“MURMURIO DOS FANTASMAS” DE BORIS CYRULNIK, CONTA-NOS A RESISTÊNCIA DAS CRIANÇAS AOS TRAUMAS PSICOLÓGICOS por Clara Castilho

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É uma edição “Temas e debates”, do ano de 2003. O livro fala-nos de algumas formas como as crianças ultrapassam os seus traumas.  Parte de dois casos mundialmente conhecidos – Marylin Monroe, Hans Christian Andersen, com uma análise das suas infâncias, das figuras importantes nas suas vidas (ou a falta delas…) para acabar falando das crianças soldado e das crianças vítimas de maus tratos.

 ….“a pequena Norma Jean Baker, ainda antes de nascer, já estava fora da lei. A mãe não teve força suficiente para lhe oferecer um regaço de segurança, tanta era a tristeza que dominava o seu mundo. A futura Marilyn foi metida em orfanatos frios e confiada a inúmeras famílias de acolhimento onde era difícil aprender a amar….. Para sobreviver a tanta agressão, a pequena Marilyn teve de criar os seus fantasmas, de alimentar-se da própria dor, antes de afundar-se na melancolia e na loucura da mãe…” (pag. 11).

…“O mundo do pequeno Andersen tinha de organizar-se a partir destas duas forças; precisava de sair da lama das origens para viver na luz da afectividade e da estranha beleza dos contos da sua cultura. Estes mundos opostos estavam ligados pela arte que transforma a lama em poesia, o sofrimento em êxtase, o patinho feio em cisne.” (pag. 13).

 murmurio dos fantasmas

Defende o autor que, ao verificar-se uma ferida, um trauma, surge uma agonia psíquica. O horror do que se viu, do que se sofreu, faz com que se fique morto psicologicamente, com que já não haja força para viver. De tal forma foi assustador o que se viveu, que a única forma de não sofrer é tornar-se pateta.

É que, se, por infelicidade, a criança pensar, vai sofrer. Fica dilacerada, não compreende o que aconteceu, é demasiado forte, provem a agonia psíquica. Ou então, uma parte da sua personalidade fica escarificada, em que morre uma parte da sua personalidade. Mas, à volta dessa parte, persistem brasas de resiliência.

Será preciso que alguém sopre nessas brasas para voltar a surgir vida. E se ninguém soprar, fica-se morto. O que acontece, depois, é o retomar do desenvolvimento, mas com uma parte morta da personalidade, com um traço biológico na memória.

É nessa altura que serão necessário tutores de resiliência para sobre-investir aspectos em que uma criança que se desenvolveu em boas condições não precisa.

As crianças que conseguem transformar-se em adultos resilientes são aquelas que foram ajudadas a dar sentido às suas feridas. O trabalho de resiliência consistiu em lembrarem-se dos choques para fazerem deles uma representação de imagens, de acções e de palavras para interpretar a ferida narcísica.

“Existe apenas uma solução para curar um traumatizado e acalmar o que o rodeia – compreender. As crianças que conseguem transformar-se em adultos resilientes são aquelas que foram ajudadas a dar sentido às suas feridas. O trabalho de resiliência consistiu em lembrarem-se dos choques para fazerem deles uma representação de imagens, de acções e de palavras para interpretar a ferida narcísica” (pag. 49). 

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