LIVRO & LIVROS – Livros desaparecidos – 7 – por Joaquim Palminha Silva

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A atmosfera perniciosa, em relação ao livro, que se instalou em Portugal, implicou modalidades maléficas e relações de cumplicidade delinquentes tais e tantas, de forma a intersectar e destruir tal ou tal livro, que seria fastidioso passar a enumerar e descrever a sua quantidade e definir a sua multifacetada actividade…

Parece que já em 1633 se deu pela falta do livro de linhagens elaborado por Damião de Góis, tendo chegado ser acusado desse sumiço o escrivão Lousada. Procurou-se o livro até ao ano de 1637, porém, não havendo maneira de o achar, resolveu-se optar pela utilização de uma cópia sua existente na nobre Casa de Bragança, dando entrada pois, este manuscrito na Torre do Tombo. Mas é legítimo perguntar: – Não foi entretanto encontrado o manuscrito da “cópia”, precisamente aquele e não o outro, o que os nobres entenderam que deveria ser encontrado?

Em 1684, sobre a mesma Torre do Tombo se dá notícia de terem sido furtados muitos livros «do Archivo e cortado folhas de outros». Em 1717 desapareceram umas quantas cartas régias. Em 1818, «um oficial do Archivo deu sumiço a vários documentos, entre eles ao cadastro da população do reino». Vá lá agora saber-se, por que razão era “perigoso” saber qual a população do Reino de Portugal!

Se há casos sem explicação conhecida, há outros, porém, de bem comprovada mutilação ou destruição do livro. Frei Alexandre do Espírito Santo Palhares (1749-1811) deixou dois volumes de Sermões, publicados em 1855/1856: – Acontece que do conjunto de sermões desapareceu o que pregou na Igreja da Estrela perante a rainha D. Maria I. De resto, diga-se, este sermão valeu-lhe o desterro para local indiscriminado no norte do País, tal deverá ter sido o desassombro das suas invectivas contra o Poder real e os hábitos da nobreza.

Continuemos… Em 1851, um enigmático indivíduo, estranho ao “quadro” do pessoal da Torre do Tombo, mutilou/cortou, com afiada lâmina, «alguns códices entre eles o atlas de Vaz Dourado». Pedro A. de Azevedo e António Baião, na obra «O Archivo da Torre do Tombo […]», (ed. 1905), de quem temos glosado alguns destes apontamentos, ainda nos falam de um «escritor brasileiro, desapparecido num naufrágio com todos os seus papeis no meado do século passado», que havia antes levado a cabo o “extravio” (para não dizer furto?) de «vários documentos dos primeiros maços do Corpo chronologico». Na visualização desta panorâmica de encarniçados ladrões e destruidores de livros, aconteceu uma catástrofe natural que a todos ultrapassou: – O terramoto de Lisboa, em 1 de Novembro de 1755!

Segundo Manuel da Maia, guarda-mor da Torre do Tombo naquele fatídico ano, o estado de ruína em que se encontrava a chamada «Torre do Thesouro» no Castelo de S. Jorge (onde se encontrava o arquivo ncional), justificou a facilidade com que a mesma torre se desmoronou… No entanto, ao contrário de numerosos edifícios da cidade de Lisboa, este foi poupado às chamas. Os manuscritos e os livros ficaram apenas soterrados e mutilados. Naturalmente que se perderam muitos, pois as pilhagens foram abundantes…

Pelos velhos caminhos de Portugal, desde ásperos séculos, que o livro viveu enormes atribulações e sofreu terríveis perseguições e martírios. Conta o erudito (e ilustre historiador de Évora) Gabriel Pereira no seu opúsculo «Bibliotheca Nacional de Lisboa, Collecção dos Livros de Coro dos Conventos extinctos […]» (folheto editado no início do séc. XX):

«[…] ainda ha pouco ouvi contar que os monumentaes livros do côro dos Jeronymos, de Belem, os grandes pergaminhos com bellas cabídolas de fina iluminura, serviram para correame aos rapazes da Casa Pia nas suas brincadeiras. Durante muito tempo, em certa localidade, foran as folhas dos livros coraes muito recomendadas nos estancos para embrulhar rapé»…

(continua)

 

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