A QUANTITATIVE EASING DE DRAGHI: UMA SAÍDA DA CRISE OU O ÚLTIMO PREGO NO CAIXÃO DA EUROPA? – ANÁLISE DA QE POR ANDREW HUSZAR, ANTIGO GESTOR E DIRECTOR DO PROGRAMA NO FED

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Selecção, tradução e notas por Júlio Marques Mota

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A quantitative easing de Draghi:  uma saída da crise ou o último prego no caixão da Europa?

3. Análise do QE por Andrew Huszar, antigo gestor e director do programa no FED

 

 Andrew Huszar, Confessions of a Quantitative Easer

Wall Street Journal, 11 de Novembro de 2013

Tradução por Rémi para o site Les-crises.fr em 15 de Novembro de 2013

 

 Nota de Júlio Marques Mota

Excelente e edificante  artigo publicado no Wall Street Journal, a  11/11/2013 escrito por um antigo trader do FED.

 ***

Lançamo-nos numa febre de compras em  obrigações que eram supostas  ajudar a economia real. Na realidade, isto tornou-se um verdadeiro banquete para os homens de  Wall Street.

Posso apenas dizer à América: tenho muita pena.   Como antigo funcionário da Reserva Federal (FED), estava encarregado do principal programa posto a funcionar  pelo FED aquando da sua primeira aventura no resgate de obrigações, o programa Quantitativo Easing. O banco central definiu o QE como um instrumento de apoio à economia real. Mas acabei por perceber para que  é que este programa foi realmente  concebido: o maior financiamento de todos os tempos  de Wall Street.

Há cinco anos, aquando de Black Friday, o FED lançou-se num programa de compra sem precedentes. À esta etapa da crise financeira, o Congresso já tinha aprovado uma lei, o programa de Troubled Asset Relief, para evitar o desmoronamento do sistema bancário dos  EUA. Contudo, fora de Wall Street, a crise estava ainda num pico muito alto . Durante os três últimos meses de 2008, quase dois milhões de Americanos vão perder o seu emprego.

O FED declarou querer dar  a sua ajuda, através de  um programa de resgates massivos de obrigações. Havia objectivos secundários, mas Ben Bernanke anunciou claramente que o objectivo principal do FED era “(o de”) influenciar sobre as condições de crédito para as famílias e para as empresas ‘ a fim de fazer reduzir o custo para que mais americanos pudessem pedir empréstimos  e reduzir assim os efeitos da situação de depressão  económica. É por isso que durante uns tempos se  tem chamado a este mecanismo  “o crédito easing”.

O meu papel nesta história tem começou ums meses mais tarde, na  Primavera de 2009. Depois de ter  trabalhado no  FED durante sete anos, até o princípio de 2008, trabalhei nesse tempo em  Wall Street quando recebi o telefonema  inesperado. Pediram-me se eu estaria de acordo em regressar ao FED  para trabalhar na sala dos mercados do FED. O meu trabalho: gerir o programa de compras frenéticas  de obrigações no seio da  QE – uma tentativa insensata de compra de obrigações hipotecárias por um montante de 1.250 mil milhões de dólares sobre  12 meses. Incrivelmente, o FED chamava-me para me perguntar se eu queria gerir o maior estímulo económico de toda a história americana.

Era um trabalho de sonho,  mas hesitei. E não somente por causa da  pressão que acompanha  uma  tal responsabilidade. Tinha deixado o FED por frustração à força  de ver esta instituição submeter-se cada vez mais às ambições de Wall Street. A independência  tem de estar no centro  da credibilidade de qualquer banco central e tinha vindo a acreditar que a do FED estava a diminuir. Altos funcionários  do FED tinham reconhecido publicamente erros e vários de entre eles indicaram-me pessoalmente o seu forte empenho numa reestruturação essencial de Wall Street. E constatei igualmente que tinham desesperadamente necessidade de reforços. Tive  fé.

