CRÓNICA DE DOMINGO – A TABERNA DO DOUTOR – por Adão Cruz

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Há meses abriu na minha rua, Rua da Firmeza, no centro do Porto, mesmo em frente ao prédio onde vivo, a TABERNA DO DOUTOR.

O meu amigo de longa data, apesar de poder ser meu filho, o nosso Zé Carlos, resolveu por vontade própria dar este nome ao seu novo restaurante. Só quando tudo estava decidido eu soube que o “DOUTOR” se referia à minha pessoa. Claro que fiquei orgulhoso mas também um tanto acanhado. Sou um ser humano que prezo muito a humildade e a ausência de presunções de qualquer tipo, e tudo o que sejam actos de homenagem, e já tive alguns, me deixam embaraçado.Imagem2

Por isso, só agora, passados uns meses, me sinto encorajado a dizer alguma coisa sobre a TABERNA DO DOUTOR. E o que pretendo dizer é que este lugar de amigos tem uma alma suficientemente grande para gerar muitos mais amigos. O Zé Carlos, pessoa com invulgares capacidades de trabalho e grande honestidade e integridade, é o dono e administrador, não só da TABERNA DO DOUTOR mas também do café SINATRA´S, com vida na mesma Rua da Firmeza há 25 anos. Não há nas redondezas quem o não conheça, e tanto quanto me apercebo, não há quem não goste dele e quem o não tenha na mais elevada consideração e estima. Para além da sua simpatia e grande amizade por todos os clientes, ele e o seu café, aberto até às duas da madrugada, constituem uma referência, um ponto de apoio e um porto de segurança nesta zona do nosso querido Porto, praticamente deserta durante a noite.

Claro que a TABERNA DO DOUTOR não é um estabelecimento hoteleiro perfeito, embora o Zé Carlos tudo faça para conseguir o melhor. Não é fácil, e só a sua persistência e amor à arte o levam a continuar em frente. E aqui eu apelo a todos os amigos para que façam tudo o que puderem no sentido de publicitar e privilegiar este futuro local de encontro das nossas vidas do dia-a-dia. Por mim, que tenho correspondência através de e-mail com muitos amigos de vários locais do País, tudo farei para lhes levar a boa nova de que há no Porto um lugar amigo onde, sempre que cá venham, podem comer, conversar e sentir a poesia de estarem em boa companhia. Eu sou um amante da poesia e tento muitas vezes abraçá-la. Mas eu não sei verdadeiramente o que é a poesia, mas penso que a poesia é, entre outras coisas, o conjunto destes laços da nossa vida com tudo o que nos rodeia, especialmente este nosso encontro diário com todos os amigos a quem, nos entretantos de um café, damos um abraço e dizemos BOM DIA.

Quanto à oferta da TABERNA DO DOUTOR, apesar do afecto e de variados petiscos, muita coisa há e muita coisa falta, mas mais coisas haverá à medida que os amigos começarem a aparecer e a motivarem com a sua presença o natural desenvolvimento da oferta. Não faltam com certeza a competência da cozinheira D. Fernanda e a amabilidade da D. Ana, esposa do Zé Carlos, e da mãe da Ana, cozinheira veterana do Ginjal do Porto, bem como a amabilidade e profissionalismo dos colaboradores, ambos “João”.

A título de exemplo, no início da época da lampreia, o Zé Carlos convidou-me para comer o tal bicho com ele, cozinhado na Taberna, onde nunca havia sido confeccionado. Como, sem qualquer armanço, me considero um perito apreciador de lampreia, no fim do repasto eu disse ao Zé Carlos que não tinha qualquer dúvida em afirmar que comi uma belíssima lampreia. Recomendada como prato a apresentar, quer à bordalesa quer com arroz, já tem sido procurada por muitos apreciadores. Nesta Baixa do Porto, e mesmo noutros lugares, não é fácil encontrar boa lampreia, pelo que aqui fica uma garantida referência.

Quando eu era criança, diziam-me os meus pais que eu tinha de fazer tudo para “ser gente”. “Ser gente”? Mas o que é “ser gente”?

Ao ver hoje o que se passa à nossa volta, ao ver a deterioração mental, a total ausência de escrúpulos, o desprezo da honra e da dignidade, a proliferação de criminosos, corruptos e vigaristas de toda a espécie, mais evidentes nos estratos superiores da sociedade e nos sectores da Administração e do empresariado, eu penso que “ser gente” é viver a vida com dignidade e respeito pelos outros, nunca esquecendo que o viver dos outros é também o nosso viver. O Zé Carlos e a vida que ele trouxe a esta rua ao fim de um quarto de século é uma mais-valia social e bairrista, é um “ser gente” que não podemos esquecer.

 Deixo aqui algumas das quadras ditas aquando da inauguração da TABERNA DO DOUTOR:

Ao entrares nesta casa

Deixa lá fora a vaidade

Cá dentro bebe-se a vida

Pelos copos da humildade.

 

Cá dentro não há pelintras

E todos somos doutores

Bem formados pela vida

Com mais de vinte valores.

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Quem quer que entre nesta casa

É para nós um senhor

Basta entrar de cara limpa

Na TABERNA DO DOUTOR.

 

Aqui aprende-se a vida

Mais que na universidade

Ninguém aqui troca a honra

Ninguém perde a dignidade.

 

Entre uns copos de alma cheia

O vinho é irmão da amizade

Na TABERNA DO DOUTOR

Todos bebem a verdade.

 

Fora da escola da vida

Ser doutor é muito pouco

Um copo é toda a diferença

Entre o sábio e o louco.

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