MERCADOS E PETRÓLEO: UMA PEQUENA NOTA EXPLICATIVA, a introduzir uma montagem de JÚLIO MARQUES MOTA sobre um texto de JEAN-LUC GRÉAU

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Mercados e petróleo: uma pequena nota explicativa

Vamos publicar um texto de Jean-Luc Gréau sobre a crise do petróleo no quadro da crise actual. Muitos dos leitores do blog A Viagem dos Argonautas  não terão passado pelas Faculdades de Economia, tão “valorizadas” estas estão pela crise actual e pelos discursos da maioria dos economistas que escrevem nos jornais sobre a crise económica actual. Destes mercados pouco ou nada saberá,  pelo que achámos oportuno dar uma pequena noção do funcionamento destes  mercados com a presente nota. Sublinho aqui que 2006 foi o momento decisivo para que o mercado de Londres praticamente desregulado assumisse, com o ICE, a predominância sobre todos os outros mercados sobre o petróleo. Não por acaso, mas por  opção sublinhou o primeiro ministro de então, Gordon Brown,  os mercados financeiros para nós e para os americanos, as fábricas para os chineses, o mercado de serviços para os indianos, tudo isto com o Ámen da Comissão Europeia. Pouco mais de um  ano depois,   tudo explodia e, depois,   em vez de se andar a juntar colectivamente os cacos, passaram a andar os tanques da Frau Merkel a desfazê-los ainda mais.

O texto é grande, mas simplificar mais parece-me impossível, pelo que a nota ainda com todos estes cuidados sai maior que o artigo a que se quer reportar. Mas não consegui melhor. Lamento.

Montagem de Júlio Marques Mota

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gréau - petróleo - I

O mercado do petróleo é esquematicamente composto pelo mercado físico e pelo mercado dito de papel. No primeiro, como o próprio nome indica, é o petróleo  físico, real, que é negociado, comprado, vendido. No segundo, trata-se de um mercado de supostas intenções, onde  genericamente se vende o que se não tem, onde se compra o que se não quer. Esta é na minha opinião a melhor definição de mercados do papel sobre qualquer mercado, e neste caso, sobre o do petróleo.

O mercado físico engloba dois tipos de mercados: o primeiro é o mercado à vista (spot em inglês) mercado este em que  se dão as transacções de entrega imediata, ou quase imediata, onde o prazo de entrega não é superior a 3 dias.  Neste mercado trabalham, os produtores privados ou públicos e os negociantes. O segundo é o mercado a prazo,  (em inglês: forward). Sobre este último negoceiam-se transacções a preço estabelecido mas com entrega futura, dita também de entrega diferida.

O mercado dito de papel compreende dois mercados: o mercado do futuros e o mercado das OTC (operações  negociadas de forma descentralizada, fora da bolsa e sem  qualquer vigilância do regulador;  em inglês: Over The Counter). Sobre este mercado “trocam-se intenções de compra ou de venda futuras a um preço imediatamente fixado“.

Segundo um relatório do  Senado francês “desde há alguns anos a parte respectiva dos diferentes mercados evoluiu consideravelmente. Hoje, as transacções sobre o mercado físico representam 165 milhões de barris por dia; as transacções  de OTC, 1 mil milhões de barris por dia. Os volumes de trocas sobre o mercado dito de  papel são doravante nove vezes mais importantes que os volumes negociados sobre o mercado físico.”

O relatório do Senado dos Estados Unidos diz, por seu lado,  que ” desde há vários anos grandes instituições financeiras, hedge funds (fundos especulativos), fundos de pensão e outros fundos de investimento negociaram muitos milhares de milhões de dólares nos mercados de commodities de energia.”

A informação comum aos dois   documentos é, portanto, que desde há alguns anos os   mercados de papel,  mercados mais especulativos, ganharam volume tanto em valor absoluto como  relativo no contexto do comércio mundial de petróleo bruto.

