CRÓNICA DE DOMINGO – A Idade das Trevas – por Carlos Loures

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Adaptação de um artigo publicado no Estrolabio (CL)

Há tempos recebi por e-mail uma mensagem muito interessante escrita por um professor (José Ricardo Costa). «A Idade das Trevas», foi o título dado. Com a devida vénia, transcrevo alguns excertos, resumindo o restante. Diz ele que ao ajudar o filho a preparar um teste de História e ao estudar a Idade Média, em que «a nobreza vivia fechada sobre si própria», usufruindo dos privilégios que criava, recordou que os nobres se relacionavam entre si, casavam entre si, frequentavam os mesmos castelos, participavam nas mesmas festas e banquetes… E chega à conclusão, curiosa no mínimo, de que em Portugal, há décadas dominado pelo PS e pelo PSD, se verifica uma feudalização da sociedade, bem como uma organização cada vez mais endogâmica.

 E um bom exemplo dessa endogamia, diz  «é o casamento entre a filha de Dias Loureiro, amigo íntimo de Jorge Coelho, e o filho de Ferro Rodrigues, amigo íntimo de Paulo Pedroso, irmão do advogado que realizou a estúpida investigação para o Ministério da Educação e amigo de Edite Estrela que é prima direita de António José Morais, o professor de José Sócrates na Independente, cuja biografia foi apresentada por Dias Loureiro, e que foi assessor de Armando Vara, licenciado pela Independente, administrador da Caixa Geral de Depósitos e do BCP, que é amigo íntimo de José Sócrates, líder do partido a que está ligada a magistrada Cândida Almeida, directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, que está a investigar o caso Freeport, caso onde se tem evidenciado um presidente da Eurojust de seu nome Lopes Mota que, por um acaso da vida, auxiliou essa indefectível democrata e defensora do poder local chamada Fátima Felgueiras. Felizmente que este país tem como ministro da Justiça um Alberto Costa que, a não ser aquela questão das pressões sobre um juiz em Macau, há cerca de 20 anos, pouco ou nada tem feito.» (…) «Talvez isto ajude a explicar o que se passa com a Justiça, a Economia, a Educação» …(e eu acrescento e com a Saúde, e com a Cultura, etc.). José Ricardo Costa termina perguntando «se haverá gente em Portugal a beneficiar com a degradação da escola pública?» Uma pergunta retórica, claro. Perante esta densa teia de «coincidências», só me lembro do «lugar-comum» inventado pelo excelente poeta e jornalista que era Eduardo Guerra Carneiro – «isto anda tudo ligado».

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Esta cadeia de acasos da vida apontada por José Ricardo Costa que, por certo, não é exaustiva e se queda pela superfície, pela nata dos nomes conhecidos, este sistema endogâmico, como muito bem diz, a política de casamentos como a nobreza feudal praticava, faz que a elite governante, seja quais forem os resultados eleitorais, nunca mude no que é essencial – mudam e trocam-se alguns nomes, mas a nova aristocracia vai cimentando o seu poder. O «bloco central» não é uma figura de estilo, ou uma «invenção de esquerdalhos ressabiados», como já ouvi dizer. Existe, funciona, faz complicadas operações de engenharia financeira (trafulhices, simplifica o nosso bom povo); por exemplo quando um membro da tribo administra um banco vende acções a baixos preços, sabendo que o seu valor vai subir no dia seguinte, fazendo-o ganhar legalmente centenas de milhares de euros de um dia para o outro (favor que o beneficiado não deixará de pagar na primeira ocasião que se apresente, pois uma das regras do jogo é a não haver almoços grátis); os membros da tribo arranjam cargos e bons empregos uns aos outros, na vida académica amparam-se mutuamente, e quando algum deles ou um familiar tem problemas com a Justiça, logo aparecem os amigos a dar uma mão. É gentinha medíocre, de ideais rasteiros e patrimónios elevados, mas está aí para ficar. Governa, sobe aos mais altos lugares do Estado e desce às mais baixas alfurjas das negociatas obscuras. Não se chamam Bourbons, Habsburgos ou Braganças, têm nomes vulgares, iguais aos de toda a gente, são filhos, não de condes ou de duques, mas de gente comum, com profissões ou negócios comuns, mas usam as mesmas artimanhas dos condes e dos duques, incluindo a política de casamentos. Tráfico de influências? Nepotismo? Não, que ideia, apenas boas relações entre familiares e amigos, mesmo que pertençam a partidos rivais. O fair play prevalece.

