A Grécia, por consabidas razões, está na ordem do dia. Grécia que, em busca de fórmulas apelativas, associamos à Antiguidade Clássica e que, na verdade, pouco tem, na sua forma actual, a ver com esses estados onde, de certo modo, se moldou a Europa e aquilo que habitualmente se designa por «espírito europeu». Democracia – governo do povo – conceito herdado dos gregos antigos, vocábulo cujo campo semântico se tornou vasto. Vasto como um deserto.
Falando sobre democracia, no seu Do Contrato Social, Jean-Jacques Rousseau diz que «Se houvesse um povo de deuses, ele se governaria democraticamente», mas que «um governo tão aperfeiçoado não convém aos humanos», Na realidade, a democracia directa, quando da sua primeira formulação e enquanto participação de todos os cidadãos nas tarefas do Governo, só era concebível dentro das exíguas dimensões geográficas das cidades gregas onde o estatuto de cidadão era atribuído com parcimónia . escravos e mulheres não cabiam dentro da definição. Ao querer transpor para espaços maiores e com uma abrangência conceptual mais ampla, os senados, os parlamentos, foram a maneira que se encontrou para ultrapassar a impossibilidade de «estar o povo a reunir-se constantemente para tratar da coisa pública». Simbolicamente, o povo reunia-se todo, delegando em representantes a defesa dos seus interesses e pontos de vista. E aludindo ao parlamento inglês , seu contemporâneo, Rousseau foi peremptório: «O povo inglês, crê-se livre e bem se engana; só o é enquanto dura a eleição dos membros do Parlamento; assim que estes são eleitos, é um escravo, não é coisa alguma» (…) «A ideia dos representantes é moderna; vem-nos do governo feudal» (…) «Nas antigas repúblicas, nunca o povo teve representantes; era uma palavra desconhecida» (…)» Logo que um povo se atribui representantes, deixa de ser livre; mais, deixa de ser.»
Considerações que continuam a ser actuais, pois nas democracias dos nossos dias, terminado o período eleitoral em que todas as promessas se fazem, em que se apertam mãos e distribuem sorrisos, o deputado esquece-se que teoricamente só é Poder através do mandato dos seus eleitores, passando a ser um dócil peão que o secretário-geral do seu partido movimenta no tabuleiro político conforme melhor entende. Um exemplo desta perversão, têmo-lo na própria vitória do Syrisa – o programa eleitoral de Alexis Tsipras não o autorizava a negociar com forças de direita. Mas, vencedor, o programa deixa de ser importante, prevalecendo as regras do «jogo democrático»- e aqui voltamos a Rousseau em que o «contrato social» estabelecido (por via eleitoral ou outra) é um pacto entre indivíduos livres para se criar regras sociais e só depois um Estado assente nessas regras – ou seja, o contrato é um acordo de associação e não de submissão. Passos Coelho e o seu bando de oportunistas e incompetentes, foi eleito com base em promessas eleitorais que foram, desde o primeiro dia, esquecidas. A primeira promessa quebrada, na concepção rousseauniana, determinaria a demissão do executivo por violação do acordo.
Tal como a Grécia dos nossos dias pouco tem a ver com a Grécia Antiga, a democracia nas suas formas actuais pouco mais é do que uma reminiscência e uma utopia. Não regista a história qualquer exemplo de um estado governado pelo povo. O que não deve impedir que lutemos por arribar a essa utopia. As novas tecnologias permitem que, através de um simples telemóvel, se envie e receba mensagens – a impossibilidade de «estar o povo constantemente a reunir para tratar da cousa pública», deixou de existir. O que não deixou de existir foi o impulso para o canibalismo que nos vem da noite dos tempos

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