Voltei a ver as Escadas das Padeiras, finalmente reconstruidas, e muitas recordações me vieram à memória. Do tempo em que, ainda estudante, ia quase todas as manhãs de sábado até à Ribeira, onde um grupo da Associação Fotográfica do Porto se encontrava regularmente. Era uma espécie de tertúlia que tinha como local de convívio um espaço que simultaneamente funcionava como o palco onde se desenrolavam cenas que proporcionavam aos fotógrafos imagens de uma riqueza humana que não se encontrava em qualquer outra zona da cidade. Era o mais jovem desse grupo e muito aprendi com a experiência então vivida com os “consagrados”. Temperamentos diferentes e modos de abordar a fotografia muito diversos tornavam essa tertúlia particularmente rica. Os possuidores de Rolleiflexes ,o grupo maioritário, mantinham discussão permanente e acesa com os possuidores de Leicas acerca das vantagens dos seus equipamentos; no meio da discussão aparecia a pessoa com quem talvez eu tenha mais aprendido, o Bernardino Pires (omito o “Sr” que então respeitosamente utilizava, tal como farei relativamente aos nomes dos já desaparecidos) a afirmar, no seu estilo peculiar e truculento, que o mais importante era o homem e não a máquina e que a sua modesta Zeiss Super-Ikonta fazia o mesmo ou melhor que as câmaras mais caras. Lembro o dia em que eu ,e creio que mesmo a totalidade dos presentes, pela primeira vez, pegamos numa câmara, então mais de sonho que hoje, com que o Valentim Campos nos surpreendeu, uma Hasselblad. A Ribeira tinha dois encantos especiais; um, permanente – as pessoas que lá viviam ; e outro, esporádico – acombinação da neblina, especialmente a matinal, que, com certas condições de luz, proporcionava imagens de uma beleza inexcedível. Havia um mestre a trabalhá-las, o João da Costa Leite, que tinha o privilégio de trabalhar na Rua de S. João, junto à Ribeira , o que lhe permitia aproveitar sempre esses momentos de rara beleza. Quantas vezes, em dias de neblina mais cerrada, aguardávamos pacientemente boas condições de luz na esperança que o sol aparecesse através da Ponte Luis I arrancando os revérberos que proporcionavam imagens únicas que correram mundo em catálogos de concursos bem como nas revistas da especialidade. Uma isca de bacalhau ou uma refeição rápida no Chez Lapin eram almoço suficiente para, por vezes, prolongar essa esperança até ao meio da tarde. Mas o tema humano, até porque sempre presente, era o preferido pela maioria. Excelentes os trabalhos de António Mendes, que fora o director de fotografia do ANIKI-BÓBÓ . Luis Pires de Castro, Jorge Henriques, Viana Jorge e Tavares da Fonseca, foram também alguns dos nomes que recordei nesses momentos de nostalgia que vivi quando voltei a sentar-me nas Escadas das Padeiras.
Boa tarde, sou Daniel Pires, filho de Bernardino Pires que V/ refere no seu texto sobre “As Escadas da Padeiras”. Gostaria de saber se tem mais recordações do meu pai e da tertúlia a que pertenceu, e das fotos que publicou no seu bloque, qual é a do meu pai. Agradecido pela atenção dispensada.
Boa tarde, sou Daniel Pires, filho de Bernardino Pires que V/ refere no seu texto sobre “As Escadas da Padeiras”. Gostaria de saber se tem mais recordações do meu pai e da tertúlia a que pertenceu, e das fotos que publicou no seu bloque, qual é a do meu pai. Agradecido pela atenção dispensada.