Sabe uma coisa, meu amigo? Há dias aconteceu-me uma coisa, que antigamente era frequente, mas que já não me dava há bastante tempo. Dormi a manhã quase toda. Era quase meio dia quando acordei. Foi sexta-feira passada. Mas entretanto, tinha-me deitado tardíssimo na noite anterior. Porque acredite-me, tinha chegado a casa depois de estar de tarde com a Maria da Luz, uma tarde muito preenchida, como deve perceber, jantei com a Heloísa, e fui estudar. É verdade, pus-me a estudar depois do jantar, e estive na lide até perto das três da manhã. Nem calcula o cansado que estava. A Heloísa via a sua telenovela (agora nem sei os nomes das que andam a passar) e, calcule, que cerca da meia-noite, me veio trazer um chá de tília e cidreira, acompanhado de umas bolachinhas com queijo e marmelada. Senti-me uma paxá. Calcule que me levantei da cadeira e dei um beijinho à minha mãe. Ficou tão contente, que me fez uma festa na cara. Acredite que nela é raro, ter manifestações assim.
Felizmente que não tenho visto a Maria Antónia. Digo felizmente, mas como sabe não tenho nada contra a rapariga. Pelo contrário, dou-me tão bem com ela… Mas é que agora ando com muito pouco tempo para as visitas que sabe. Não é que não me apeteça. Na tal noite de quinta para sexta, de que lhe falei ainda agora, era para aí uma da manhã, ainda me pus a magicar em ir lá cimabater-lhe à porta. Mas já era muito tarde… A Heloísa já tinha ido dormir, mas o sono dela, durante a noite, quando está deitada, nem sempre é profundo. Quando adormece em frente à televisão é que nem um canhão a acorda. Aquela ideia que as pessoas têm que adormecem em frente à televisão, porque os programas são chatos, julgo que nem sempre é verdadeira. Por vezes deixam-se escorregar para o vale dos sonhos, não por estarem aborrecidas, mas por se sentirem confortavelmente e á vontade. E encantadas com as telenovelas, não fartas delas. Elas levam os seus telespectadores para longe deste mundo, é a verdade. Mas lá no outro mundo para onde vão, também precisam de descansar. E se se sentem lá confortavelmente, dormem uma soneca. É natural, não acha? Mas deixe-me continuar a contar como passei estes dias.
Sábado, imagine que a Maria da Luz veio novamente jantar aqui a casa. Veio sozinha, conforme tínhamos combinado pelo telefone logo a seguir ao almoço. Chegou aqui à rua de Santo Ambrósio eram para aí umas cinco da tarde. Trazia uma pasta cheia de livros e papéis, bastante pesada. Fomos estudar para a sala e, veja o meu amigo, a Heloísa nem abriu a televisão, para nos deixar estudar. Fiquei espantadíssimo. Mas a minha mãe não devia querer-nos, aos dois, a estudar no quarto. Deve ter pensado que o perigo de nos distrairmos seria maior. Mas deixe-me explicar que isto são conjecturas minhas, porque a minha mãe fez tudo com o ar mais natural deste mundo, sem que nós lhe pedíssemos alguma coisa. Também é verdadeque ela, de tarde, tinha ido ao café logo a seguir ao almoço, e que ficou por lá bem umas duas horas. No que me diz respeito, é verdade que aproveitei para dormir uma pequena sesta. Mas ainda não eram quatro horas já estava ao trabalho.
Comemos uma lauto jantar, favas com entrecosto. À sobremesa, batemo-nos com um bolo que a minha Luzinha tinha trazido.À minha parte, marcharam três fatias não muito finas. A Heloísa explicava-nos que tinha feito um jantar pesado, porque nos achava muito cansados, e se calhar durante o dia não comíamos muito. Com tanto trabalho e esforço, precisávamos de andar bem alimentados. Comemos tremendamente, bebemos café, e voltamos ao trabalho. Já passava da meia noite, quando fui levar a Maria da luz a casa. Não me atrevi a propor que ela dormisse aqui em casa. O caso é que quando cheguei eram quase duas horas. Não se via ninguém na rua, e no nosso prédio as luzes estavam todas apagadas. A minha mãe dormia profundamente em frente à televisão, como habitualmente.
Tem sido assim os meus dias. Esta semana temos outra frequência. Como vê, estou-me a habituar a uma vida de trabalho. Já não era sem tempo, é o que vai dizer com certeza. Às vezes ainda tenho dúvidas sobre se sou capaz de aguentar tanto trabalho. Agora, só muito raramente. Não quero que pense que sou alérgico ao trabalho. Não sou, pode crer.