Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
A caminho da Grécia, a caminho da libertação da Europa – a luta contra a austeridade
Eleições na Grécia: retóricos 1 – banqueiros 0
Jean-Paul Brighelli, Elections grecques: rhétoriciens 1 – banquiers 0
Revista Causeur, 27 Janeiro de 2015.
Os Gregos acabam de reinventar a democracia, e não se passa nada. E desta vez, trata-se mesmo da vontade popular, muito cansada de ver a “Troika” a governar na sua própria casa, e os bancos alemães (essencialmente) a engordarem sobre as costas do povo com menores recursos na Europa.
Está ainda para ver se será suficiente para impulsionar na Europa a aplicação de uma teoria dos dominós — a Espanha de Podemos primeiramente, talvez, seguidamente, o mesmo a acontecer de país a país … E não é uma questão de Esquerda/Direita, mas de soberania ou de servidão voluntária.
Alguns eurocratas devem estar já a combinar nos laboratórios de Bruxelas a sua resposta (David Cameron reagiu com a honestidade do lacaio de banqueiro, que é o que ele é, François Hollande, que não o é menos, embelezava a questão com múltiplos floreados linguísticos). A dívida grega foi fechada a cadeado — no momento em que o BCE apaga alegremente, com um simples traço a caneta, o que ele quer mesmo apagar, talvez por medo de um contágio. Haverá nos dias que se seguem um jogo de póquer mentiroso interessante. Alexis Tsipras não tem outra carta na mão que não seja a chantagem do contágio e a passagem da Espanha à esquerda — uma verdadeira esquerda que não se contorça a abanar-se, toda ela a tentar bater o recorde do mundo dos répteis — seria uma notícia de tal forma pesada para os que se enriquecem com a pobreza das nações em dificuldade.
Ao fim e ao cabo, a Europa andou a pedi-las. Em qualquer parte, por detrás da burocracia de Bruxelas, uma vez que nos tempos de hoje as coisas se definem em Berlim, a ideia de soberania continuava a viver. É esta ideia que Tsipras pode pôr sobre a mesa: os senhores renegoceiam a minha dívida – os senhores já beneficiaram suficientemente de benefícios indevidos — ou então o direito dos povos a disporem de si mesmos estender-se-á a todos os países em crise no continente. Ah, isso irá zangar a City e o Bundesbank? Pois bem, passo por cima disso.
E não foi simples. Os jornais europeus, como um todo, andaram a atirar bolas vermelhas desde há três meses sobre a hipótese de uma vitória do Syriza. O jornal oficial francês, quero dizer, o jornal Le Monde, multiplicou os artigos para explicar que um “mau voto” grego era um portador de apocalipse. Ter-se-ia acreditado estar a ouvir Harpagão a queixar-se do desaparecimento próximo da sua cassete. Os jornais gregos, todos eles nas mãos do que na Grécia se chamam os oligarcas, tinham subestimado sistematicamente em sondagens de treta a percentagem dos gregos susceptíveis de se lançarem na aventura. Mas bom, este povo venceu os Persas, e Dario ou Xerxe eram de argamassa bem diferente do que Angela Merkel. Tsipras acaba de ganhar Salamina pela segunda vez.
Não posso deixar de pensar (Tucídides, sai deste corpo!) que vem aí um enésimo combate entre as Luzes e os Bárbaros. De um lado o povo com mais retórica no mundo. Do outro, as pessoas que falam números.
E só as putas são seduzidas pelos economistas; para os outros, é necessário amadores da boa linguagem.
Não seria mal que nos próximos tempos, toda a Europa se pusesse a falar grego — ou, se se preferir, que cada um recomeça a falar a sua língua.
P.S. Le regretté Charb avait exprimé fort éloquemment les bonnes manières de la « troïka » envers les Grecs. Je lui laisse donc la parole, pour fini
(O saudoso Charb descreveu de maneira muito eloquente as boas maneiras da troika para com os gregos. Assim, passo-lhe a palavra, para terminar).
Jean-Paul Brighelli, Revista Causeur, elections grecques: rhétoriciens 1 – banquiers 0.
Texto disponível em:
http://www.causeur.fr/grece-tsipras-syriza-31248.html



