A CAMINHO DA GRÉCIA, A CAMINHO DA LIBERTAÇÃO DA EUROPA – A LUTA CONTRA A AUSTERIDADE – 2. B A PEQUENA GRÉCIA VAI GANHAR À ALEMANHA? CENÁRIOS POSSÍVEIS por JEAN CLAUDE WERREBROUCK

Falareconomia1

 

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

mapagrecia

 

A caminho  da Grécia, a caminho da libertação da Europa – a luta contra a austeridade

2.B A pequena Grécia vai ganhar à Alemanha? Cenários possíveis.

 Jean Claude Werrebrouck, La “petite Grèce” viendra t-elle à bout de l’Allemagne?

Blogue La Crise des Années 2010, 1 de Fevereiro de 2015

Vários cenários são possíveis partir a partir das  mudanças verificadas em  Atenas.

Cenário 1: A dupla inflexibilidade do governo Grego e de Bruxelas

Devem-se encarar várias  etapas e no  espaço de algumas semanas :

– Os levantamentos dos depósitos bancários  (11 Mil milhões em Janeiro sobre um total de 160) continuam a verificar-se.

– O BCE congela o dispositivo “ELA” de assistência à liquidez [1].

– Há uma corrida aos bancos que os coloca em falência .

– O governo procede ao controlo  do sistema bancário e exige do Banco central um financiamento ilimitado.

– Um rigoroso  controlo dos câmbios é posto em prática .

– O BCE fecha a conta TARGET 2 [2]

– O governo restabelece a soberania monetária e procede à uma desvalorização maciça (80%).

– Constatação de um efeito de riqueza para os actores da corrida aos bancos .

– O governo anula a dívida.

– A crise económica agrava-se consideravelmente na Grécia. – A coesão de Bruxelas é posta em dificuldade face às questões geopolíticas, (Ucrânia- Rússia) face às quais a Grécia pode assumir um papel de relevo.

Este cenário da inflexibilidade deixa supor que a disputa vai ser dura e a desencadear-se  em torno do  exemplo irlandês do refinanciamento ilegal pelo BCE.  É necessário com efeito recordarmo-nos  de  que em Fevereiro de 2013, na sequência  de diversas peripécias, relativas ao sistema bancário irlandês fortemente suportado  sobre bancos franceses e alemães, o Tesouro Irlandês pôde emitir obrigações directamente monetarizadas pelo BCE. Na  época, a Alemanha tinha aceite esta situação devido à muito forte exposição do seu sistema bancário. A Alemanha já não está hoje na mesma situação  e será por conseguinte inflexível. Em contrapartida, o governo grego sabe que já houve violação dos tratados,  e pode por conseguinte reivindicar afirmar um presente equivalente ao que foi presenteado à  Irlanda: a sua inflexibilidade potencial alimentar-se-á do exemplo Irlandês.

Esta confrontação dura é de facto uma confrontação entre a Alemanha e a Grécia. Ao nível europeu   esta confrontação conduz a consequências diferentes de acordo com os seus efeitos sobre os mercados. Dois casos  se podem pois apresentar :

  1) Os mercados permanecem insensíveis à saída  da Grécia.

– As taxas sobre as dívidas soberanas dos Estados credores (adicionadas  de 42,4 mil milhões para a França, mas também  de 37,3 mil milhões para a Itália e de 24,8 mil milhões para a Espanha) permanecem inalteradas.

– O montante dos incumprimentos  é tomado como um dado e na sua sequência  verifica-se  um crescimento da dívida dos Estados (cerca de 2% para a França,  Espanha e Itália). Esta fraqueza é o argumento principal a favor desta  alternativa.

– O montante dos defeitos é tomado como um dado e verifica-se na sua sequência  um crescimento da dívida dos Estados

– Os Estados aceitam o princípio da recapitalização do BCE (25 mil milhões de euros).

– A manutenção das regras orçamentais de Bruxelas  agrava a crise da procura global .

– A manutenção no poder das oligarquias europeístas  tendo em conta o afundamento grego,  ( (será difícil que o  PODEMOS ganhe se a Grécia – em situação de crise agravada deixar  a zona euro).

Este hipotético cenário não é improvável. É no entanto contestável devido à heterogeneidade da zona euro. É-o  também em face da  exigência de recapitalização do BCE pela Alemanha, o que contestaria a França e  outros países [3].  É-o ainda  ao olharmos para o agravamento da crise que, mecanicamente, fará  aumentar  as dívidas públicas para além do estrito incumprimento grego.   Daí o segundo caso  possível:

2) Os mercados reagem sobre os elos mais fracos da zona.

