Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A caminho da Grécia, a caminho da libertação da Europa – a luta contra a austeridade
A vitória de Syriza –Tragédia grega ou Primavera dos Povos
Chems Eddine Chitour*, LA VICTOIRE DE SYRIZA – Tragédie grecque ou printemps des peuples?
Revista Metamag, 1 de Fevereiro de 2015
Já está! Um partido de esquerda da esquerda grega acede ao poder e tem como ambição propor uma alternativa contra a austeridade e a rapacidade do grande capital. Imediatamente conhecidos os resultados, Syriza ganhou claramente as legislativas de Domingo, com 36,3% dos votos. O líder Alexis Tsipras contesta a austeridade imposta pela União Europeia. . “O veredicto do povo grego, diz ele, significa o fim “da Troika”.” Também declarou querer “colaborar e negociar” com os credores do país “uma nova solução viável, duradouro que a todos beneficie”
A chegada de Syriza à frente do país, fascina numerosos partidos da esquerda radical europeia, que nisto vêem um apoio popular à sua luta contra as políticas de austeridade na zona euro. Pablo Iglesias, líder de Podemos, na Espanha, vê nesta provável vitória “o regresso da soberania nacional” para os países do Sul, cada vez mais arrasados pela crise económica.
A luta dos povos contra o neoliberalismo
O que se passa na Grécia põe-nos em perspectiva a ferocidade do neoliberalismo selvagem que esmaga as culturas, as civilizações e os povos, fazendo-se ajudar por Estados que não podem recusar nada às multinacionais , cujos lucros não param de aumentar. Um editorial do Le Monde Diplomatique de Julho de 2011 mostra-nos como a miséria, que era o monopólio dos países do Sul, nomeadamente com “os ajustamentos estruturais” do FMI, foi estendida às classes laboriosas do Norte, que se pauperizaram cada vez mais sob a acção dos planos de austeridade.
Ninguém vai discutir sobre a dívida da França que chega a contrair empréstimos a baixas taxas de juro contrariamente aos países do Sul da Europa. “O que está em vias de se passar em Atenas neste momento escrevia Alex Andreou, é a resistência contra uma invasão mais ou menos tão brutal como foi a da Polónia em 1939. Os invasores vestem roupa normal em vez de uniformes e andam equipados de computadores portáteis em vez de espingardas mas não nos enganamos: o ataque contra a nossa soberania é igualmente violento e profundo. Os interesses de fortunas privadas estão a ditar a política a adoptar pela nossa nação soberana, que são expressa e directamente contra o interesse nacional. Ignorá-lo, é ignorar o perigo. Talvez possam preferir imaginar que tudo isto vai parar aqui…”.
Entre os mitos associados aos Gregos há primeiramente o que faz dos Gregos uns preguiçosos. Outro mito é o facto de que os Gregos querem o plano de resgate, mas não querem a austeridade. Compreende-se que nestas condições os Gregos cansados de andarem a ser humilhados diariamente, de serem governados por emails enviados a partir de Bruxelas, de serem obrigados a apertar o cinto e de verificarem também os estragos brutais gerados com um desemprego que atinge uma pessoa em cada quatro, querem ver uma outra coisa, uma outra realidade. Votaram, portanto, num outro partido, no jovem partido Syriza, com um líder carismático Alexis Tsipras que lhes promete uma saída do túnel e na dignidade. Apesar da sua reestruturação em 2012, a dívida do Estado grego excede doravante os 175% do produto interno bruto (PIB) e representa uma limitação ao crescimento . Os 321,7 mil milhões de euros de dívida são detidos em 70,5% pelos credores internacionais. O FMI emprestou 32 mil milhões de euros, os outros países da zona euro 53 mil milhões por empréstimos bilaterais, enquanto o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) detém dívida grega no montante de 141,8 mil milhões.