Durante quase em 100 anos de existência, o FED nunca tinha comprado só uma uma obrigação hipotecária. Agora, o meu programa era comprá-las  diariamente em grande número por trocas directas, não programadas, em que corríamos constantemente o risco de fazer subir  excessivamente os preços das obrigações, destruindo a confiança nos principais mercados financeiros. Trabalhamos febrilmente para manter a impressão que o FED sabia que fazia.

Não foi preciso muito tempo para que as minhas  dúvidas reaparecessem.  Apesar do discurso do FED, o meu programa não facilitava em nada o acesso ao crédito para o americano médio. Os bancos emitiam dissimuladamente cada vez menos crédito e, os créditos que atribuíam ou renovavam não se tornavam muito menos caros. O QE diminuiu talvez o preço  por grosso do crédito para os bancos, mas com Wall Street a recuperar a maioria da diferença.

Depois de  estar na frente, vários outros gestores  do FED começaram a emitir as sua dúvidas relativamente  aos factos que o QE não estava a funcionar como previsto. As nossas advertências permaneceram letra  morta. No passado, os revendedores do FED, mesmo se  acabassem por se  enganar, preocupavam-se de maneira obsessiva da relação  benefício/custo de qualquer operação de importância. Agora, a única obsessão parecia ser o novo estudo sobre as expectativas dos mercados financeiros ou mais recentemente  a reacção pessoal dos principais banqueiros e outros directores de  hedge-funds. E tanto pior para o contribuinte americano.

O primeiro  QE terminou a 31 de Março de 2010. Os resultados finais confirmaram que embora haja um ligeiro impacto positivo para a economia real, tudo isto foi um verdadeiro  jackpot para Wall Street. Os bancos não somente beneficiaram de baixos custos para emprestar, mas aproveitaram-se  igualmente de enormes mais-valias sobre a sua carteira de activos e importantes comissões para negociar a maior parte das transacções do QE. O  melhor ano de todos os  tempos para Wall Street foi o de 2009  e o ano de  2010 começou nas mesmas bases.

Poder-se-ia pensar  que o FED, em qualquer momento, gastou algum do seu tempo a reflectir  e a  para avaliar os resultados do programa  QE. Desenganemos-nos! Depois de alguns meses, uma baixa de 14% dos mercados bolsistas e um aumento da fraqueza bancária, o FED anunciou um novo programa de resgates de activos: o QE2. O ministro das finanças alemão, Wolfgag Schäuble, qualificou  imediatamente esta decisão como sendo “ estúpida”.

Foi neste momento  que tomei consciência do facto de que o FED tinha perdido toda e  qualquer capacidade de reflexão independente  em relação a Wall Street. Desmoralizado, voltei de novo para o sector  privado.

Onde estamos  hoje? O FED continua comprar cerca de 85 mil milhões de dólares por mês de obrigações, rejeitando  permanentemente qualquer redução, por mínima que seja,  do QE posto em prática. Em 5 anos, as suas compras de obrigações  elevam-se a mais de  4.000 mil milhões de dólares. Incrivelmente e num pressuposto de  contexto de mercado livres e independentes, o QE passou a ser o maior  programa de intervenção governamental sobre os mercados financeiros que até aí tenha existido.

E com que  resultados? Mesmo de acordo com aos cálculos mais optimistas do FED, o QE  terá gerado  apenas  alguns pontos de crescimento nos Estados Unidos.  Em contraste, peritos externos ao FED, como Mohammed El Erian da firma de investimentos Pimco, expressaram a ideia de  que o FED teria criado e teria gasto 4.000 Md$ para obter apenas uns magros  0,25% de crescimento do PIB (ou seja cerca de um aumento de 40 mil milhões de dólares da economia EUA). Estas 2 estimativas mostram que o QE não funciona realmente…

Excepto se for de Wall Street. Acumulando centena de milhares de  milhões de dólares em subvenções opacas do FED, os bancos americanos viram o seu valor bolsista acumulado triplicar desde Março de 2009. Os maiores bancos formam um cartel: 0,2% dos bancos controlam mais de 70% do total dos activos bancários americanos.