Nos Estados Unidos, o principal lugar de compra e venda de petróleo bruto é o edifício de New York Mercantile Exchange (NYMEX) para onde as companhias enviam os seus próprios correctores.  Uma lei sobre as matérias primas designada pela sigla CEA (Commodities Exchange Act) regulamenta o comércio dos contratos de  futuros a fim de proteger os compradores e os consumidores das derivas  e dos embalamentos da  especulação. Uma instância chamada CFTC (Commodity Futures Trading Commission) foi criada  para fazer aplicar os regulamentos e supervisionar o conjunto das transacções efectuadas no NYMEX. Como o lembra o relatório americano  “uma das principais responsabilidades da CFTC é assegurar que os preços permanecem conformes à lei da oferta e da procura mais do que serem eles o resultado de  práticas manipuladoras e de um excesso de especulação.”

         Os mercados de futuros – uma descrição simples

Como  funciona este tipo de mercado?  “Um futuro” de petróleo é uma espécie de acção incidindo sobre o preço futuro do produto bruto: posso por exemplo comprar sobre NYMEX, com data de  25 de Julho de 2008, um contrato de maturidade de Setembro que cota neste dia   124 USD por  barril. Cada contrato refere-se a uma quantidade standard de 1000 barris de petróleo, por conseguinte, fiquei comprador desta quantidade a ser entregue em Setembro a um preço estabelecido hoje . Uma vez deste tt´titulo,  deste  “futuro”, o que seguidamente vou fazer? De duas coisas uma: se for um grande utilizador de petróleo – uma refinaria, por exemplo –, posso guardar este contrato até chegar a sua data limite  e fazer-me de facto comprador do  petróleo correspondente pela  contraparte que mo  vendeu.  Assim, independentemente do preço do petróleo em vigor no dia do 30 de Setembro, o que me vai ser entregue ter-me-á custado 124 USD/baril. Mas se eu for um especulador – um banco de negócios, por exemplo –, não tenho nenhum interesse que o petróleo físico   me seja entregue. Tenho por conseguinte até ao encerramento da cotação do meu contrato (2) para esperar que o preço do petróleo  suba acima dos 124 dólares. Se, por exemplo, por volta de 15 de Agosto, o preço do barril com  prazo de entrega  em Setembro de 2008 atingir 130 USD, por exemplo, venderei o meu contrato a este preço por barril e embolsarei uma mais-valia bruta de 6 USD por barril.

A vantagem dos ‘futuros’ é que estes  podem ser trocados facilmente (como as  acções) e que a sua cotação permite precisamente determinar um preço de petróleo tendo valor de informação pública. Porque o preço do petróleo relatado pelos meios de comunicação é de fato um preço “a prazo” (embora pouco distanciado); Assim, a cotação que me aparece nos écrans a 25 de Julho de 2008 é uma estimativa do que os actores do mercado pensam que este preço será no final do mês de Setembro, simplesmente porque o preço no dia a dia (dito  preço ‘spot’) do petróleo físico só é inicialmente conhecido pelos contratantes, como qualquer mercadoria. Esses preços spot  referenciados pelas agências  especializadas, são comunicados ao mercado com um certo atraso. Uma vez conhecidos,  os atores servem-se deles para reverem as  suas expectativas de preços futuros, o que, por sua vez, actua sobre o preço spot.

Erwan Quéinnec,  LA HAUSSE DES PRIX DU PÉTROLE EST-ELLE DUE À LA SPÉCULATION FINANCIÈRE? Texto disponível em : http://www.quebecoislibre.org/

 

 

