Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise —- Parte I – Texto 7. Neste País, Costumávamos Ler (1/2) .  Por Noah McCormack

Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico

“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”

Herman Hesse

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 min de leitura

 

Nota de editor

Devido à sua extensão publicamos este texto em duas partes, hoje a primeira.

 

Texto 7. Neste País, Costumávamos Ler (1/2)

A história da literacia é a história das classes sociais

 Por Noah McCormack

Publicado por  em Novembro de 2025 (original aqui)

 

© Eric Timothy Carlson

 

O Interesse da Esquerda pela Imprensa Financeira

Os marxistas há muito que se interessam pela imprensa financeira. Karl Marx recorreu pela primeira vez ao The Economist para o ajudar a entender o fracasso das revoluções de 1848 e, em O Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte, encaminhou os leitores para esse “órgão” da “aristocracia financeira” para compreenderem o que o liberalismo estava a tramar. O cartunista americano de meados do século, Don Wright, apresentou num esboço uma suposta banca de jornais de Moscovo a vender três periódicos: Pravda, Izvestia e o Wall Street Journal.

Esta tendência entrou numa espécie de eclipse nos Estados Unidos à medida que o “Pânico Vermelho” (Red Scare) suprimiu o marxismo, e a Nova Esquerda e a viragem cultural voltaram a sua atenção para outros lugares. Mas, tal como o interesse pelo materialismo histórico ressurgiu após a crise financeira global de 2008, a esquerda redescobriu a imprensa financeira enquanto procurava pelo cerne racional dentro do invólucro místico. No início, o Financial Times era o centro das atenções. Como Amber A’Lee Frost escreveu na Columbia Journalism Review, o FT “cobre o mundo como ele é — uma batalha global não de ideias ou valores, mas de interesses económicos e políticos”. Depois do FT, vieram os escritos do historiador financeiro e blogueiro da Universidade de Columbia, Adam Tooze, com pessoas declarando-se “Tooze bros” (adeptos de Tooze, principalmente por lerem a sua newsletter, Chartbook, e não as suas colossais obras históricas). Ultimamente, a esquerda fixou-se no podcast Odd Lots, da Bloomberg, apresentado por Joe Weisenthal e Tracy Alloway, com os marxistas a ficarem malucos com as suas entrevistas a figuras que variam de Zohran Mamdani a diretores de empresas de logística — indivíduos que são singularmente capazes de oferecer uma visão sobre os choques na cadeia de abastecimentos durante a Covid e também com a actual volatilidade das tarifas.

Odd Lots é fascinante, debruçando-se sobre tudo, desde a história e a economia da lenha até ao papel do socialismo e do latifúndio na política de Nova York. Mas sei disso principalmente por relatos de terceiros. Não suporto ouvir podcasts. Sou demasiado apegado à palavra escrita; ela é mais densa, mais complexa e contém mais informação do que a palavra falada. Sou parte de uma espécie em extinção nessa orientação, e a mudança de interesse do jornal para o blog e deste para o podcast deixou-me um tanto “isolado” informacionalmente entre os meus pares. Weisenthal entenderia isto: um interesse especial dele é Walter Ong, o estudioso jesuíta que, duas gerações atrás, discutiu a transição da cultura oral para a cultura impressa e a transição, na era da televisão, para o que ele chamou de oralidade secundária.

A história que Ong conta é a seguinte: Durante a maior parte da história humana, a cultura foi exclusivamente oral. O conhecimento era transmitido pela fala, e o que podia ser transmitido era o que podia ser memorizado. A cultura oral era agregativa em vez de analítica — repleta de redundâncias, de disposição tradicionalista e imersa no “mundo da vida humana”, em vez de permitir o pensamento abstracto. Portanto, era conservadora e tradicional, avessa à inovação e a qualquer desvio das normas da vida agrícola há muito estabelecidas. Repetições, clichés e fórmulas são essenciais, como em Homero, com as suas frases repetidas como “navios velozes” e “mar cor de vinho”. Com a escrita, surgem a precisão, o rigor analítico, as escolhas deliberadas de palavras, o distanciamento analítico da vida e o pensamento abstracto.

