Os mapas são grandes narrativas; e por isso são também testemunhas da percepção cultural e da visão política de quem os desenha ou faz desenhar. Não é – e cada vez menos – que os seus dados, costas, situação de cidades, cabos, golfos, montanhas, portos e caminhos, não sejam o mais rigoroso possível, especialmente na cartografia técnica, marítima e militar; quanto que a representação, a orientação das formas, e os tamanhos dos demais países especialmente nos mapa-múndi, adoita apresentar notáveis contrastes.
Lembro-me da grande impressão que me causou, há muitos anos, vendo algum velho filme ambientado na II Guerra Mundial, um contraste entre os planos exibidos na mesa e nas paredes do Estado-maior Alemão e do Norte-Americano. Imaginem, não me lembro do nome do filme, o lugar do resto da Europa inteira semelhando uma província do III Reich e a diferença de tamanho e disposição central de uma América macrocefálica.
Talvez fosse exagero ou licença do diretor contrastando as cenas, os caracteres, os valores e dando conta do que o mundo jogava na ação estratégica, mas o efeito deixou-me mais pensando que atendendo no filme.
É interessante, nessa perspectiva, para nós, Galegos, observar a Galiza nos mapas que passam dia a dia ante os nossos olhos. Uma Galiza que sabemos e poderíamos focalizar perfeitamente na sua centralidade Atlântica (ao longo de toda a sua história e também hoje), mas que provavelmente enxerguemos como periferia extrema de um Estado e Reino que por sua vez centraliza a própria imagem no centro do planalto ibérico e que se define claramente como mediterrânico.

A geo-política da Galiza, poderíamos deduzir apenas vendo os mapas do tempo na TV, nos manuais escolares, nos livros de história a sério, nos jornais e nas revistas populares de grande divulgação, está, como a hora dos relógios e o relacionamento com Portugal, periferizada e portanto subordinada a uma outra visão.
Mudemos a cena, e como naquele filme, contemplemos agora, como espectadores, também o Mapa do mundo enxergado de Portugal e numa perspectiva eminentemente Atlântica. Efetivamente, caro leitor, efetivamente…

