Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte II – A escrita manual e o desenvolvimento intelectual. Escrever é pensar, e pensar é o caminho para agir.
Escrever e ler são recíprocos. Ambos são necessários para que as crianças se tornem leitores e escritores fluentes
Autora anónima do sítio Learning for Life da plataforma Medium
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Nota de editor:
A ordem que se segue nesta Parte II respeita a progressão de dificuldade estabelecida pelo autor da série — N1, N2, N3 — com uma sequência interna a cada grupo pensada para maximizar a coerência de leitura: dos conceitos mais gerais para os mais específicos dentro de cada nível. O presente texto enquadra-se no Nível 2.
FT
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
8 min de leitura
Texto 12 – Teclado ou Caneta: O que é que é melhor na sua sala de aula?
Publicado por
(original aqui)
A aprendizagem digital está a mudar rapidamente o cenário educativo. Como é que se está a responder a essa mudança?
Imagine que a sua escola está a elaborar uma nova política para decidir se os alunos deverão ter permissão para fazer anotações num computador portátil. Você pode contribuir com ideias para apoiar ou contestar esta proposta.
Será que acha que está preparado para fazer essa escolha? Vem-lhe algum argumento à cabeça?
Hoje em dia, muitos investigadores estão interessados em encontrar as melhores estratégias para aprender e ensinar. O objetivo dos seus estudos varia desde as bases neurológicas até às bases psicológicas da aprendizagem.
Vamos analisar algumas das suas descobertas e ver quais os factos que podemos descobrir sobre a escrita à mão e a tomada de notas por meio da digitação.
Estudo de EEG do Cérebro Humano durante Digitação, Escrita e Desenho
Os cientistas usam imagens cerebrais para estudar o papel do cérebro na leitura e na escrita. Ao estudar as regiões cerebrais ativadas durante uma atividade, os cientistas determinam o quão útil cada atividade é para a aprendizagem.

Eva Ose Askvik, F. R. (Ruud) van der Weel e Audrey L. H. van der Meer, do Instituto Norueguês de Ciência e Tecnologia, conduziram este estudo. Eles utilizaram um eletroencefalograma de alta densidade (HD EEG) em 12 jovens adultos e crianças de 12 anos para estudar a atividade elétrica cerebral enquanto os participantes escreviam em cursiva à mão, digitavam ou desenhavam palavras apresentadas visualmente, com variação no nível de dificuldade.
A análise da variação de amplitude ao longo do tempo nos dados de EEG para jovens adultos revelou atividade sincronizada na região teta, nas áreas parietal e central do cérebro. Investigações existentes correlacionam esse tipo de atividade cerebral com a formação de memória e a codificação de novas informações. Por outras palavras, isso indica uma condição ideal para a aprendizagem.
Um tipo semelhante de ativação nas áreas parietais foi encontrado quando os participantes foram solicitados a desenhar à mão.
Por outro lado, ao digitar num teclado, foi registada atividade dessincronizada na faixa teta nas regiões parietais e centrais do cérebro. Esse padrão contrasta com o desenho e a escrita à mão, e a sua relação com a aprendizagem permanece obscura.

Com base nos resultados, os investigadores concluíram que o desenho e a escrita à mão produzem os benefícios da integração sensório-motora devido ao grande envolvimento dos sentidos, bem como ao controle fino e preciso dos movimentos da mão. A atividade cerebral correspondente nas áreas parietal e central do cérebro é crucial para facilitar e otimizar a aprendizagem.
Investigações anteriores estabelecem a escrita cursiva e a digitação como duas formas distintas de escrita do ponto de vista sensório-motor. (Longcamp et al., 2005, 2006; Alonso, 2015) Estas atividades envolvem processos distintos no cérebro.
A escrita cursiva envolve uma coordenação fina dos movimentos da mão para produzir o formato de cada letra, enquanto a digitação envolve muito menos informação cinestésica. De acordo com Van der Meer e Van der Weel, a escrita à mão e o desenho são tarefas complexas que exigem diversas competências.
