Seria impossível dissociar a história da literatura galega da história social e política da Galiza, da dos galegos, da de Espanha e da de Portugal. Neste território difuso, cheio de lealdades históricas, políticas de estado nacionais e de patacão, e pleno de planos, estratégias, discursos, consignas, instruções e palavras de ordem, provavelmente o menos importante seja a linguística ou a história; filhas como são ambas, não da ciência senão verdadeiramente da nação, seria inútil recorrer a elas para explicar nem a realidade presente nem o percurso histórico das legitimidades, das trajetórias, das cronologias, das ramas genealógicas.
Se eu tivesse que escrever uma história da língua ou da literatura galega, provavelmente encetaria a fins do século XV. Quando – e justo no momento em que se dá categoria e função de arte à bela escrita – e as línguas emergem reunindo dialetos dentro do mapa fixado, ou elevando um, normalmente o da Corte ou núcleo político-económico a principal.
Na altura em que as tradições genéricas passam a se converter em parte do discurso de consolidação dos poderes políticos emergentes e na fase histórica e processo em que abandonando, o latim, após o efémero lóstrego de glória humanista e universalista, foi desterrado, nas mesmas assas da consolidação e unificação dos Reinos.
No momento em que dentro do entrave da construção do poder real e a ideia do Reino é incorporada como arte às antes legadas por gregos e romanos e ficando constituída uma literatura significante e indentificativa com a língua à par da história e a legislação. Reduzido o latim a língua da Igreja e da ciência, as línguas, literatura e história, em romance ficam companheiras inseparáveis da imprensa e da cartografia.
Nesse contexto marginal estudaria na Galiza, entre os séculos XVI-XVIII as manifestações genéricas conservadas, diferentes do Latim, do Castelhano e do Português, e a sua função ritual, folclórica, costumista, sarcástica, reivindicativa, social e política.
Depois com permissão de Martinho Sarmiento e já nas assas do nacionalismo pleno começaria a estudar os dous processos paralelos e em debate: o da destruição social do galego, como parte do programa do nacionalismo espanhol moderno, e o da construção do galego como língua literária, submetido à sua vez a duas forças contrárias: a da dialetalização em submissão ao castelhano e a da tentativa etimologista de criar um modelo em diversas perspectivas e grados achegado ou comum com o Português.
Bem entrado o século XIX, depois de um longo apartado dedicado aos grandes clássicos, entraria a estudar a função da Literatura medieval e a sua incorporação ao discurso, como primeiro elemento de toda a série de descobertas e debates sobre o passado e a troncalidade com a língua Portuguesa que depois vieram e estão a vir.

1 Comment