De pé, vergadas sobre o chão, sem poisar os joelhos na terra, faziam a erva verde cair graciosa e tenra na voragem da foicinha, ao jeito de mãos hábeis e calejadas. Desenhados em curvas, pequenos montes de feno esperavam pelo vime a uni-los em molhos.
À noite seriam o manjar do gado no curral.
Desprendia-se do lameiro um cheiro a fresco.
Via-as da minha varanda, mãe e filha, e desatava a correr para o campo:
– Deixem-me apanhar um bocadinho de erva .
– Ainda vais cortar os dedos!
De pequenita sempre gostei de apanhar erva, apertá-la tenra e fresca nas mãos, sentir o cheiro verde e macio da seiva.
A capela cheirava a flores. O frio da pedra era cortante. No meio, a Maria virada para o altar ao lado da Senhora da Boa Viagem, partia deste mundo ao fim de oitenta e oito anos. Levava nas mãos um raminho de rosas brancas com a ternura da minha despedida. Naquela capela a vi casar num fato cinzento e véu curto a servir de toucado. A boda fora debaixo da ramada. Na fotografia a preto e branco lá estou eu, pequenita, no orgulho das minhas tranças, sentada à frente dos noivos.
A Maria e a família eram também a nossa família. Todas as noites lá ía com o meu irmão buscar o leite. À luz da candeia, desenhados na sombra, os bois na manjedoura, tomavam formas gigantescas, na escuridão do curral, e a Maria mungia as vacas de úberes inchados fazendo o leite chiar no latão, a espumar de brancura.
-Não meijes com a candeia na mão. Pousa a candeia, menino, que isso não é bom!
Foi naquela casa que comi o melhor arroz de galinha com olhinhos de gordura ao delasso, a cozer em panelas de ferro de pernas. Foi lá que tão bem me soube o leite com cevada, sentada num banquinho de pau à lareira.
Por ali crescemos desde a sementeira à colheita, na eira, na barrela, no palheiro, no lagar, nos currais do gado, empoleirados na ventaneira, na charrua, no semeador, nos foeiros do carro de bois… Ali nos formámos nas artes do campo.
Já a minha Universidade era outra e sempre que da minha varanda as via no lameiro, corria a pedir que me deixassem pegar na foicinha. Prometia que não ababalhava.
Riam-se de alegria e surpresa e com todo o carinho me entregavam a foicinha.
Vai estragar as mãos delicadas!
Era outro o tratamento mas a sensação era a mesma de criança.
Na capela, um turbilhão de sentimentos e pensamentos voaram pelos tempos fora até ao lameiro, nos belos dias de Primavera ao fim da tarde.
Nele colhi o raminho de rosas que depus nas suas mãos. Era um raminho de erva., com um cheiro mais sagrado do que o incenso no altar.

