
I
Não sei se V. Ex.as pensam como eu; mas, em chegando o Carnaval, sou uma perfeita maluquinha de Arroios, louvado seja Deus! Até parece mal. Na semana que precede os dias da folia escusam de me propor para sócio da Academia, de me pedir em casamento, de me falar no empréstimo interno, de me recitar os “Lusíadas” ou de me convidar para formar ministério, porque é absolutamente inútil. Todo eu sou Carnaval. Levo as tardes todas à janela a atirar com um penacho de papel aos chapéus de coco que me passam por baixo. Só descanso para vir à rua pôr rabos-leva, com piadas engraçadíssimas, a todas as velhas que desfilam e, ao lusco-fusco, o meu prazer é riscar um traço a carvão no empedrado do meu passeio e pôr-me de cócoras à espera que se chegue alguma senhora para gritar: – Estica! Estica! – Então que querem? Eu cá sou assim…
Domingo, segunda e terça-feira de Entrudo, escusado será dizer-lhes que, logo ao amanhecer, vou para a porta do talho empulhar as sopeiras da vizinhança, que toda a tarde me verão na Baixa entregue aos mais extravagantes folguedos e, se à noite tiverem algum recado urgente a dar-me, onde me encontram com certeza é no baile de máscaras, vestido de “pierrot” ou de pastorinha dos Alpes.
Se bem que, hoje em dia, o Carnaval já não seja nada do que era antigamente… Bons tempos foram esses dos tremoços a vintém o litro, das “cocotes” mais baratas a três vinténs a dúzia para acabar. Então, sim, é que era ver-me com o casaco virado do avesso, um “bonet” de “jockey” em gomos de várias cores, um nariz de papelão, uma corneta de folha numa mão, uma alcofa na outra e, debaixo do braço, uma cana em cuja ponta se atava um barbante preso na outra extremidade a uma bexiga de porco! Passava três dias no Chiado, batiam-me, cuspia na cara dos parceiros, tiravam-me um olho, ia preso, soltavam-me, dizia insolências, tornavam a bater-me, tornava a ir preso, e sempre a atirar saquinhos com pedras, a apanhar no ar os raminhos de violetas, a rebolar debaixo dos trens… Isso, sim, é que eram Carnavais!
Na quarta-feira de Cinzas, quando lavava as orelhas encontrava sempre dentro de cada uma três tremoços grelados e, quando tratava de limpar o pescoço, era sempre precisa a intervenção da minha criada com o esfregão da cozinha e o pó de arear a chaminé.
Hoje, como sabem, tudo está por um dinheirão. Não há farinha para pão, quanto mais para enfarinhar os outros. Tudo anda de camisa mole por não poder pagar à engomadeira. Como se hão de deitar fora os “poses” de goma? O tremoço queimado passa lindamente por café de primeira. Como havemos de o desperdiçar, pregando com ele na cara de pessoas, em geral mal agradecidas?
Antigamente entretinha-me, tempos antes do Entrudo, a cortar aos bocadinhos os papéis de cor que conseguia juntar durante o ano. Ao preço porque está o papel actualmente, tive de desistir da minha brincadeira inocente e este ano tenho cortado apenas papel muito ordinário, benza-o Deus: algumas cédulas de meio tostão que tenho apanhado nos carros eléctricos e umas inscrições de dívida interna que encontrei outro dia num barril de lixo.
4 de Fevereiro de 1923


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