 

O Impacto da Escrita e do Impresso

Ong escreve que a cultura oral dominou a Idade Média — apesar da invenção da escrita cerca de cinco mil anos antes — e, de certa forma, o próprio século XX. Com a chegada da imprensa à Europa na década de 1440, a impressão fixou a palavra escrita num lugar definitivo e começou a suplantar a oralidade. Isso deu origem, entre outros desenvolvimentos, ao romance e a outras formas modernas de escrita. Com o surgimento dos média eletrónicos, Ong vê então a sociedade a regredir/avançar para uma ‘oralidade secundária’, que traz de volta muitas qualidades da primeira oralidade (note-se a base supostamente permanente da escrita):

o seu fomento de um sentido comunitário, a sua concentração no momento presente e até mesmo a sua utilização de fórmulas. Mas é essencialmente uma oralidade mais deliberada e autoconsciente, baseada permanentemente no uso da escrita e da impressão, que são essenciais para a fabricação e o funcionamento dos equipamentos, e também para a sua utilização.

Um seguidor de Ong, Weisenthal aplica as ideias de Ong ao momento atual. O podcaster vê Trump como o primeiro presidente de uma sociedade pós-letrada. Ong paira sobre Trump enquanto este repete “Hillary Trapaceira” e “Ted Mentiroso”, com o comandante-em-chefe recriando, de uma forma muito mais estúpida, o “Aquiles de pés velozes”. Ao observar as redes sociais, Weisenthal vê o retorno dos valores orais ao domínio da praça pública, como a ruidosa mania da superioridade retórica. Em vez do ideal do debate fundamentado, as redes sociais preparam o palco para um constante duelo, recompensando aqueles que conseguem ser virais e possuem memes prontos na memória, já que a fórmula homérica de hoje altera tanto a nossa paisagem política como a neurológica.

“Quando as pessoas dizem coisas como ‘o Twitter está cheio de notícias falsas’ ou ‘o TikTok está a arruinar o tempo de atenção dos jovens de hoje’, escreve Weisenthal, “tudo isso pode estar correto. Mas a história maior, com a qual cada vez mais pessoas estão a lidar, é que o retorno à oralidade irá reconfigurar fundamentalmente o mecanismo lógico do cérebro humano.”

Esta crença de que a tecnologia “molda” o cérebro humano tem muitos precursores, mais notavelmente Marshall McLuhan e a sua seguidora Elizabeth Eisenstein, cuja obra monumental, A Imprensa como Agente de Mudança: Comunicações e Transformações Culturais na Europa Moderna, deu início a todo o campo da história moderna do livro em 1979. Preocupada com a “fixidez” do impresso, ela atribuiu uma série vertiginosa de mudanças ao seu surgimento, desde a revolução científica ao protestantismo e ao liberalismo político. Ong baseou-se nela, enquanto o influente tomo de 1985 de Neil Postman, Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Show Business, baseou-se em todos eles. Existem divergências internas entre esses autores, mas, fundamentalmente, eles contam uma única história: a tecnologia transforma-nos, e actualmente está a tranformar-nos para pior.

 

O Poder da Palavra Escrita

Acredito que estamos a mudar para pior. Não sou, no entanto, um determinista tecnológico ferrenho. Concordo com o teórico dos média, Siva Vaidhyanathan, no seu livro Antisocial Media: How Facebook Disconnects Us and Undermines Democracy (Média Antissociais: Como o Facebook nos desconecta e mina a democracia):

Entre os muitos problemas de se adotar essa forma de determinismo radical está o facto de que ele nos leva a acreditar que, quando se torna profundamente enraizada, uma nova tecnologia altera a sociedade de tal maneira que permite poucas surpresas, quanto mais correções ou reversões a antigos hábitos mentais. E, ao focar numa tecnologia com a exclusão de (e de forma distinta a) factores económicos e políticos, gera-se uma explicação monocausal para uma série complexa de mudanças.

O fator económico e político que deve ser recolocado no centro do debate — e ao qual a tecnologia está subordinada — é a classe. Marx precisa de dialogar com a Meta.

