Todos os agentes do poder, nos três poderes, são criminosos institucionais, legais. Que o poder corrompe. É do mais elementar do nosso quotidiano. No dia em que um homem, uma mulher, aceita ser poder, clérigo, pastor de igreja, bispo residencial, papa de Roma, um simples presidente de junta de freguesia, deputado, ministro, 1.º ministro, presidente de um país, administrador de multinacional, banco, patrão de pequena empresa, até simples chefe-de-família, integra logo o rol dos criminosos legais. Nomeado ou votado, para ser-viver, um pouquinho que seja, acima dos demais, nunca mais é o mesmo homem, a mesma mulher. Os familiares mais próximos – pais, esposa, marido, filhas, filhos e os amigos de infância, juventude – são os primeiros a sentir a diferença. Para pior. A sua dimensão humana, a única que nos define-distingue dos demais seres vivos, fica gravemente ferida, no instante em que aceita tornar-se poder, diminuto que seja. Todo o poder é uma pirâmide. Vertical. Incompatível com a horizontalidade/igualdade. Edificada sobre todos os que não são poder, a esmagadora maioria dos seres humanos e dos povos das nações. Todos somos afectados com a existência do poder, de agentes do poder. A nossa saudável condição de seres humanos, todos diferentes, todos iguais, passa, de imediato, à condição de vítimas. Uma indignidade, em pequena ou grande escala, conforme o grau de poder que é exercido sobre cada conjunto de seres humanos. Semelhante constatação deveria ser suficiente para ninguém aceitar ser poder. Só que, como demónio/mentira que é, o poder tem algo de droga afrodisíaca. Passa logo a ditar as decisões, a conduzir os passos, de quantos possui. Acabam todos, inevitavelmente, polícias e ladrões. Fardados, legitimados, respeitados! Dêem-nos seres humanos e mudamos o mundo. Dêem-nos agentes do poder e corrompemos o mundo. Quanto mais próximos das suas vítimas, mais rascas, mal-educados, autoritários. Quanto mais no topo, infinitamente, longe das suas vítimas, mais corruptos-mãos-limpas, finas vestes, palácios, banquetes, sempre protegidos por protocolos, mesuras, ódios.