A IDEIA – INÉDITO DE RAUL LEAL . – CARTA A ALMADA NEGREIROS DE 1950 – Pesquisa, transcrição e notas de Manuela Parreira da Silva

ideia1 

Novembro 1950 (1)

S / C Calçada do Lavra, 17-4º Lisboa

Meu querido José de Almada Negreiros

Um grande abraço de parabens! O seu livro sobre o Téleon é admiravel sob todos os pontos de vista. (2) Em primeiro lugar, o estilo, diverso do que possuem outras obras suas anteriores, tem um sabor arcaico atualisado que condiz perfeitamente com o assunto. E condiz perfeitamente porque a sua finalidade primaria, a meu vêr, é procurar o rejuvenescimentoatualisação – do antiquissimo Téleon, tornando-O tambem uma Gloria Nacional, do Passado, do Presente e do Futuro! (3) Como acentua magnificamente, o Téleon não é apenas uma regra fria de Simetria ou pre-Proporcionalidade, é antes uma regra viva segundo a qual o simetrismo decaliptico (4), por ela imposta, é a estrutura ideal em que se desenrola ou se desenvolve, vivendo realmente, uma Grande Mensagem dum Povo ou dum Complexo de Povos, interpretada pessoalmente pelo Artista Criador. (5) Dentro desta estrutura ideal vive, assim, a Alma dum Povo e dum Complexo de Povos atravez dum Acontecimento Nacional ou Ultranacional – em que a complexidade de factos constitutivos surge duma Unidade Substancial que O unifica e universalisa por identificál-O com essa Alma unamente complexa enquanto que projetada por Ele pela Mensagem que contem, no Infinito da Vida Universal – e passando esse Acontecimento, impregnado de toda a Alma Popular que n’Ele se realisa, se efetiva, na expressão pessoalissima que Lhe dá o Artista que O ergue, dentro da referida estrutura ideal, como portanto, sua criação propria. E é ideal essa estrutura por isso que é a unica em que pode exprimir-se um Acontecimento ou, antes, o espirito dum Acontecimento que seja uma Mensagem Universal viva dum Povo ou dum Complexo de Povos. Para o provar, começo por dizer […]

 NOTAS
  1. Transcreve-se [com a ortografia do autor] a 1ª folha (frente e verso) de uma longa carta (de 17 folhas) enviada por Raul Leal a Almada Negreiros. A carta inédita integra o espólio documental de Almada Negreiros e Sarah Afonso, a cujas herdeiras se agradece o terem autorizado esta publicação.
  2. O livro a que se refere Raul Leal é o opúsculo intitulado A chave diz: faltam duas tábuas e meia de pintura no todo da obra de Nuno Gonçalves, “o pintor português que pintou o altar de S. Vicente na Sé de Lisboa” (Da Pintvra Antigva, Francisco da Hollanda), publicado nesse mesmo ano de 1950 (Lisboa: Livraria Sá da Costa). Nele, Almada conta como, em Janeiro de 1926, descobrira, na ‘distância matemática’ entre as linhas dos ladrilhos para a disposição das seis tábuas do políptico de S.Vicente, a sua ‘distribuição em número perfeito que os gregos chamavam Téleon’ (p. 12), o que lhe permitiu entrever o todo dos painéis. Almada reivindica a (re) descoberta dessa ‘chave’ perdida ou esquecida durante séculos, ‘chave’ que já vislumbrara também, ao contemplar o Ecce Homo, pintura de autor anónimo da mesma época.
  3. Escreve Almada no seu opúsculo: O Téleon, ou a “chave”, foi por mim encontrado em obras portuguesas do século XV, precisamente a meio do meu trabalho acerca da Regra Única (a mesma “chave” ou Téleon) da cultura universal através de todos (diz-se todos) os povos e continentes, desde os mais longínquos milénios a.C., consecutivamente através dos séculos, até aos nossos dias de hoje. (p.12)
  4. Almada Negreiros chegara à conclusão, a partir dos seus cálculos, de que o conjunto dos painéis de Nuno Gonçalves seria, originariamente, composto de 10 tábuas. Até àquela data, para além das seis mais conhecidas e expostas no Museu de Arte Antiga, surgira a hipótese, aventada por Adriano Gusmão, de existir mais uma tábua e meia. Faltavam, portanto, na asserção de Almada, duas e meia. Como justificação, Almada invoca também, no seu opúsculo, um fragmento do pitagórico Filolau de Crotona que afirma ser a Década o número “verdadeiramente perfeito”, pois que “prefaz e realiza todas as coisas: princípio e guia da vida, tanto a divina e a celeste como humana…; sem ela, tudo é indeterminado, misterioso, obscuro.” Esta teoria almadiana, aplicada aos painéis quatrocentistas, revelar-se-ia, no entanto, pouco consistente, pelo menos a ter em conta investigações posteriores.
  5. A mensagem de Nuno Gonçalves é, segundo Almada Negreiros, a da “cultura universal ao português”, diferente da “nossa outra máxima e segunda mensagem, a de Luís de Camões em Os Lusíadas, a qual é a do português à cultura universal” (p. 14). No altar de S. Vicente, estaria representado “o alto momento da nossa incubação da universalidade na madrugada das Descobertas e Colonização, portuguesas, lusíadas, universais, à Grega, e não provinciais à Romana” (p. 14). Para Raul Leal, a estrutura dos painéis, assente no Número Perfeito, seria a ideal para transmitir as Mensagens “que anunciam ao Mundo, que espalham no Universo, embora Terrestre, Acontecimentos Sublimados em que se integra toda a Alma dos Povos, o seu Espirito ou Eu abismicamente Profundo”, como diria, mais à frente, na sua carta (p. 9).

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