Essa novela da dívida grega lembra-nos estranhamente a dívida da Argélia dos US $ 26 mil milhões que pagámos várias vezes em termos de juros (serviço da dívida) enquanto o principal era constante! Ficávamos de barriga apertada sempre que Michel Camdessus vinha a Argel propor-nos um enésimo ajustamento estrutural que nós não podíamos recusar…Foi preciso o maná petrolífero do início do ano 2000 para poder pagá-la e ironicamente esta mesma FMI estende-nos o prato , a Argélia, “bom príncipe” empresta-lhe US $ 5 mil milhões a taxa de juros que desafia toda a concorrência.
O que se irá verdadeiramente passar a propósito da divida
É evidente que haverá negociações. A Europa tem necessidade da Grécia para a sua coesão e uma saída da Grécia da zona EURO é mais catastrófica para a Europa do que para o povo grego em que este já atingiu o fundo em termos do aflição e de sofrimento . “A Troika” dos credores da Grécia – Banco Central Europeu (BCE), Fundo Monetário Internacional (FMI) e Comissão Europeia – teme, a partir de agora, menos “um Grexit” (uma saída do país da zona EURO), tecnicamente difícil, que uma longa e dura negociação em redor do plano de ajuda do qual o país venha a beneficiar . Para o Wall Street Journal, as promessas não cumpridas por Syriza poderiam trazer a violência para a rua. Desde segunda-feira 26 de Janeiro, o BCE começou por dar o tom. Segunda-feira, o governo alemão reafirma excluir um terceira redução da dívida publica grega. ““A Troika” sabe, ela própria, que Atenas terá extrema dificuldade em sair da situação em que está se não a aliviarem de uma maneira ou de outra do peso da dívida. (.) Esta redução poderia assumir duas formas . A primeira e a mais provável, seria não tocar ao montante total da dívida, mas de alongar a maturidade dos empréstimos e reduzir as taxas de juro, a segunda opção seria apagar literalmente uma parte da dívida. Várias modalidades seriam possíveis, mas toda seriam politicamente explosivas. “ (Le Monde.fr)
As primeiras medidas do governo de Alexis Tsipras
Sabe-se que o fim das medidas de austeridade tais como são impostas pela Troika (o FMI, União Europeia e BCE ) é, desde há muito tempo, o ferro de lança do programa de Syriza. A abolição de algumas medidas particularmente impopulares é considerado como prioritário: O programa de Syriza encara igualmente restabelecer o patamar mínimo de tributação fiscal em 12.000 euros por ano , contra o de 5000 euros hoje. Syriza quer também elevar o salário mínimo para 750 euros contra os 510 euros de agora. Para além das medidas de austeridade,. é a negociação da dívida que é o verdadeiro desafio. “Une parte da dívida deve ser pura e simplesmente suprimida. O resto deve ser reembolsado a um ritmo diferente, com um congelamento dos pagamentos durante um certo tempo, os quais deveriam ser indexados sobre o crescimento interno afim de incentivar os investimentos necessários para a retoma do país “, explica Olga Athaniti, uma dão responsáveis de Syriza em Bruxelas. ”.
“A burocracia sufoca qualquer iniciativa, mesmo os empresários desejam uma mudança. No entanto, remover a papelada não exige nenhum dinheiro ‘, sublinha Olga. A luta contra a “criminalidade económica” não só deve ser reforçada mas poderia contribuir para encontrar recursos, ” ao lutar mais eficazmente contra o contrabando de gasolina ou de cigarros e contra a evasão fiscal . Entre as cidadelas a abater por Syriza, estão os meios audiovisuais privados e estes estão na primeira linha. Propriedade dos mais ricos do país, que os utilizam como meio de pressão sobre o governo, eles são considerados como os órgãos de propaganda do poder em exercício. ” É necessário leiloar as licenças de transmissão que os seus proprietários tenham obtido a título gratuito, o que geraria perto de 100 milhões de euros.