Até 2006, as transacções sobre o WTI tinham sistematicamente lugar sobre as praças  americanas e, por conseguinte, eram supervisionados sistematicamente pela CFTC. Em 2000, uma meia dúzia de bancos de investimentos e de companhias petrolíferas  deram  origem ao nascimento do mercado  Intercontinental Exchange (ICE). Sediado  em Londres, permite praticar trocas electrónicas OTC. De acordo com o relatório do Senado americano, os participantes no ICE são as mais fortes  sociedades mundiais bem como as mais instituições financeiras que estão presentes. Reencontram-se aqui os produtores e os refinadores de petróleo e de gás, das sociedades dos sectores da electricidade, da  química e dos transportes, os  grandes bancos e os hedge funds. Contrariamente ao  que se passa com as  transacções de futuros  efectuadas no NYMEX, as que são realizados através do ICE assemelham-se a operações de futuros  mas não o são.  Essas operações recebem o nome de futuros look alikes. Ao contrário das operações sobre futuros  não são supervisionadas e não dão origem a  nenhum relatório por parte das companhias e dos seus corretores junto da CFTC.

No entanto, em Janeiro de 2006, o ICE  começou a ser o teatro de operações do WTI. Em Abril do mesmo ano, o ICE  informou a CFTC que permitiria a correctores americanos utilizar os seus  terminais de venda-compra sobre o mercado americano  WTI. Importantes fluxos de capital eram então desviados de NYMEX e privaram a CFTC de sua capacidade de controle e supervisão. O relatório do Senado dos EUA diz que a CFTC tem perdido muita precisão quanto  à avaliação da situação e que os dados que esta tinha continuado  a colectar tornaram-se então desnecessários.

Esta mudança decisiva não é o resultado do acaso e responde a uma vontade dos  grandes investidores neste mercado de  escaparem aos olhos do regulador, de escaparem assim a toda e qualquer vigilância. A criação do ICE é um  acto pesado de  significado. Através deste novo canal de transacções, os grandes investidores tem liberdade total e as rédeas na mãos, podendo obter lucros de volumes sem precedentes. O relatório americano insiste no facto de que, embora seja difícil quantificar os efeitos destes grandes influxos de capital sobre o preço do petróleo, é no entanto irrefutável que há entre eles uma relação de causa e efeito. De acordo com este mesmo relatório, “vários analistas estimaram que as compras especulativas de petróleo bruto adicionaram de  20 a 25 dólares ao seu preço normal, aumentando desse modo o preço de 50  para cerca de US $ 70 por barril.”

Mesmo se nenhum esquema  perfeitamente detalhado sobre este assunto tenha sido até agora apresentado, os autores do relatório americano acreditam que o aumento dos  preços nos  futuros sobre o petróleo  tenha precipitado o aumento actual de   compras pelos refinadores,  ansiosos em  evitar a inflação, aumentaram os seus stocks  em volumes consideráveis. Isto significa que a especulação  sobre os contratos de  futuros  e nas transacções  OTC provocaram um aumento da procura em tempo real, reduzindo a margem na  produção de segurança que os países produtores de petróleo constituem sempre, o que, portanto, alimenta a ansiedade dos mercados e aumenta os preços.

Alan Greenspan explicou no Congresso: “nos últimos anos, assistimos a um aumento significativo de contratos sobre futuros em  petróleo e no mercado OTC”. Esta “procura suplementar por parte da comunidade dos investidores  tem provocado  um aumento antecipado dos preços do petróleo.”