Quanto ao resto da América, que tenha boa sorte! As injecções quase permanentes de dinheiro fresco nos mercados feitas pelo FED durante os 5 últimos anos destruíram toda e qualquer necessidade para o governo  enfrentar a  verdadeira crise: a de uma economia americana estruturalmente frágil. Sim, os mercados financeiros refizeram-se  trazendo um fluxo vital nos planos de reformas por capitalização 401k, mas por quanto tempo? Peritos como Larry Fink da firma de investimentos BlackRock sugerem que a situação sobre os mercados financeiros seja ainda muito similar à de uma bolha. E o país fundamente continua  dependente de Wall Street para o seu crescimento económico…

Mesmo reconhecendo os defeitos dos QE, o presidente Bernanke argumenta que uma pequena acção do FED é sempre que nada  (uma posição que o seu sucessor, o Vice-Presidente de Fed Janet Yellen, apoia igualmente). E isto  significa que o FED se sacrifica a compensar as deficiências dos outros órgãos governamentais de Washington. Mas o FED está no centro  do problema. Por exemplo: deixou que o QE se tornasse  a nova política “too big to fail” de Wall Street.

Andrew Huszar est un membre supérieur de Rutgers Business Schools, un ancien gérant directeur de Morgan Stanley. Entre 2009 et 2010, il a géré le programme de rachat d’obligations douteuses de 1 250 milliards de dollars de la Réserve Fédérale Américaine.

Source : Wall Street Journal – Traduction par Rémi pour www.les-crises.fr

 Ver original e tradução francesa em:

http://www.wsj.com/news/articles/SB10001424052702303763804579183680751473884

http://www.les-crises.fr/confessions-quantitative-easer/

A propósito da pergunta acima que resultados encontrámos num site e com data de Novembro de 2014 o seguinte texto, que podemos dar aqui como resposta actualizada:

Como funcionou o programa Quantitative easing nos Estados Unidos?

O QE conseguiu alguns dos  seus objectivos e falhou  completamente outros podendo considerar-se que  esteve na origem de uma bolha. Primeiro, removeu  hipotecas subprime  tóxicas dos balanços dos bancos, restaurando a confiança e, consequentemente,  as operações bancárias. Em segundo lugar, também ajudou a estabilizar a economia dos EUA, fornecendo os fundos e a confiança necessária para se sair da recessão. Em terceiro lugar, manteve as taxas de juros  suficientemente  baixas para reavivar o mercado imobiliário. Em quarto lugar, ele estimulam  o crescimento económico, embora provavelmente não tanto como o Fed teria gostado.

No entanto, não se alcançou a meta pretendida pelo FED  de se disponibilizar  mais crédito na economia. O FED deu  o dinheiro aos bancos, que basicamente  ficaram com  eles e não o recolocaram na  economia real.  Os bancos utilizaram  os fundos para triplicarem os  preços das  acções através de distribuição de mais dividendos e de acções de recompras dos seus próprios títulos. . Os grandes bancos também consolidaram as contas d etal forma que  0.2% dos bancos controlam mais de 70% dos activos  bancários. E como os bancos não colocaram o dinheiro na economia real, não o emprestaram aos consumidores ou empresários,  nem  o consumo nem o investimento foram não foi por esta via dinamizados  e não se fez disparar a inflação como se pretendia. Como resultado, o índice de medida do FED para a inflação, O IPC,  ficou dentro do intervalo do FED.

Por outro lado,  essas massivas compras  criaram  uma bolha de activos, primeiro  sobre o  ouro e outras commodities e depois nos mercados accionistas  como os  investidores a abandonarem o mercado obrigacionista e a entrarem nos mercados de acções.  Uma onça de ouro mais do que duplicou, passando de US $869,75 para US $1.895 entre 2008 e 2011. Depois disso, os investidores desviavam-se para acções negociadas em bolsa. O índice Dow Jones subiu 24% em 2013, com as grandes empresas a  seguiram o exemplo dos bancos e  a fazerem subir o preço das acções  com recompras e dividendos.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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