Não defendo que “a história de toda a sociedade existente até hoje é a história das lutas de classes” — por razões factuais e de periodização bastante tediosas —, mas argumentaria que a história de toda a literacia até hoje é a história da luta de classes. Se olharmos para a Europa medieval, berço da civilização euro-americana moderna, a literacia era rara. No início da Idade Média, era raríssima, embora talvez não tão escassa quanto as histórias populares sobre heroicos mosteiros preservando a palavra escrita nos fariam acreditar. De forma paradigmática, o próprio Carlos Magno era analfabeto, ainda que tenha incentivado o Renascimento Carolíngio — um esforço organizado emanado da sua corte para expandir o Cristianismo através da revitalização de obras clássicas, do aumento da literacia em latim e, consequentemente, do número de pessoas capazes de exercer funções na administração civil e eclesiástica. Com o início da era feudal no século XI, a alfabetização ia crescendo lentamente entre a elite não clerical, mas permanecia estritamente vocacional e concentrada no clero. Séculos após a sua morte, o rei inglês Henrique I era chamado de Beauclerc (do francês “bom clérigo”) pelo simples facto de saber ler.

Na ordem feudal, havia aqueles que guerreavam, aqueles que rezavam e aqueles que lavravam a terra. Como os que rezavam eram, na maioria das vezes, também os que administravam, eram eles quem mais necessitava da literacia. A leitura era uma forma de poder, razão pela qual a nobreza cada vez mais a desejava para ela mesma. Nenhum senhor de terras quereria que os seus camponeses soubessem ler, nem sequer enxergariam qualquer motivo pelo qual eles o desejassem. Porque é que um camponês esgotado pelo trabalho desejaria dispor de tempo para ler? Isso não significa que os camponeses não compreendessem o poder da palavra escrita. A Revolta dos Camponeses ingleses de 1381, um raro surto medieval de algo semelhante à consciência de classe moderna, queimou documentos em larga escala: registos judiciais, registos de alugueres e diversos outros documentos nos quais a lei era usada como instrumento de opressão de classe.

A elite americana queria usar a educação na sua população recém-chegada da mesma forma que os europeus faziam com os seus súditos imperiais.

Esse padrão permaneceu verdadeiro até ao século XIX na França. Os proprietários de terra opunham-se a educar os seus camponeses, e muitos camponeses resistiam à escolarização obrigatória. O trabalho infantil era crucial para a sobrevivência de toda a família, a tal ponto que o jornal socialista Égalité denunciou o ensino obrigatório, declarando que a prática “arrancaria da família operária um recurso do qual ela não pode prescindir.” Quando o futuro Primeiro-Ministro Georges Clemenceau se deparou com um camponês em 1884 e, repreendendo-o, questionou sobre porque é que o seu filho não estava na escola, o camponês respondeu: “O senhor vai dar-lhe uma renda privada?”

Os camponeses viviam num mundo de oralidade, com todas as limitações cognitivas descritas por Ong. Visualmente, toda e qualquer contemplação se voltava para a arte religiosa, que simultaneamente evocava mistérios incompreensíveis ao mesmo tempo que reforçava as lições bíblicas verbais do padre. Como diz Umberto Eco: “O universo da Alta Idade Média era um universo de alucinação; o mundo era uma floresta simbólica povoada de presenças misteriosas; as coisas eram vistas como se numa história contínua de uma divindade que passava o seu tempo a ler e a elaborar a Revista de Palavras Cruzadas da Semana”. Para Eco, a principal transição inicial para a modernidade ocorreu quando “uma linha foi traçada entre alucinação e visão” no tratado de óptica do século XIII de Robert Grosseteste. Com os americanos alegremente a afundarem-se no mundo onírico e alucinatório da IA, essa linha turva-se e simplesmente desaparece.

As taxas de literacia tinham aumentado à medida que a Baixa Idade Média transitava para o início da Era Moderna, impulsionadas em parte pelo surgimento de uma proto-burguesia. Mas foi necessária a imprensa para realmente mudar as coisas. De repente, os livros podiam ser produzidos em massa — eram, de facto, a primeira mercadoria industrial. A literatura académica sobre o tema é absolutamente obcecada com a “fixidez” como característica definidora da revolução da imprensa: que, em comparação com a cultura oral, as ideias eram “fixadas” na página impressa, o que possibilitou revoluções cognitivas e a revolução científica. Há alguma verdade nessa ideia, embora estudiosos como Adrian Johns tenham demonstrado que muitas pessoas vivenciavam a impressão como algo longe de ser tomado como fixo. Só para começar, abundavam erros tipográficos, diferentes edições (não necessariamente identificadas como tal) continham textos distintos, e edições piratas podiam ter apenas uma relação vaga com o original.