As consequências da vitória de Syriza
Nada de novo debaixo do sol! Para Merkel, a Grécia deve pagar! A redução de parte da dívida colossal grega (175% do PIB) e o questionamento de certas leis impostas pela Troika como a flexibilização do mercado de trabalho, poderia constituir um casus belli entre Atenas e os seus credores. A melhor prova é que a banca grega está a perder cerca de 9% com o anúncio das primeiras medidas adoptadas pelo primeiro-ministro Alexis Tsipias que fala do combate pela dignidade política
A política de Syriza pode pôr em causa a continuação da Grécia no euro? De momento, diz-se, após o grekexit alemão; está fora de questão . Acontece que um vento novo sopra sobre os povos da Europa que ficaram satisfeitos e ficaram com a certeza com esta vitória do povo grego que nem tudo estava gravado na pedra, que os povos têm a sua palavra a dizer. Há pois razões para reclamar a vitória, ou não será para o povo grego, assediado pelas privações, humilhado quotidianamente pelos mails de Bruxelas que ditam a lei ao governo de Atenas, mais do que uma vitória de amor-próprio que não irá longe?
De uma maneira completamente realista mas talvez não isenta de algumas ideias pré-concebidas, uma contribuição sobre o sítio Le Causeur prediz uma viragem na linha de Syriza para a normalidade política depois de algumas bravatas e assomos de dignidade. “Os gritos de entusiasmo dos militantes de Syriza que sentem o odor da vitória recordam-nos um certo 10 de Maio de 1981. Se estes casos citados acima parecerem anedóticos, muitos eleitores de Syriza não aderem às suas ideias e ainda menos ao programa desta formação. Humilhados e em cólera, procuram atingir e prejudicar a Europa. Em inglês, chama-se esta atitude “cutting off the nose to spite the face” (cortar-se o nariz para se vingar do rosto). Com este tipo de punição procura-se também alcançar um prazer tão intenso quanto de curta duração. As lamentações, em contrapartida, podem durar muito mais tempo. Assim, certos espíritos racionais fazem a aposta de “molhar” a extrema esquerda na política actual da Grécia, a qual não se irá desviar do seu quadro actual, ou seja, o da democracia liberal, do capitalismo e da economia de mercado (.) Na França, foi-nos necessário quase três anos (entre a vitória de Maio de 1981 e a formação do governo Fabius, sem os comunistas em 1984) para avaliar as dadeiras as margens de manobra política de um governo de esquerda. Pode-se desejar aos Gregos que o processo seja mais rápido neles. De qualquer modo, a esquerda radical europeia deve a partir de agora procurar responder a esta pergunta fundamental: como se irá poder sobreviver à inegável traição ideológica de Syriza? Certas vitórias são piores que as derrotas”
Simplesmente é necessário esperar que isto não passe de um fogo de palha, uma erupção completamente mediterrânica que nos faz lembrar o famoso gracejo de Laurence da Arábia, a propósito dos árabes: Peuple des beaux départs, et feu de paille, expressão que se pode aplicar maravilhosamente bem aos povos do Mediterrâneo acusados, sem nenhuma razão, de serem não um povo de formigas mas sim um povo de cigarras. Isto significa, de facto, duas visões da vida a estarem em confronto, a das gentes dos países do Norte, formigas, aplicados arduamente nas suas tarefas e as gentes dos países do Sul, poetas da vida e e do farniente.
Se é uma vitória de Pirro, os gregos serão os primeiros a ficarem desapontados. Eles seriam, em seguida, capazes por desespero, de todos os extremos. São de facto todos os países que estão “ por baixo” que esperam uma outra política com um liberalismo de face humana bem longe da escandalosa situação actual, onde 80 multimilionários são mais ricos que 50% da população do mundo. É pois de esperar que esta Primavera grega não se venha a transformar em tragédia.
Chems Eddine Chitour*, La victoire de Syriza : Tragédie grecque ou début du printemps des peuples?, 1 de Fevereiro de 2015. Texto disponível no site Metamag, no endereço :
http://metamag.fr/metamag-2631-LA-VICTOIRE-DE-SYRIZA-Tragedie-grecque-ou-printemps-des-peuples–.html
* Professeur à l’Ecole Polytechnique d’Alger



