Não sei se rie se chore perante a manchete do Diário de Notícias de quarta-feira: UE e BCE Protegem Portugal do perigo do contágio grego.
O que o Diário de Notícias quer dizer, entendamo-nos em bom português, é que a União Europeia e o banco da senhora Merkel e dos especuladores mundiais não permitirão aos portugueses comportarem-se com a dignidade com que os gregos estão a comportar-se. Ou seja, votem como votarem os portugueses em qualquer futuro próximo e mais afastado, lá estarão Bruxelas, Berlim e Frankfurt, santíssima trindade da mafia financeira mundial, para nos dizer meus amiguinhos tenham juízo, deixem-se de brincar às democracias porque aqui quem manda somos nós, vejam o que aconteceu aos ingratos dos gregos.
Ao gritar esta mensagem aos portugueses, o Diário de Notícias reflecte com singeleza o que a classe dirigente portuguesa, leia-se o chamado arco da governação, interpreta como dignidade nacional.
Para eles, dignidade nacional é aceitar que o senhor Scheuble, todo-poderoso ministro alemão das Finanças, diga como diz ao governo grego vocês fazem o que nós queremos e acabou-se, não há nada para negociar, só assim se recupera a confiança dos mercados.
Chama-se a isto negociar no linguajar dos padrinhos da mafia financeira, que pretende continuar a tratar os gregos como lixo em vez de pessoas em nome da austeridade e outras malfeitorias que os gregos democraticamente rejeitaram. Para eles, os padrinhos, o facto de o governo grego, mandatado de fresco pelo seu povo, ter dito que não aceita a extensão das ordens da troika é intransigência; o que eles, os padrinhos, fazem ao dizer aos gregos ou se submetem ou acabou-se é negociar. Não há melhor exemplo de autoritarismo, não há comportamento mais revelador da ditadura da mafia financeira a que a União Europeia submete os europeus. E o Diário de Notícias, assim regressado aos tempos sabujos dos augustos de castros, diz aos portugueses: não se preocupem que não seremos contagiados pelos gregos. Muito obrigado Diário de Notícias, quem disse a Bruxelas e a Berlim e Frankfurt que os portugueses, a meses de irem a votos, querem ser protegidos do contágio grego? Ou será que a mensagem já faz parte de uma campanha eleitoral de terror, intimidação e chantagem que aí vem? Olhada nesta perspectiva a manchete pode ser útil: portugueses, ficamos a saber o que nos espera na rota para o voto. O Diário de Notícias, ainda que por ínvios caminhos, já nos foi avisando.
A fotografia do presidente do Eurogrupo, o social-democrata holandês Djesselboem, agachado em frente do direitista alemão Scheuble combinando estratégias contra a Grécia, a imagem é muda mas que outra coisa sabem eles fazer, é emblemática. O autoritarismo europeu está à solta mas perante o desafio grego foi obrigado a mostrar a verdadeira face, a de que para ele a democracia só funciona quando é para o servir.
Os portugueses, vítimas como os gregos da criminosa austeridade, não serão capazes de ir ao fundo da sua criatividade, coragem e dignidade para ombrear com a Grécia nesta batalha em defesa dos mais elementares direitos humanos, contra a trapaça a que a mafia financeira internacional chama democracia?
Uma denuncia muito a propósito mas, de verdade, o que pode esperar-se do Diário de Noticias? Por tradição, já muito velha, foi sempre um serventuário do poder político instalado no comando nacional.CLV
Uma denuncia muito a propósito mas, de verdade, o que pode esperar-se do Diário de Noticias? Por tradição, já muito velha, foi sempre um serventuário do poder político instalado no comando nacional.CLV
Não temos mídia à altura, então esperar o quê se não tivermos um mínimo de inteligência?