Influência da Prática da Escrita no Reconhecimento de Letras
Num estudo realizado na Universidade de Aix-Marseille com 76 crianças entre três e cinco anos de idade, os investigadores Marieke Longchamp e Jean-Luc Velay descobriram que as crianças que aprenderam a escrever letras à mão eram melhores a identificá-las do que aquelas que aprenderam as letras digitando-as num teclado.
Para realizar este estudo, os investigadores treinaram dois grupos de 38 crianças a copiar letras do alfabeto, seja à mão ou digitando-as. Foram escolhidas 12 letras maiúsculas para a experiência. O objetivo era ensinar os 12 caracteres às crianças através de treino de digitação e de escrita à mão.
Para o treino de digitação, 4 palavras compostas pelas 12 letras selecionadas eram apresentadas no canto superior esquerdo do ecrã do computador, com caracteres de 3 cm de altura. Pedia-se às crianças que reconhecessem os caracteres no ecrã, os encontrassem no teclado e os digitassem. Após identificarem com sucesso todas as letras de uma palavra, a palavra seguinte era exibida no ecrã.
O mesmo processo foi repetido para o treino de escrita à mão, com a diferença de que a palavra era apresentada no canto superior esquerdo de uma folha de papel, com caracteres de 3 cm de altura. Pedia-se às crianças que copiassem as letras da palavra por baixo da palavra apresentada, utilizando um marcador de feltro.
Após três semanas de treino, foram realizados dois testes de reconhecimento. O primeiro teste foi conduzido imediatamente a seguir ao final da sessão de aprendizagem e o segundo uma semana depois.
As crianças foram colocadas em frente a um ecrã de computador para a realização dos testes de reconhecimento. Foram apresentados quatro padrões semelhantes a caracteres no ecrã, dos quais apenas um caractere havia sido ensinado na experiência (os outros três eram distrações). Foi pedido às crianças que identificassem a letra que aprenderam durante a experiência e que apontassem para ela com o dedo indicador.

Os investigadores registaram as respostas no teclado do computador. A posição do caractere e das distrações foi alterada ao longo da experiência. As crianças de cada grupo foram ainda categorizadas em três subgrupos com base na idade: Mais Novas, Intermédias e Mais Velhas.

Os resultados mostram que a diferença no reconhecimento de letras não é significativa para as duas formas de aprendizagem, a menos que as crianças sejam um pouco mais velhas. Por outras palavras, aprender caracteres por meio da prática de escrita à mão ajuda as crianças a memorizar a forma das letras melhor do que a digitação, desde que não sejam muito novas.
Comparação de Desempenho entre Anotações à Mão e em Portátil
Os investigadores Pam Mueller e Daniel Oppenheimer conduziram três experiências como parte de um estudo. Para isso, convidaram 327 estudantes da Universidade de Princeton e da Universidade da Califórnia.
Os investigadores estavam interessados em compreender o impacto do comportamento de registo de anotações. As suas conclusões sugerem que, quando são utilizados computadores portáteis para fazer anotações, eles promovem um processamento superficial do que é ouvido durante a aula. Os estudantes que anotavam dessa forma tiveram um desempenho inferior em questões conceptuais em comparação com aqueles que faziam anotações à mão.
Além disso, os estudantes que fazem anotações no portátil tendem a registar as informações de forma literal, em vez de refletirem sobre elas e as reformularem com as suas próprias palavras. Esta tendência é prejudicial para a aprendizagem.
Os especialistas dividem a tomada de notas em duas categorias: generativa, que envolve resumir e parafrasear, e não-generativa, que implica copiar literalmente o que é ouvido ou visto.
