DIA DO PORTO – Lordelo do Ouro 2015 – Por Raúl Simões Pinto

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LORDELO DO OURO, 2015

 

…Eu acordava nos anos 60 do século passado, com o barulho das sirenes das fábricas que se amontoavam nas ruas e calçadas desta freguesia. Lordelo, era nessa altura um dos pulmões mais industriais do Porto.
As fábricas eram portentosas e davam trabalho a uns milhares de operários.
Eis alguns exemplos mais conhecidos e comuns – Os Fósforos, A Alumínia, Os Parafusos, A Secil, Os Lanifícios de Lordelo (ou Fábrica dos Panos), A Sisol, a dos óleos e sabões, O Azevedo, as Fundições, os Caldeireiros, A Veludo, enfim e as dezenas de oficinas que se apinhavam desde a marginal do Ouro, até Serralves.
A seguir, nesta perspectiva histórica, tínhamos a agricultura – a freguesia era abraçada por muitas quintas e por imensos quintais e hortas – mesmo quem habitava nas velhas ilhas, tinha o seu quintal e as suas galinhas e coelhos.
Os campos do Adolfo, do Cartola, do Mata-Sete, do Fumega, do Santos e  outros que tais, davam a Lordelo um tom de ruralidade e um pouco de aldeia nos arredores da cidade…
A outra componente que também cercava a freguesia, sobretudo na marginal, junto ao rio Douro, eram os pescadores. Pesca artesanal e marítima – dado que havia gente a embarcar para a pesca do bacalhau e a trabalhar em Matosinhos.
Nessa altura, o rio Douro era o sustento de muitas famílias – pescava-se o sável, os robalos, as lampreias e outras espécies que entretanto foram desaparecendo com as barragens e a forte poluição do rio.
…Hoje, esta Lordelo do Ouro, praticamente deixou de existir. A freguesia ou a  recente união das freguesias – Lordelo/Massarelos, passaram a ser, dormitórios da cidade. A construção de 10 bairros camarários e outros de índole social, adulteraram a Lordelo antiga. Bairros, ilhas e condomínios fechados – uma freguesia de Cimento com alguns espaços verdes e muitas zonas abandonadas, sobretudo, antigas fábricas, oficinas e armazéns…
Lordelo, é uma mescla, cresceu muito, desenvolveu-se pouco e nos planos de apoio social e desenvolvimento anti-exclusão e pobreza, ainda há muito por fazer.
Além do brutal desemprego, existem altos consumos de droga a olho nu, em instalações que eram antigas fábricas, ex – A Alumínia, junto ao Bairro Nuno Pinheiro Torres…foram destruídas 2 Torres do Aleixo e o comércio a  retalho destes “produtos” passou para as “mercearias de bairro”…
Antigamente, os operários vinham de bicicletas para o trabalho (as pasteleiras) hoje são os toxicodependentes que surgem montados nas (novas pasteleiras) para se drogarem, de manhã, à tarde e à noite na antiga fábrica da Alumínia…
Lordelo do Ouro, 2015 é um “caldo” social, misto de bairros – uns colados aos outros, com muitos problemas, pobreza, droga, subsidiodependência, alto  desemprego, envelhecimento e muita solidão…à mistura com zonas ricas e
condomínios fechados.
Mas, Lordelo do Ouro, também tem zonas e locais de visita obrigatória – Casa e  Museu de Serralves, Casa das Artes, Polo Universitário e Biológico, Parque da Pasteleira, Jardins magnificos, o Calém, a marginal, a Adega da Piedade e a Tasquinha do Ouro, onde se ouve o fado vadio e se nota as gentes populares do burgo…
…Hoje, por vezes, sou acordado por sirenes dos carros da polícia, por tiros e ajustes de contas, com mulheres aos gritos, cheias de confusões e desatinos…

1 Comment

  1. Por muito incrível que pareça, a beleza do meu Porto é escondida… para que se a veja, tem-se que a procurar. Lordelo do Ouro, ainda tem campos cultivados, ainda se cria galinhas, coelhos, patos… ainda tem uma quinta, a ultima “princesa” do rio Douro… A Quinta da Murta. Do alto de Santa Catarina até as formigas se veem, diz o povo.

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