Já vem desde 11 de Dezembro de 2014 mas estará patente até 12 de Abril de 2015.
Com curadoria de Catarina Alfaro, retiramos a seguinte informação:
“A exposição Paródias: Paula Rego/ Rafael Bordalo Pinheiro delineou-se no amplo contexto de referências indirectas de Paula Rego e estruturou-se, desde logo, a partir de um diálogo, não ilustrativo, entre as obras dos dois artistas, distanciadas por mais de um século, que transmitem uma visão crítica da vida e dos costumes portugueses da sua época.
A utilização da produção artística como meio privilegiado de denúncia socio-política é marcante no percurso inicial de Paula Rego, a partir dos anos 60. As obras concebidas durante estes anos remetem para a situação política do país, comentando-a de forma sarcástica e crua. As inquietações políticas atravessam a obra da pintora neste período em particular, marcado pela ditadura, mas em todas as fases posteriores do seu trabalho essas reflexões estão presentes. Já o olhar de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) dirige-se quase sempre para a descrição visual, de traço humorístico, das peripécias políticas do seu tempo que, durante o constitucionalismo liberal dos anos 70 de 1800 e até aos primeiros anos de 1900, foram variadas e constantes e se publicaram nos vários jornais e álbuns de caricaturas que fundou e participou. Os comentários políticos do artista, carregados de humor ou mesmo de violência satírica, organizam-se a partir de um eficaz e sintético jogo visual entre o desenho e a palavra que permite, de imediato, o reconhecimento das personagens caricaturadas que são, afinal, as figuras que protagonizaram a ascensão e decadência do sistema rotativista adoptado durante a monarquia constitucional. Será sobretudo nas duas publicações seriais que editou e dirigiu −”O António Maria” (Primeira e Segunda Série, 1879-1898) e A Paródia (1900 até à data do seu falecimento)−, e das quais se seleccionaram para esta exposição 55 litografias (da colecção de Isabel Castanheira ) e 7 desenhos originais (da colecção do Museu Bordalo Pinheiro), que este contundente exercício visual e narrativo de um cronista do presente atingirá o seu fulgor criativo.
Esse processo de denúncia social e política é elaborado pelos dois artistas a partir de uma observação atenta do quotidiano que reflecte, apesar da distância cronológica que os separa, o modo como o contexto ideológico, filosófico, político e mesmo moral do realismo foi determinante na definição do percurso artístico de ambos.
A ópera e o teatro são dimensões artísticas frequentemente convocadas por ambos e criam paralelismos, por vezes desconcertantes, entre a vida e o palco. O mundo operático registado pictoricamente por Paula Rego na série As Óperas, realizada durante o ano de 1983, convoca dinâmicas trágico-cómicas entre personagens humanas, animalizadas e animais humanizados. A dimensão pluridisciplinar da ópera é, na essência, conjugadora de formas e recursos expressivos que enriquecem o modo como se contam histórias. A selecção destas histórias pela artista, para figurarem nas suas obras, foi realizada em total coerência com a pesquisa pictórica que vinha desenvolvendo: o drama das relações humanas, sem artifícios nem heróis. As obras criadas a partir destas óperas, como Aida, Rigoletto e La Traviata, são o depósito residual de muitas das histórias que aí se contam. O registo humorístico é inseparável dos dramas existenciais que se vivem em simultâneo e com a mesma intensidade, esboroando-se as fronteiras traçadas por Aristóteles entre a tragédia e a comédia.
A anterior experiência teatral de Rafael Bordalo Pinheiro, como actor e figurinista, permite-lhe reconstruir com o auxílio da sua memória fotográfica os cenários, figurinos e artistas dos espectáculos a que assistia no São Carlos e noutros teatros de Lisboa. Outras vezes, as suas impressões gráficas teatrais ou operáticas são ficcionadas e coloca em palco os grandes intervenientes da cena política. A Opera Constitucional − uma litografia publicada em A Paródia, em 1902 − é um exemplo deste exercício de metaforização explícita da vida parlamentar denunciando-se, através da caricatura, as suas imperfeições. Bordalo executa retratos caricaturados na construção dos actores e das personagens líricas que entram em cena, mas neles estão sempre presentes profundos comentários sociais e psicológicos que vão muito para além da dimensão exclusivamente política do retratado. Mais do que a reflexão política e satirização do quotidiano, aquilo que parece unir o universo criativo dos dois artistas é o mundo ambíguo e complexo de interacção entre humanos, animais, vegetais e híbridos que funciona também como complemento humorístico das suas composições, conferindo aos animais uma dúplice condição que preserva, por um lado, a sua singularidade mas que, por outro, a cumula com a sua humanização, fundada em estereótipos relacionais. A série zoo-política que o artista inicia em A Paródia com o desenho A Política: A Grande Porca traduz exemplarmente esta duplicidade.
O vasto inventário animalista foi igualmente explorado nas criações do artista em faiança de teor naturalista, onde abundam floras e faunas rústicas, com flores, frutos, vegetais, gatos, peixes, batráquios, mariscos, répteis, insectos, todos eles de modelação pormenorizada e pintados realisticamente. Estas fabulosas criações assumem, muitas vezes, características funcionais transformando-se em objectos do quotidiano inspirados numa tradição nacionalista e pitoresca, de gosto decorativista, e entrando na domesticidade nacional através do circuito fabril das Caldas da Rainha.
Os animais servem os dois artistas porque as emoções humanas são neles facilmente identificáveis por associações que vêm da cultura popular e que se estabelecem de imediato. Talvez essa seja a razão pela qual ambos se auto-retratam em figuras de gatos. Rafael fá-lo amiúde e veste a pele do seu gato pachorrento, o gato Pires, e Paula retrata-se, na gravura A Frog he would a-wooing go II, assumindo os instintos próprios do animal em que se transforma: um verdadeiro predador que antes de engolir a sua presa brinca com ela.
Mas aquilo que imediatamente relaciona as obras dos dois artistas, separados por mais de um século e pelas características únicas da sua expressão individual, não são as temáticas que abordaram nem o modo como tecnicamente as desenvolveram. O que as une é o inequívoco facto de, tanto Rafael Bordalo Pinheiro como Paula Rego, terem feito da sua produção artística um elemento diluidor das hierarquias e de diferenciação entre a arte erudita e a popular, sempre comunicante com o tempo presente através das suas vozes críticas, por vezes mordazes e socialmente interventivas.”