O Presidente da União das Misericórdias foi recentemente entrevistado por uma jornalista do matutino I. Da conversa, uma absurda conclusão parece andar já bem enraizada na sua cabeça: Misericórdias, quantas mais, melhor! O tom do entrevistado é manifestamente triunfalista. Em seu entender-dizer, nunca as Misericórdias foram tão importantes e nunca terão estado tão pujantes como nestes anos do seu mandato. Os mesmos da chamada “crise” financeira global. As supostas obras de misericórdia com que todas elas se ocupam são mais do que muitas. Só não diz o que se visa esconder com elas. Todas são boas. Oportunas, até. Nenhuma, envenenada! O que seria de tantas famílias – parece ouvir-se como música de fundo nesta entrevista – inclusive, de certa classe média, se não fosse o apoio, muitas vezes, discreto, a roçar a clandestinidade, das Misericórdias e da União de todas elas? Já são muitas, no país. Terão de ser muitas mais, parece admitir/sublinhar o Presidente. Sem se dar conta de que semelhante modo de ver as coisas chega a ser, política e teologicamente, obsceno.
O tom triunfalista de Manuel Lemos torna a realidade em que as Misericórdias proliferam como cogumelos depois das pantanosas chuvas, ainda mais sinistra. Sem que o próprio se dê conta. Mostra-se pessoalmente eufórico. O seu curriculum e o seu ego têm subido de cotação. Como na Bolsa, ou no futebol dos milhões. São muitos os golos, à CR7, que ele já marcou, durante todos estes anos de mandato, que fizeram dele uma espécie de papa das Misericórdias. Só que ser o papa das Misericórdias, numa sociedade como a portuguesa, europeia, ocidental, mundial, estruturalmente, injusta, produtora de pobreza e de pobres em massa, é ainda mais sinistro. Tal como o próprio papado católico romano no topo da igreja, cem por cento cristã, totalmente vazia de humanidade. O mais aonde chega é à caridadezinha. Pelo que é preciso, imperioso, urgente, dizer-gritar ao Presidente da União das Misericórdias e, nele, aos eclesiásticos católicos e protestantes de todas as IPSSs que nada humilha mais, alguém, de forma activa ou passiva, do que a caridadezinha. Com a agravante de, à mistura, ainda anestesiar, apaziguar, refrear, desmobilizar politicamente as populações, quando elas mais deveriam ser-viver politicamente levantadas, sublevadas, indignadas, vestidas com a força da justiça, que é o pão quotidiano de qualquer sociedade que se queira progressivamente humana, de dentro para fora.
Custa a crer que Manuel Lemos, depois de anos e anos à frente da União das Misericórdias, ainda não tenha concluído que a sua simples institucionalização constitui uma agressão às populações caídas em situação de pobreza imposta. Sim, sim, todas, todos sabemos que há situações de emergência, às quais é imperioso valer. Na hora! O que não se pode tolerar é que se transforme a emergência em normalidade. Para cúmulo, protegida, estimulada, apoiada, financiada por lei. Como é cada vez mais frequente, hoje. O que perfaz o cúmulo do absurdo. Da obscenidade. Da indignidade humana. Pode ser e é, certamente, muito cristão. Jesuânico, humano, não é. Quanto mais cristão, menos humano. Nunca Jesus Nazaré, na sua missão política histórica, entre meados do ano 28 e Abril do ano 30, envereda por aí. Não dá esmolas. Não faz milagres. Não opera curas espectaculares. Não funda leprosarias nem hospitais. Vai mais fundo, às causas. Realiza subversivos sinais. Concretamente, desperta mentes-consciências adormecidas, atemorizadas, tolhidas pelo Religioso e pelos teólogos do Religioso. Ao evangelizar os pobres e os povos, deixa-os despertos e transformados em sujeitos da sua própria cura, saúde/salvação. É-age assim, então, entre os camponeses pobres, empobrecidos, do seu país. É-age muito mais assim, neste nosso século XXI. Por isso, nenhum poder, nenhum agente do poder, gosta de Jesus. Todos o odeiam, caluniam, matam. Mostram bem que são mentirosos e assassinos. A coberto, já se vê, do bem-fazer!A simples existência de pobreza estrutural e de pobres em massa é um crime de lesa-humanidade, de lesa-Deus, o de Jesus e de todos os povos por igual. Perfaz um dos múltiplos intoleráveis institucionais em que o mundo de raízes cristãs é perito. Tem que se dizer, não escamotear.
No contexto antropológico-teológico, em que se movimenta Jesus e devemos movimentar-nos, todos nós, os seres humanos, a existência de instituições de caridadezinha constitui uma agressão aos pobres. Porque a pobreza estrutural e de pobres em massa é o resultado de uma opção económica, que a Política praticada tem o imperativo ético de impedir que ocorra. O facto de ter cedido a prioridade ao económico-financeiro é um crime, um pecado de lesa-povos. Qualquer instituição de bem-fazer que nasça com o objectivo de perdurar, em vez de emergência, não é, não pode ser, bem-vinda. Trabalhar para que as Misericórdias e outras IPSSs diminuam, de ano para ano, até desaparecerem de vez, é sinal de saúde mental e social. Infelizmente, não é este princípio de dignidade humana e de saúde mental e social que tem norteado a presidência de Manuel Lemos. Pelo contrário, o próprio quase se orgulha de ser o CR7 das Misericórdias. E a sua ambição maior é que o país seja todo coberto por uma eficaz rede de Misericórdias. Ainda não percebeu que as Misericórdias matam a própria Misericórdia, ao transformá-la em caridadezinha, prática humilhante, indigna, para quem a protagoniza e para quem dela beneficia. A pobreza estrutural é para ser inteligentemente combatida. E outra coisa não é a Política praticada. Já a caridadezinha é uma das perversidades do poder político praticado. E do poder religioso-eclesiástico.
Quanto dinheiro sujo e quanto dinheiro acumulado, à sombra da caridadezinha! Quanta arrogância, prepotência, vaidade pessoal e corporativa, à sombra das Misericórdias! Esta entrevista de Manuel Lemos ao I é expressivo exemplo. O próprio deveria ter vergonha e pedir perdão às pessoas que ofendeu com todas as suas Misericórdias. Orgulha-se. É muito cristão. Não é humano. Só o humano é via de saúde-salvação. Política praticada quero, diz Deus, o de Jesus e dos povos por igual, não misericórdias, IPSSs. Porque só a Política praticada faz rebentar, de dentro para fora das pessoas e dos povos, sucessivas fontes de dignidade humana, de paz, de saúde mental e social. Trilhemos criativamente esta via. O resto vem por acréscimo!

