FRATERNIZAR – O ASSASSINATO DEFINITIVO DE ÓSCAR ROMERO! – por Mário de Oliveira

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A beatificação já vem a caminho?

O pior que podem fazer ao bispo Óscar Romero, odiado, perseguido, caluniado pela quase totalidade dos bispos salvadorenhos seus concidadãos de então, à excepção do seu auxiliar que, depois, lhe sucedeu no serviço martirial do ministério episcopal, é beatificá-lo. A Cúria romana, sempre que o faz, através do seu chefe-mor, o papa, mata, e de forma definitiva, aquela, aquele que beatifica ou canoniza. No caso, trata-se de um bispo que ela, historicamente, odiou, perseguiu, caluniou, porque nunca se reviu no seu trabalho pastoral. Isto que acaba de ser escrito, vale como um princípio geral que se aplica a todas as beatificações/canonizações, feitas pela Cúria romana. No caso do Bispo Óscar Romero, o assassinato definitivo é ainda mais contundente. De todos os bispos católicos romanos século XX e, até, dos vinte séculos de cristianismo, o bispo Óscar Romero, de S. Salvador, na América Latina é, inequivocamente, o mais odiado, perseguido, caluniado, abandonado à sua sorte pela generalidade da hierarquia eclesiástica do seu país e da hierarquia eclesiástica católica ocidental. Como Óscar Romero, só mesmo Jesus, o filho de Maria, é tão odiado.

 Ninguém, alguma vez na história da igreja, se pareceu tanto com Jesus, inclusive, nos motivos pelos quais foi odiado, perseguido, caluniado, condenado à morte e executado, a tiro, precisamente, quando presidia à Eucaristia, numa capelinha de freiras organicamente ligadas aos pobres de El Salvador. Beatificá-lo pela Cúria romana, é igual a assassiná-lo segunda vez e, agora, de forma definitiva. O beato, com culto religioso nos altares, não é mais Óscar Romero. Torna-se um mito popular com o mesmo nome, que quantos historicamente o odiaram, caluniaram, perseguiram, assassinaram, podem, até, venerar, adorar, idolatrar. Um mito é, no mínimo, inofensivo. Mas um mito de altar, com imagem e culto religioso oficial, nunca é inofensivo. É sempre prejudicial. Faz muito mal às populações que, nas situações de aflição, são levadas a recorrer a ele, quando os problemas com que se se deparam, só elas, politicamente evangelizadas-organizadas, são capazes de resolver. Se crescerem de dentro para fora, coisa que um beato de altar impede que aconteça. Cresce ele, diminuem as populações.

 Óscar Romero não foi sempre mártir, testemunha-sentinela dos pobres, voz dos sem-voz, vez dos sem-vez. Foi escolhido para bispo de S. Salvador, a capital de El Salvador, precisamente, porque era tido como o bispo das grandes famílias latifundiárias de El Salvador, nomeadamente, da área da capital, S. Salvador, sede da diocese. Foram elas que o reclamaram, o acolheram, festejaram a sua tomada de posse, fizeram-no sentar sucessivamente às mesas dos seus palácios. Nunca lhes terá passado pela cabeça que um Bispo da igreja capital do país poderia, um dia, converter-se, isto é, mudar de ser e de Deus. Mas é o que, inopinadamente, vem a acontecer. Com esta sua conversão aos pobres, El Salvador, toda a América Latina, o mundo ocidental, com EUA á frente, puderam ver, vinte séculos depois, Jesus Nazaré e o Deus de Jesus Nazaré passar por S. Salvador, erguer a sua tenda entre os pobres, ser um deles, até lhes dar o seu próprio corpo a comer, o seu próprio sangue a beber. Óscar Romero é Jesus Nazaré, em S. Salvador, desde o dia em que se converteu aos pobres, ao ponto de ser perseguido, caluniado, desprezado, caluniado, abandonado, assassinado como eles.

Com Óscar Romero, tudo começa, quando lhe assassinam um dos seus padres-presbíteros, por sinal, jesuíta ao serviço da diocese. Quem o assassinou? Precisamente, os latifundiários que, com regularidade, tinham o bispo Óscar Romero a partilhar a mesa deles. Não o fizeram com as suas próprias mãos. Financiaram quem o fizesse por eles. Naquele então, Rutílio Grande – é este o nome do padre mártir dos pobres salvadorenhos – anima diversas comunidades de camponeses empobrecidos, roubados pelos latifundiários. Só que, em lugar de lhes pregar o evangelho de S. Paulo, o único que o cristianismo anuncia/ pratica, pratica/anuncia entre eles e com eles o Evangelho de Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria. O escândalo é completo. Nunca tal se vira na igreja católica de El Salvador.

Desde as chamadas descobertas e conquistas, que o único Evangelho anunciado/ praticado pelos europeus às populações conquistadas e que elas conhecem, é exclusivamente o de S. Paulo, que recomenda aos servos-escravos que se submetam aos seus amos, como ao próprio Deus. O Evangelho de Jesus, perlo contrário, estimula os empobrecidos e roubados a sublevar-se politicamente, não contra os ricos e latifundiários, mas contra o latifúndio e contra todas as causas estruturais/legais que os condenam à fome, subnutrição, analfabetismo, marginalização, numa palavra, à pobreza estrutural. Como se esta fosse coisa natural e querida por Deus, quando é o pecado estrutural do mundo que a Fé de Jesus e o Deus de Jesus não suportam. Por isso quem se reclamar de Jesus e da sua mesma Fé, também não suportará. Tem, até, o imperativo ético de o combater, desarmado, consciente de que a fecundidade dos fragilizados e dos que têm com eles a razão e a verdade, é que libertam/salvam maieuticamente o mundo.

Depressa, Rutílio Grande é rotulado de “comunista” pelos latifundiários que iam à missa do bispo Óscar Romero. E, algumas semanas depois, é massacrado em pleno encontro de uma das comunidades que dinamiza/anima, de dentro para fora. Com ele, são massacrados também os camponeses presentes. É este hediondo crime, cometido por católicos latifundiários, que leva o bispo Óscar Romero a perguntar-se, Onde estou? Com quem ando acompanhado? Quem são, afinal, os católicos que me reclamam às suas mesas? A Luz faísca-lhe no mais dentro da sua consciência episcopal. Nesse instante, toma uma decisão: Ele próprio presidirá à celebração eucarística do martírio do Pe. Rutílio e dos camponeses e ao funeral dos seus cadáveres. Nunca mais será o mesmo bispo. Nasce do Sopro/Vento/Ruah de Jesus Nazaré, torna-se outro Jesus em S. Salvador, cada vez mais odiado, caluniado, perseguido, desprezado e, por fim, cerca de três anos depois, assassinado.

Ai, por isso, da Cúria romana, se beatificar este bispo-mártir. Assassina-o de forma definitiva. Junta, assim, crime sobre crime. Converte o ser humano pleno e integral, Óscar Romero, bispo de S. Salvador, num mito. Nunca terá perdão. E, sem o saber, está, com isso, a apressar a sua própria extinção. Porque o sangue de Óscar Romero, como o sangue do Pe. Rutílio Grande, dos camponeses massacrados, de tantos outros mártires salvadorenhos levanta-se da Terra, a reclamar justiça. Da Cúria romana não ficará pedra sobre pedra. Cada dia que passa, está cada vez mais perto a hora da sua extinção. Que é, também, a hora da liberdade, da autonomia, da dignidade, do protagonismo dos povos da Terra!

 

 

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