EDITORIAL – Os cidadãos da urbe dividida…

Imagem2Alfredo Barroso, um dos fundadores do Partido Socialista, vai desfiliar-se , confessando-se envergonhado com a “inqualificável chinesice” de António Costa que, durante uma homenagem que, na quinta-feira da semana passada, lhe foi prestada pela comunidade chinesa, agradeceu a ajuda chinesa a Portugal, não só dos emigrantes, mas dos empresários em geral, elogiando as mudanças dos últimos quatro anos e sublinhando que a situação é hoje “bastante diferente” do que a verificada quando o Governo de Sócrates pediu o resgate aos credores internacionais.

Os cidadãos da urbe dividida/Se entre eles justo existe; e qual razão/Os leva da discórdia a todo o mal. Estes versos da Divina Comédia, de Dante Alighieri, reflectem o clima de profunda divisão política que se vivia na Florença medieval – gibelinos e guelfos, os primeiros defendendo o sistema imperialista e os segundos, adeptos das liberdades sob protecção do papa. Depois foram os Brancos e os Negros – e o sistema de governação por uma díade cujas duas formações se alternam no poder e, nos sistemas de democracia representativa conseguiu sobreviver e ganhar mesmo um estatuto especial – todos parecem achar normal que esta alternância se verifique. No entanto, este sistema constitui uma forma profundamente antidemocrática de organizar o poder político, configurando a construção de uma muralha oligárquica que nega passagem à participação colectiva.

A divisão entre os dois pólos da díade não ocorre entre membros de classes sociais antagónicas em luta pelo poder, mas entre membros da mesma classe social que preconizam soluções diferentes para os problemas políticos e sociais. Analisando a composição social do Parlamento português, vamos encontrar da, direita à esquerda, uma maioria de pessoas formadas nas mesmas universidades, pertencentes a um estrato social comum. O que os divide não é uma razão profunda, mas sim uma opção política que não muda a sua maneira de estar no presente, apenas afectando a forma como analisam o passado e como preconizam o futuro. O que os divide não são questões de princípios – mas a maneira como são repartidos os privilégios inerentes ao poder. Quem quiser defender princípios está a mais.

 A deriva ideológica teve início uma escassa meia dúzia de anos após a fundação quando, na Primavera de 1979, António Barreto, Medeiros Ferreira e Francisco Sousa Tavares abandonarem o partido. Entre  estas saídas e as de Eurico Figueiredo e Alfredo Barroso, medeiam mais de três décadas. E permanecem no PS muitos dos que, sendo socialistas, acreditam que a sua presença evita a transformação do partido numa formação abertamente neo-liberal. Não consegue vislumbrar-se que vantagem há em que o partido não assuma a sua posição e se mantenha a ficção de que o PS é «de esquerda». Uma clarificação seria um ganho para a democracia.

Esta duplicidade é, no entanto, o grande trunfo da “sensibilidade”  que governa o partido – é de” esquerda”, mas para tudo o que interessa, é de direita.

 

2 Comments

  1. Quando o barco ameaça ir ao fundo há, sempre, fugas. Foram precisos quarenta anos para perceber uma coisa tão evidente. E esta!!! CLV

  2. Embora ao lado do conteúdo do editorial, sugiro que, face à barragem que tem vindo a ser feita sobre a grande “recuperação económica”, fosse retomada, ou relembrada, a análise feita pelo Eugénio Rosa quanto à mistificação sobre a redução da taxa de desemprego.

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