A endogamia, termo que na acepção mais próxima da tese de José Ricardo Costa, significa casamento dentro da própria família, tribo, classe ou entre habitantes dum povoado ou região, foi amplamente praticada entre as famílias nobres não só na Idade Média, como na Idade Moderna, chegando mesmo até aos nossos dias nas relativamente numerosas monarquias que subsistem em nações europeias. Sem cair no pormenor, pode dizer-se que em várias épocas e situações, famílias, irmãos, primos, filhos e pais, ocuparam tronos, guerrearam-se entre si, provocaram milhares de mortos, terríveis devastações entre os súbditos. Muitas vezes, depois destas hecatombes horrorosas, passando por cima dos cadáveres e das ruínas, selavam a paz com beijos e abraços, tratando-se por «querido irmão», «amado primo», «meu bondoso pai». Bem sei que aqui em Portugal não estamos a falar de Bourbons ou de Habsburgos, mas sim de gente com linhagens menos ilustres, mas o que importa salientar é a técnica e a táctica, tão semelhantes. Perguntarão? E só em Portugal é assim? Claro que não. Veja-se o caso de Itália, país com uma democracia com mais de seis décadas, com um nível cultural e económico mais elevado do que o nosso, onde um mafioso truão é, em 2008, democraticamente eleito primeiro-ministro pela quarta vez. De origens humildes, imagem típica do self-made man, é dono de uma das quinze maiores fortunas do mundo. Só há uma diferença – ele não diz que é socialista nem que quer transformar a sociedade…

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«Sistema daqueles que querem transformar a sociedade pela incorporação dos meios de produção na comunidade» (…) «pela repartição, entre todos, do trabalho comum e dos objectos de consumo». O meu querido e saudoso amigo José Pedro Machado enganou-se rotundamente na sua definição ou então estava a falar de outro socialismo. O filólogo brasileiro Antônio Houaiss, sendo menos ambicioso, aproximou-se mais da realidade «conjunto de doutrinas de fundo humanitário que visam reformar a sociedade capitalista para diminuir um pouco das suas desigualdades». Está mais próximo, embora a redução das desigualdades diminua muito pouco, tão pouco que às vezes nem se nota que haja alguma redução. As doutrinas de fundo humanitário são, de facto, um péssimo motor para o socialismo.

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Usando a metáfora inspirada na bela peça de Tennessee Williams, para onde nos levará o eléctrico chamado socialismo que, segundo tudo indica, aí vem conduzido por António Costa? Não há muitas dúvidas – o eléctrico cor-de-rosa do socialismo transportar-nos-á ao mesmo lugar onde nos levaria o machimbombo cor-de-laranja do PSD (levaria, não, levará, porque a viagem será feita por troços – eléctrico, machimbombo, eléctrico…) até à estação terminus – a entrega total da soberania, do direito de gerirmos os nossos recursos, a centros de poder e decisão «comunitários», localizados, por mero acaso, em Berlim e Francoforte, em Paris, Bruxelas ou Estrasburgo… A aristocracia indígena embolsará o produto da venda e os felás e felaínas (nós) mal nos aperceberemos do que se passou. Perda da independência? Não, que ideia. Eles abrirão e fecharão fábricas quando e como quiserem, dirão como devemos organizar a nossa economia, as nossas vidas, o que devemos comprar, quanto devemos pescar, o que poderemos semear…

Mas a selecção nacional de futebol, a bandeira e o hino, símbolos maiores da independência nacional, talvez não nos estejam vedados.

Nem sei porque me preocupo.

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