Mesmo que verdadeira, no entanto, a fixidez é menos importante do que o surgimento de uma mercadoria capaz de disseminar informações escritas a grandes parcelas da população, algo antes inimaginável até pelos mais fervorosos educadores. Devido às baixas barreiras de entrada e à facilidade de contrabando do produto, a imprensa resistiu aos Estados que tentaram criar monopólios tipográficos. A literacia também registou crescimento explosivo ao lado da Reforma Protestante, que estimulou ainda mais a impressão e criou uma justificação ideológica para a leitura: se o homem pudesse comungar directamente com Deus, precisaria de ter acesso à palavra de Deus tal como expressa na Bíblia. O regime Tudor na Inglaterra era obcecado com o controle social e a hierarquia, mas estava construído sobre alicerces protestantes: colocou uma Bíblia em língua vernácula em cada igreja e ampliou a educação das elites e das camadas médias, levando ao aumento das taxas de alfabetização, inclusive entre as mulheres.

Mesmo no início do século XIX, regiões fortemente protestantes como a Prússia e o Nordeste dos Estados Unidos continuavam a ser as áreas mais letradas do mundo. No entanto, se a imprensa tivesse dependido do protestantismo, jamais teria havido uma Revolução Francesa, dado o sucesso do Estado francês em suprimir, expulsar e marginalizar essa fé. Em 1775, o magistrado francês Malesherbes observou: “O conhecimento está a ser difundido pela Imprensa; as Leis escritas são hoje conhecidas por todos, todos podem compreender os seus próprios assuntos.” E a classe que melhor podia compreender os seus próprios assuntos e tinha um apetite insaciável pela imprensa era a burguesia em ascensão.

 

Guerras de Literacia

A burguesia em ascensão em ambos os lados do Atlântico era uma classe feita de tinta e papel de jornal. As aristocracias por toda a Europa eram pequenas; podiam ser unidas por uma cultura comum e por casamentos. A burguesia era grande, heterogénea, e incapaz de formar laços de parentesco à escala necessária; precisava das “múltiplas reproduções” da imprensa para construir uma identidade de classe. Por que razão permitiria então a burguesia que os seus subordinados também fossem letrados e até os encorajaria a tal? Porque precisavam de mão-de-obra letrada e com alguma dela a ter competências em cálculo, e esperavam governar os outros com uma hegemonia gramsciana transmitida pela literacia. Os britânicos começaram a tentar criar uma classe de indianos letrados em inglês porque isso criaria, como Benedict Anderson relata, usando as palavras de um dos arquitetos do projeto, “uma classe de pessoas, indiana no sangue e na cor, mas inglesa no gosto, na opinião, na moral e na capacidade de pensar”

Esta política difundiu-se pelo império com grande sucesso quanto ao seu objetivo declarado. Na Inglaterra, porém, os ingleses estavam a ficar para trás em relação ao crescente Estado prussiano na educação formal e obrigatória — uma das razões pelas quais a Alemanha ultrapassou a Inglaterra, pioneira industrial, na Segunda Revolução Industrial, foi porque se concentrou numa produção mais intensiva em conhecimento, como a produção de eletricidade e de produtos químicos. Mas o que realmente virou a maré foi o esmagamento da França pela Alemanha na Guerra Franco-Prussiana de 1870, em que a Prússia mais instruída venceu o exército francês maior, porém com menos formação.

Na famosa formulação de Charles Tilly, “A guerra fez o Estado e o Estado fez a guerra.” Um corolário pode ser acrescentado: a literacia fez a guerra e a guerra fez a literacia. Nas vésperas da guerra entre a Prússia e a França, a Inglaterra já tinha caminhado em direção a um maior financiamento e a maiores exigências em termos de educação, com W. E. Forster, o ministro responsável, a  declarar na  Câmara dos Comuns: “As comunidades civilizadas estão a agrupar-se em massa e cada conjunto é  medido pela sua força; e se quisermos manter a nossa posição entre … as nações do mundo, devemos compensar a pequenez dos nossos números aumentando a força intelectual dos nossos indivíduos”. Gladstone observou que a guerra foi “um triunfo marcante para a causa da educação popular sistemática”. No final do século XIX, a Inglaterra contava com uma educação primária abrangente e gratuita, e gastava anualmente quase tanto nela quanto na Marinha — uma situação que teria chocado qualquer pessoa cem anos antes.

