DIA DO PORTO – SOL NASCENTE – Uma Revista do Porto no Princípio do Movimento Neo-Realista – Por João Machado

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 SOL NASCENTE – UMA REVISTA DO PORTO NO PRINCÍPIO DO MOVIMENTO NEO-REALISTA.

Capa da n.º 1

O primeiro número da revista Sol Nascente saiu a 30 de Janeiro de 1937. Até 1940 foram publicados 45 números. A iniciativa da sua publicação partiu de estudantes portuenses, alguns dos quais já tinham participado na revista juvenil Outro Ritmo, criada em 1933 por alunos dos Liceus Rodrigues de Freitas e Alexandre Herculano (1). Ficou como editor e proprietário da Sol Nascente Dilermando Marinho, na altura estudante de medicina, e o único do grupo inicial que era maior de idade. A comissão directiva inicial incluía Carlos F. Barroso, estudante de biologia, António Lobão Vital, estudante de arquitectura e José Soares Lopes, trabalhador do comércio, autodidacta, que se juntou ao grupo, apesar da diferença de idades.

Entre eles havia republicanos, anarquistas e comunistas. Tinham em comum o sentimento do dever cívico de oposição ao regime social e político vigente. Na capa do primeiro número aparece o fundamento editorial da revista, redigido por José Soares Lopes, e que inclui, conforme assinala Luís Crespo de Andrade, professor e investigador, autor do livro Sol Nascente: da cultura republicana e anarquista ao neo-realismo (2), na página 17 desta obra:

“tendo como fim contribuir para o elevamento do nível cultural português, juntando os seus esforços aos outros nobres esforços que se afirmam, ‘Sol Nascente’ não esquece a frase límpida do nosso Eça: o fim de toda a cultura humana consiste em compreender a humanidade”.

Sol Nascente partiu de projecto assente numa base de diversidade ecléctica, procurando a transformação social pela divulgação do saber, valorizando o conhecimento científico e a discussão doutrinária e a promoção da literatura e da arte, como refere ainda Crespo de Andrade. O apoio de personalidades como Abel Salazar (1889 – 1946), médico, professor, pintor, investigador, resistente ao regime salazarista (chamavam-lhe o bom Salazar), e que já tinha colaborado com Outro Ritmo, foi obviamente decisivo.

Abel Salazar Foto Wikimedia Commons
Abel Salazar
Foto Wikimedia Commons

Grandes figuras da cultura e da arte participaram em Sol Nascente, oriundas de diferentes quadrantes: presencistas como José Régio, Gaspar Simões e Casais Monteiro, seareiros como Irene Lisboa, António Sérgio e Hernâni Cidade, monárquicos como Castelo Branco Chaves, libertários como Jaime Brasil e Agostinho da Silva, neopositivistas como Abel Salazar e Ruy Luís Gomes, Miguel Torga, Vasco da Gama Fernandes e um grande grupo de individualidades de orientação marxista, como Álvaro Salema, Alves Redol, António Ramos de Almeida, Mário Dionísio, Afonso Ribeiro, Fernando Piteira dos Santos, Armando Martins e muitos outros. A impressão e distribuição beneficiou de apoios como o do industrial Manuel Pinto de Azevedo, um homem de espírito liberal, proprietário e director de O Primeiro de Janeiro, em cujas oficinas foi impressa a revista, em condições muito favoráveis, como também realça Crespo de Andrade, na sua obra acima referida.

A Sol Nascente incluiu várias rubricas, como Panorama Literário, De Literatura, Notas Musicais, Revista de Ideias e De Sol a Sol, entre outras, importantíssimas para se conhecer a vida cultural e política da época. De frisar que trouxe aos leitores elementos muito valiosos sobre a literatura, a arte e até a vida científica noutros países, sendo de destacar a Galiza e o Brasil. Quanto à primeira veja-se a imagem da capa do número 5, que reproduz o quadro a óleo de José Seijo Rubio, El Ciego de Santa Margarita, e um extracto, Unha Cousa, do livro Cousas, de Daniel Castelão, no número 14. Quanto ao segundo, são inúmeras as referências, sendo de destacar as notas literárias de Alves Redol, Afonso Ribeiro, Mando (Armando) Martins e António Ramos de Almeida. Também se deve salientar o esforço de incentivar a presença feminina na revista, remando contra a exclusão da mulher, encontrando-se, para além de Irene Lisboa (com o pseudónimo João Falco), participações de pelo menos seis escritoras, na maioria, é verdade, usando pseudónimos.

Capa da n.º 5
A revista Sol Nascente, tal como a Seara Nova e O Diabo, foi um dos principais esteios da oposição ao regime fascista logo na década de 1930. Apesar da forte repressão existente conseguiu desempenhar um papel importantíssimo para o movimento neo-realista, e muito contribuiu para que o apoio dos meios culturais e científicos a uma visão progressista e ao combate à ditadura se generalizasse. Merece ter um papel destacado na história política e cultural do Porto e do nosso país.

(1) -A Outro Ritmo só terá tido um exemplar publicado. Nele, para além dos estudantes também colaboraram mestres (como Abel Salazar) e professores. Existe uma fotocópia desse exemplar no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira.
(2) -Edição da Campo das Letras, 2007, Porto, que teve o apoio do Montepio e da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo.

Agradecimento – Ao Museu do Neo-Realismo, de Vila Franca de Xira, que amavelmente cedeu as cópias das capas dos números 1 e 5 de Sol Nascente. E cumprimentos ao Luís Crespo de Andrade.

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