A Grande Reportagem da SIC fez ontem à noite um péssimo serviço à causa da erradicação da pobreza estrutural em Portugal, nomeadamente, nas cidades Porto, Lisboa. O pouco que mostrou do intolerável mundo da pobreza e dos pobres que nele caem, ou já nele nascem, crescem, apodrecem, morrem, acabou por contribuir para humilhar ainda mais as pessoas que, constrangidas, lá acabaram por fazer o favor ao repórter e aos técnicos sociais – o que seria destes e de tantas IPSSs, Misericórdias, Centros Paroquiais Sociais, sem a pobreza estrutural e, consequentemente, sem a existência de pobres em massa?! – que, por dever de ofício profissional, frequentam os seus tugúrios, travestidos de quartos alugados. A reportagem nunca chegou a ir às causas. Limitou-se a passear as câmaras por alguns dos muitos tugúrios, sem mexer uma palha para tirar da cruz as inúmeras pessoas, famílias inteiras, que nela vivem crucificadas. Por momentos, aquelas pessoas foram levadas a pensar que a reportagem contribuiria para as tiar da sua humilhação. Afinal, agravou-a ainda mais. Exibiu-a, não a erradicou. Quem acaba sempre por sair a ganhar com este tipo de intervenções, são os autores da reportagem e os técnicos sociais que a tornam possível. Há em todo este agir uma indignidade sem nome que arrepia e nos deixa sem palavras. A pobreza estrutural, senhoras, senhores, é um crime de lesa-humanidade. Não é uma fatalidade! Exige que quem se aproxima das suas vítimas, comece por se descalçar e pedir perdão. Não há maior crime, maior pecado no mundo, do que a pobreza estrutural. Ela é o resultado directo duma opção política dos governos das nações que deixam o económico-financeiro à solta. Ladrão e assassino como é, logo ele se apodera das almas das suas vítimas e mata-as. Depois, ainda corre a premiar com medalhas de ouro de direitos humanos algum dos técnicos sociais ou bispos “vermelhos” que se distinguem por seus estéreis discursos contra a pobreza, sem nunca chegarem a formular a grande e perturbadora Pergunta, Porque há pobreza estrutural e, consequentemente, pobres em massa?!