As investigações existentes associam a tomada de notas literal a um processamento cognitivo superficial. Por outro lado, quando a informação é processada durante a tomada de notas — como acontece com a escrita à mão — existem maiores benefícios de codificação, nomeadamente em termos de aprendizagem e retenção. A tomada de notas literal foi experimentalmente verificada (por Bretzing & Kulhavy, 1979; Igo, Bruning & McCrudden, 2005) como um indicador de fraco desempenho, particularmente na área da compreensão conceptual.
O uso do portátil facilita a transcrição literal das aulas, pois a maioria dos utilizadores consegue escrever mais rapidamente do que à mão. Assim, digitar oferece um benefício de armazenamento ao registar mais notas, mas exclui o benefício de codificação que ocorre quando os estudantes refletem sobre o que ouviram antes de o anotar.
O material utilizado nas três experiências consistiu em cinco palestras TED (conversações longas) com duração ligeiramente superior a 15 minutos, e os temas abordados foram escolhidos por serem interessantes, mas não de conhecimento geral.
No primeiro estudo, os participantes que fizeram anotações à mão escreveram significativamente menos palavras (M = 173,4; DP = 70,7) do que os que digitaram (M = 309,6; DP = 116,5). Ao mesmo tempo, a sobreposição literal dos utilizadores do portátil foi também superior à dos estudantes que anotaram à mão. A Figura 5 compara a média do número de palavras registadas e a sobreposição literal nos dois grupos de estudantes.

Este estudo demonstrou que os utilizadores de computadores portáteis tendem a fazer anotações mais longas e do tipo transcrição. Foi também observada uma maior sobreposição literal com o conteúdo da aula. Embora pareça que uma maior quantidade de anotações ou uma tomada de notas exata seja benéfica, a transcrição mecânica causa mais prejuízo, especialmente quando não há oportunidade de revisão.
O segundo estudo teve como objetivo replicar o processo do 1.º estudo, com uma intervenção adicional aplicada a metade dos estudantes que tomavam notas com computadores portáteis. Os investigadores pretendiam verificar se a intervenção poderia reduzir os efeitos negativos deste estilo de tomada de notas. Esta experiência envolveu 151 participantes.
O grupo de intervenção foi alertado para a tendência de transcrever mecanicamente o conteúdo das aulas. Foi-lhes pedido que tirassem apontamentos “com as suas próprias palavras e não escrevessem literalmente” aquilo que o orador dizia.
A segunda experiência mostrou que, mesmo com a intervenção, o grupo que tirou apontamentos no portátil registou consideravelmente mais palavras do que aqueles que tiraram apontamentos à mão. Além disso, o desempenho deste último grupo foi muito superior nas questões conceptuais em comparação com qualquer um dos grupos que utilizaram portáteis para tirar apontamentos.
A média e o valor z dos três grupos são apresentados na Tabela 1
Como parte do terceiro estudo envolvendo 109 alunos, os participantes que receberam o conteúdo da palestra foram convidados a retornar após uma semana para um teste. Metade dos alunos de ambos os grupos de digitação e de anotação à mão foram convidados a passar pelas suas anotações durante 10 minutos antes do teste, e a outra metade de ambos os grupos foi apresentada com o teste imediatamente.
Os participantes que fizeram anotações à mão e puderam estudá-las tiveram um desempenho significativamente melhor (pontuação z média = 0,19) do que os participantes de qualquer uma das outras condições (pontuações z médias = −0,10, −0,02, −0,08), t (105) = 3,11, p = 0,002, d = 0,64 (ver Fig. 5).
Quando os participantes tiveram a oportunidade de rever as suas anotações, as anotações feitas à mão produziram os melhores resultados. Os resultados mostram que, apesar da quantidade comparativamente menor de anotações produzidas pela técnica manuscrita, ela apresentou uma função de codificação superior. Além disso, é possível que, devido às características aprimoradas de codificação, as anotações manuscritas tenham servido como um lembrete mais eficaz das informações da aula do que a revisão de anotações feitas no computador.
A Tabela 2 sumariza os resultados das 4 condições dadas aos participantes no estudo 3.