– As dívidas públicas espanholas e italianas são atacadas e o spread de taxas com os bunds da Alemanha [4]  explodem.

– A queda das cotações  sobre títulos públicos afecta a solvabilidade dos sistemas bancários correspondentes.

– Verifica-se uma corrida aos bancos. O dispositivo ELA prova-se ser rapidamente impotente.

– O BCE utiliza maciçamente a arma OMT [5].

– A coligação governamental alemã cede à  pressão dos seus eleitores e deixa a zona euro

Cenário 2 : Bruxelas aceita as exigências gregas

– Os mercados não reagem e sabem doravante que haverá sempre um refinanciador em última instância .

– Os outros elos  fracos (Itália, Espanha, Portugal, Irlanda) exigem um tratamento equivalente.

– A Alemanha recusa.

– As oligarquias europeístas  (Espanha nomeadamente) são ameaçadas com a chegada ao poder de homens  políticos tipo SYRIZA (Em Dezembro de 2015?).

– O fim do ano de 2015 corresponde, neste cenário, à uma amplificação considerável do  que se tem passado em Janeiro de 2015 (o peso da Espanha é 6 vezes superior ao da Grécia).

A Alemanha deixa a zona euro .

Este cenário equivale ao primeiro cenário   na segunda alternativa.

Cenário 3 : SYRISA trai os seus eleitores

Este cenário é o cenário  extremamente clássico de um partido que não respeita os seus compromisso eleitorais. Corresponderia às etapas seguintes:

– Os mercados são conformados com a  ideia de estabilidade e de que as taxas permanecem inalteradas.

– A política  de Bruxelas e as  oligarquias europeistas ficam conformadas.

– A visão Alemã sobre a moeda impõe-se e a Alemanha pode permanecer na zona.

– A Grécia marginaliza-se (a moeda cada vez mais destruída pela sua taxa de câmbio) com os riscos políticos associados.

– As curas austeritárias  mantêm-se no Sul da Europa.

Este cenário é a priori bastante pouco provável   face já às  primeiras escolhas de SYRISA no momento em que estas linhas são escritas.

Não é por conseguinte inimaginável pensar que “a pequena Grécia” – cujas dificuldades permanecerão contudo enormes – venha a poder vir a  ganhar à  Alemanha que, classicamente – a exemplo de muitos outros países não pode reformar-se e ficar agarrada  às  suas crenças.

As formas tomadas pela interacção social na Alemanha valeram à este país uma responsabilidade histórica determinante durante o século passado. Este peso  continua a ser fundamental  neste início do século XXI. Excepto alguns  autores incluindo o falecido  Ulrich Beck, são muito poucos os  intelectuais alemães a darem-se conta disso.

________

[1] Trata-se de um dispositivo (assistência de liquidez em  emergência-de sigla ELA em inglês ) criado pelo BCE que permite aos bancos centrais facilitarem  as questões de tesouraria dos de segundo grau de que são também responsáveis. .

[2] É um dispositivo que permite o registo  das operações externas de cada um dos países da zona euro nas  suas trocas com os outros países na mesma zona. As contas do TARGET2 estão incluídas nos balanços dos bancos centrais nacionais.

[3]  A Alemanha continua a considerar que um Banco Central pode ir à falência e, portanto, o BCE deve ser fortemente capitalizado. Este ponto de vista, completamente errado devido  ao facto de que um Banco Central é refinanciador em última instância  e que um  tal poder de criação de dinheiro é ilimitado, corresponde às crenças e interesses dos alemães. O alemão pessoas como um todo está , desde há  muito tempo,  mentalmente habituado a esta  crença segundo a qual nenhum Banco Central poderia  funcionar sem capital, .

[4] Título do Tesouro alemão .

[5]  Trata-se de  transações monetárias em valores mobiliários ((Out Monetary Transactions) que permitem que o BCE forneça  liquidez aos bancos contra garantia de títulos públicos e privados. Mario Draghi disse em 6 de Setembro de 2012, que poria até ao limite este  dispositivo para poder manter a coerência da zona do euro.

Jean Claude Werrebrouck.    La “petite Grèce” viendra t-elle à bout de l’Allemagne?.

Textos disponíveis em : http://www.lacrisedesannees2010.com/

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