Só ontem pela manhã soube da morte de Luís Alves Dias, proprietário e gerente da Livraria Ler, no Jardim da Parada, em Campo de Ourique. Faleceu no dia 23, sexta-feira passada. Tal como António Barata, Luís Alves Dias, o Luís da Ler, pertencia àquela estirpe de livreiros que amam os livros – não se limitam a vender livros – fazem deles o centro do seu universo. E dizer que, quando morrem, o mundo dos livros fica mais pobre, será um lugar comum, mas é sobretudo um acto de justiça.
Conheci Luís Alves Dias no final dos anos 60. Eu vivia em Tomar e, no rescaldo da campanha eleitoral de 1969, em plena «primavera marcelista» (tão falsa como a de Praga…), com um grupo de amigos, entre os quais o nosso Manuel Simões, criámos uma Livraria, a Raiz, onde sediámos a Nova Realidade. Luís Alves Dias era agente de vendas do Centro do Livro Brasileiro e visitava a Raiz com alguma frequência. E falávamos muito – Luís era uma pessoa com cultura, com uma memória prodigiosa e que sabia muito bem o tipo de livros que me devia propor. O «negócio» não nos ocupava muito tempo – falávamos do que estava a acontecer no País e no mundo – Cuba, a Checoslováquia… Depois ele montou a sua excelente livraria em Campo de Ourique e, passados meses, deixei a Gulbenkian e rumei a Lisboa. Fomo-nos vendo e em Junho de 1975, em pleno Verão Quente, editou na sua colecção Maria da Fonte um dicionário que, com outro amigo, organizei, com verbetes quase todos eles traduzidos de um dicionário das Comisiones Obreras.
Chamo a atenção para um artigo que Flamarion Maués nos envia de São Paulo e que publicaremos às 18 horas. Fala sobre o grande livreiro e a excelente pessoa que Luís Alves Dias foi.


A Resistência ao fascismo também se fez com esta estirpe de livreiros. O Luís da “Livraria Ler” foi sempre um batalhador na difusão da cultura. Publicou alguns livros “clandestinos”: ofereceu-me um dia uma edição da obra de Bocage, como se tivesse sido impressa em Londres, e que era uma edição sua. Foi um óptimo divulgador das publicações da “Nova Realidade”. Do livreiro e do homem fica a memória da coragem e da grande honestidade intelectual.