Os investigadores concluíram que tomar notas no portátil está associado a um estilo de anotação baseado na transcrição literal. Nem mesmo a intervenção verbal impediu os estudantes de transcrever repetidamente o conteúdo da aula.
A primeira impressão desse estilo de transcrição é o benefício de armazenamento que oferece. No entanto, a terceira experiência deste estudo mostrou que os estudantes que tiraram notas no portátil tiveram um desempenho fraco em ambas as condições, ou seja, tanto quando tiveram oportunidade de rever as notas como quando não o fizeram antes do teste.
Relativamente à compreensão conceptual, os estudantes que tomaram notas à mão superaram aqueles que usaram portáteis em todas as três experiências.
O uso de portáteis para facilitar a tomada de notas é evidente; contudo, a tendência para não aplicar reflexão e apenas registar o conteúdo da aula tal como é apresentado é algo a que os educadores devem prestar atenção. Ainda assim, o uso de dispositivos para tirar notas pode ser útil, desde que os estudantes não o façam de forma indiscriminada ou através da transcrição mecânica do conteúdo. As observações e experiências sugerem que os estudantes tendem mais para a transcrição literal quando utilizam dispositivos como portáteis do que quando tomam notas manualmente.
Embora a tecnologia permita formas mais rápidas e eficientes de realizar determinadas atividades, os processos cognitivos, como a aprendizagem, exigem um certo esforço. A capacidade de tirar conclusões, estabelecer novas conexões e aplicar o que foi aprendido em novos contextos são processos fundamentais do cérebro que constroem estruturas de conhecimento na nossa mente.
Quando incentivamos a escrita de apontamentos, ajudamos os jovens estudantes a compreender a necessidade do esforço mental na aprendizagem. Eles aprendem muito mais quando recorrem ao seu próprio processo de pensamento para interpretar o que ouvem e veem na sala de aula.
O que devo dizer aos meus alunos? Usar caneta ou teclado?
Uma boa síntese de ambos os métodos pode ser os alunos tirarem apontamentos com um portátil na sala de aula. No entanto, mais tarde, podem passar esses apontamentos para escrita manual com base nas notas digitadas. Esta prática pode ajudá-los a rever e reaprender aquilo que ouviram na aula.
Por exemplo, os alunos podem organizar as notas digitadas como respostas a diferentes perguntas. Depois, escrever as respostas a essas perguntas com as suas próprias palavras num caderno. Desta forma, os alunos terão apontamentos muito mais concisos e também mais fáceis de memorizar.
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Referências:
- The Importance of Cursive Handwriting Over Typewriting for Learning in the Classroom: A High-Density EEG Study of 12-Year-Old Children and Young Adults. Ose Askvik Eva, van der Weel F. R. (Ruud), van der Meer Audrey L. H. (2020) https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpsyg.2020.01810
- Neuroanatomy of Handwriting and Related Reading and Writing Skills in Adults and Children with and without Learning Disabilities: French-American Connections. Longcamp, Marieke & Velay, jean-luc & Berninger, Virginia Wise & Richards, Todd. (2016)
- Influence of Writing Practice on Letter Recognition in Preschool Children: A Comparison between Handwriting and Typing. Longcamp, Marieke & Zerbato-Poudou, Marie-Thérèse & Velay, jean-luc. (2005).
- The Pen Is Mightier Than the Keyboard. Mueller, P. A., & Oppenheimer, D. M. (2014)
O autor: Manish Dubey é o fundador da plataforma SukRt, uma plataforma de leitura e discussão digital independente projetada para promover a curiosidade, aprendizagem compartilhada e conversas abertas em torno de tópicos significativos em diversas faixas etárias e locais. Foi sócio da Open Door até 2024. Ele acredita no poder transformador da educação e pensa que qualquer professor pode ser um modelo para as crianças. É licenciado em Comunicação de massas e mestre em Jornalismo.





