “nacional-republicano”: não se tem necessidade da FN para dizer “todos nós somos franceses” e confundir francês do ponto de vista administrativa e francês do ponto de vista da civilização; a realidade é que “o projecto cívico da nação” que é a tanga do comunitarismo. A realidade é, também, que a palavra “Republicano” se tornou uma novilíngua a significar ‘politicamente correto’, e que, enquanto a FN não estiver totalmente alinhado ao conformismo prevalecente, ela não poderá alcançar (não obstante os desejos dos seus dirigentes mediáticos) o “arco republicano”.
É certo que Marine Le Pen tentou retomar a mão manifestando-se em Beaucaire. E Marion Maréchal Le Pen pôde dizer coisas cheia de sentido no canal BFM-TV: “Há dois problemas que surgem: a forte subida do fundamentalismo islamita e “a não-assimilação ” destes Franceses (…) Como é que eles puderam obter a nacionalidade francesa enquanto que não têm rigorosamente nada de Francês? (…) Para além da República é a própria civilização francesa que é atacada. (…) Nós quisemos mesmo assim participar, mas não ao lado dos que são responsáveis.” O filósofo Michel Onfray, cada vez mais à beira da dissidência, declarou mesmo: “Marine Le Pen é um dos raros lideres a dizer que o real efectivamente teve lugar aqui. ”
Sucede que os acontecimentos de Janeiro de 2015 mostram a extraordinária capacidade do sistema em recuperar das suas perdas políticas graças a um controlo mediático sem falha. Mostram também que é tão vão quanto ingénuo pensar chegar ao poder por um trabalho de sedução dos meios de comunicação social. Mostram por fim a necessidade de estruturar e formar sem concessões os actores da França de amanhã. Mostram sobretudo o papel determinante dos meios de comunicação social alternativos e das redes sociais, as únicas possibilidades de emissão de um outro discurso.
O combate só agora se iniciou. E não é uma estratégia assente em utopias, concebida esta para quem está fora da realidade que nos irá permitir ganhá-lo.
Jean-Yves Le Gallou, UNION NATIONALE ? – Non : sidération, récupération et manipulation, Revista Metamag, 14 de Janeiro de 2015. Texto disponível em :
http://www.metamag.fr/metamag-2571-UNION-NATIONALE-.html
* Président de POLEMIA



