A IDEIA – ÚLTIMAS PALAVRAS ESCRITAS DE ARTHUR RIMBAUD

ideia1

 

Marselha, 20 de Julho de 1891

 

Minha querida irmã 

Escrevo-vos esta sob o choque duma dor violentíssima no ombro esquerdo, que me impede quase de escrever, como podeis constatar.

Todos estes achaques provêm duma constituição tornada artrítica no seguimento de desleixos continuados. Estou porém farto do hospital, onde me encontro à mercê cada dia que passa da varíola, do tifo e de outras pestes idênticas que por aqui grassam.

Sairei então dentro de dois ou três dias e arrastar-me-ei como puder até vossa casa, já que, com a minha perna de madeira, não posso andar e mesmo com as muletas tudo o que consigo de momento é dar alguns passos, isto para não piorar drasticamente o estado do meu ombro. Como indicastes, descerei na gare de Voncq. Para a estadia, preferiria ficar em cima; é pois inútil escreverdes para aqui, muito em breve estarei a caminho.

Até à vista.

Resultado de imagem para jean arthur rimbaud

Rimbaud

—————————–

 NOTA FINAL

É a última carta, no caso à irmã Isabel, escrita pelo punho de Rimbaud, e por conseguinte as suas últimas palavras escritas que até nós chegaram. Depois dela, só no leito de morte, já em delírio, a 9 de Novembro de 1891, ditará à mesma irmã, um esboço incompleto de carta ao director dos transportes marítimos. A presente carta, inédita em português, ao contrário daquela magnífica que ditou a sua irmã poucas horas antes de falecer, e que foi incluída por Vítor Silva Tavares na cuidada edição que fez da correspondência abexim do poeta, Cartas da Abissínia (&etc, 2000; trad. Célia Henriques/VST), foi escrita três dias antes de Rimbaud abandonar o hospital da Concepção de Marselha, onde a 27 de Maio de 1891 lhe haviam amputado a perna direita, depois de graves complicações no joelho em Fevereiro, ainda no interior da Abissínia, que o haviam obrigado a regressar de urgência e de forma inesperada a França. Voltou de comboio à casa materna, nas Ardenas francesas, onde esteve cerca dum mês. A 23 de Agosto, dado o avanço da doença, que lhe paralisara entretanto os dois braços e lhe começava a tomar a perna esquerda, foi obrigado, na companhia de Isabel, a retornar ao hospital de Marselha. Acamado, sem possibilidade de se mexer, Rimbaud é dado por perdido. Em Outubro, entra em delírio, julgando-se nos portos do Mar Vermelho, estado no qual se mantém até ao trespasse em 10 de Novembro de 1891. Acabara de fazer, a 20 de Outubro, 37 anos. A auto-destruição física, a descrença na matéria, a aventura gnóstica, o génio verbal de Manuel de Castro evocam a obra ao rubro e o sofrimento final de Rimbaud.

Leave a Reply