Os Estados Unidos eram mais complicados, como sempre, com padrões regionais ditados em grande parte pela raça. Ainda assim, a Nova Inglaterra colonial muito provavelmente tinha sido a região mais letrada da Terra, e Massachusetts, que possuía formas de ensino patrocinado pelo Estado desde a década de 1640, impôs a primeira lei de educação obrigatória do país em 1852. Dezasseis estados tinham tomado o mesmo caminho até 1885, mas não foi antes de 1918 que os demais também o fizeram. O último foi o Mississippi, com a sua economia quase feudal e a sua população negra mantida sob servidão por dívidas, desincentivando a educação moderna até ao último momento possível. Como Anthony Trollope descreveu em 1880, “Os afluxos de [imigrantes] são tão rápidos que de dez em dez anos a natureza do povo muda.” A elite americana queria usar a educação na sua população de recém-chegados da mesma forma que os europeus faziam com os seus súbditos imperiais.

O período que abrange aproximadamente de 1890 a 1914 foi, em muitos aspectos, o auge da cultura de massas letrada. Na América, a literatura produzida localmente estava apenas a começar a deslocar a escrita britânica para formar um cânone nacional. “Pela primeira vez na história”, segundo Adrian Johns, “era realmente verdade que a imprensa — e, portanto, a leitura — se tinha tornado um componente definidor do quotidiano de uma nação”. Na Europa, como H. G. Wells observou, “O grande abismo que tinha dividido o mundo até então entre os leitores e a massa não-leitora tornou-se pouco mais do que uma diferença levemente percetível nos níveis educativos”. Vulgares soldados ingleses entraram nas trincheiras da Primeira Mundial levando consigo The Oxford Book of English Verse, tendo sido educados pelo Estado, frequentado depois institutos para trabalhadores e lido os clássicos na coleção Everyman’s Library.

Os tradicionalmente instruídos não ficaram satisfeitos com isso. A condenação de Nietzsche à literacia massiva — de que “permitir que todos aprendam a ler arruína, a longo prazo, não apenas a escrita, mas também o pensamento” — era popular entre socialistas e reacionários. Aldous Huxley falava por muitos ao dizer: “A educação universal criou uma imensa classe daquilo que posso chamar de os Novos Estúpidos”. A literatura modernista, como John Carey explicou em Os Intelectuais e as Massas: Orgulho e Preconceito entre a Intelligentsia Literária, 1880–1939, foi criada como uma forma de expressão elitista que seria impenetrável para as massas recém-letradas. As massas não leriam a literatura clássica e as obras intelectuais de não ficção que as elites culturais da sociedade capitalista queriam que lessem. E não apenas as elites culturais: o Partido Social-Democrata na Alemanha ficou consternado ao constatar que o extenso sistema de bibliotecas que havia criado estava a ser usada principalmente para a ficção popular. Os próprios capitalistas estavam mais divididos. Enquanto os Krupp, na Alemanha, criaram uma biblioteca de sessenta e um mil volumes para os seus funcionários e abasteceram-na de obras edificantes, muitos eram mais relaxados: queriam apenas que os trabalhadores lessem o que fosse lucrativo para o capitalista. Não era coincidência que essa fosse também a grande era do jornal popular, viabilizado tecnologicamente pelo telégrafo e economicamente por uma enorme massa de leitores. As elites culturais odiavam isso também. Nietzsche dizia que a plebe “vomita a sua bílis e chama-lhe um jornal”; mesmo décadas adentro do século XX, o principal crítico literário britânico, F. R. Leavis, falava com horror de “filmes, jornais, publicidade em todas as formas, ficção produzida comercialmente — tudo oferece satisfação ao mais baixo nível.”

 

(continua)

 

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O autor: Noah McCormack é o editor do The Baffler e coeditor, com Scott Sowerby, das memórias de Sir Daniel Fleming de Rydal Hall de 1633 a 1688. É licenciado e mestre em História pela Universidade de Harvard.

 

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