O  caso de T. Boone Pickens é bastante  revelador  do funcionamento da especulação: T. Boone Pickens está na primeira linha da tabela dos melhores corretores de 2005 na página 26 do relatório do Senado dos EUA. Em 2005 ele tinha acumulado um ganho de US $ 1,5 mil milhões e o seu fundo, BP Capital   geria então mais de 5 mil milhões de dólares.  Compreende-se  a importância dos rumores, dos  boatos difundidos por ele próprio e  T. Boone Pickens não se  priva de jogar às  aves de mau agouro. Pode-se ler na  página 25 do mesmo relatório: ”  Pickens fala regularmente do aumento dos preços do petróleo bruto e do gás natural sobre as cadeias de televisão financeiras, por cabo. Os corretores relatam que sempre que isso ocorre, aumenta o interesse especulativo nos mercados de  futuros de energia.” Ora, recentemente, previu-se o preço do  barril a US $ 150 antes do final de 2008. Para os analistas citados pelo Oil and Gas Journal de tais declarações ” estas assemelham-se mais a objectivos do que a previsões”. T. Boone Pickens parece cultivar o pânico calculado sobre os mercados a fim de fazer frutificar  os seus investimentos. Ele apostou sobre a alta dos preços, portanto, é necessário que  o petróleo suba  [ comprou a prazo a preço fixo agora e convêm-lhe portanto que na altura de se vencer o seu contrato o petróleo esteja mais caro do que aquilo que comprou,  ganhando a diferença de preço] .  De acordo com William Engdahl: hoje, não são apenas  cerca de  20 a  25%, mas sim 60% do preço do barril que é  devido às manobras dos  especuladores. Estamos a assistir ao desenvolvimento de uma bolha especulativa.

Os responsáveis por esta bolha, que o relatório do Senado francês qualifica  como um “terceiro choque do petróleo” poder-nos-iam dizer  se William Engdahl está errado e em muito ou se tem razão, mas eles não o querem  dizer. Os seus  métodos não devem ser objecto de investigação ou de inquéritos. As suas mãos  estão agora nos bolsos de todos nós… mas nenhuma câmara bem pensante  se atreverá a incidir os seus focos de luz sobre este tipo de actores. Estas pessoas são piratas em smokings e navegam sobre grandes navios  chamados Goldman & Sachs, Morgan Stanley, JP Morgan, Citigroup, Capital de BP, Amaranth Advisors, Centaurus Energy, Tudor Investment. Especialistas na arte de lucrar com a miséria que eles criam, eles sorriem quando ouvem falar sobre os palácios dos reis sauditas, dos  corredores do Kremlin, sobre os meandros do poder iraniano, dos manguezais nigerianos, das margens bordas do Orinoco venezuelano, dos corredores da OPEP em Viena  e mesmo, como já vimos, das salas  de  New York Mercantile Exchange (NYMEX).

Contrariamente a  Martin Wolf que escrevia em plena  crise dita de subprimes em Março de 2008 que “o capitalismo mundial e neoliberal morreu”, temos razões para  acreditar que nada está perdido  para os nossos piratas em smoking que continuam a  alimentarem-se  à força de dólares, colocando as suas garras nos porta-moedas de todo o planeta. Hábeis a privatizar os lucros, a nacionalizar as perdas e a semear em todos os ventos a ignorância pelo pressão sobre a imprensa de grande tiragem, riem-se às gargalhadas quando ouvem  o novo hino de moralidade financeira cantado com uma voz de  falsete pelo  humanista Jacques Delors.

Quanto a nós, simples gado miúdo e nunca  suficientemente flexível e sempre demasiado  exigente, as nossas reivindicações inábeis e para eles sem sentido, quando estas   chegam aos ouvidos da imprensa, fazem o mesmo efeito que a irrupção de um vagabundo arrastando os seus sapatos velhos  nas áleas de um  jardim projectado por Le Nôtre. Quando  nos ouvem e vêem a atingir as vigias do  castelo, os jornalistas viram-se com os olhos cheios de pânico e completamente amedrontados para os seus donos a quem perguntam: ‘Mas o que é isto?’ Então, sufocando um soluço, eles proferem a palavra mágica, a encantação suprema que resume tudo e expulsa o medo pelo  desprezo:

– É o grunhir,  senhor.

– O grunhir?

– Sim, senhor, o grunhir.

Porque segundo eles, nós grunhimos … como os porcos!

Bruno Adrie,  Prix du Pétrole et Spéculation-Le bonheur des pirates en smoking fait de plus en plus le malheur des cochons.

Texto disponível em :

http://www.mondialisation.ca/prix-du-p-trole-et-sp-culation/9267

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