(continuação)
Mas esse gigante, a Alemanha, feito apenas ou sobretudo pelas fraquezas impostas aos outros e por eles estupidamente aceites, tem também o seu lado bem frágil: é globalmente o país mais endividado da Europa! Vejam-se os dados de Eurostat da semana passada;
Um quadro exemplar produzido por Eurostat mostra o peso das responsabilidades financeiras de cada Estado registadas fora do orçamento e dá-nos uma outra perspetiva da crise europeia: os grandes trapaceiros são os alemães o que vem estar de acordo com as teses de Michael Pettis, apresentadas no texto que também envio em anexo:
Quadro I: Total de passivos contingentes da UE em geral e empréstimos não-pagos pelos Estados-Membros da UE, para o ano de 2013
Face a este quadro juntemos um gráfico do Eurostat, sobre a dívida pública em vários países da zona euro, publicado a 15 de Fevereiro de 2015:
Gráfico I: Dívida bruta (conceito EDP), consolidação dos dados anuais (em % do PIB)
Os dados são evidentes agora: a dívida global da Alemanha, a visível e a invisível é de (126,6 + 76,4) do PIB= 203% do PIB; enquanto a correspondente dívida dos países ditos periféricos, os apanhadores de azeitonas ou ainda os países do Club Mediterranée, os países altamente endividados, é de:
– Grécia (6,82%+174,7%) do PIB = 181,52% do PIB;
– Espanha (12,46%+91,6%) do PIB = 104,06% do PIB;
-Itália (45,46% +127,8%) do PIB= 173,26% do PIB;
-França (46,9%+91,1%) do PIB= 138% do PIB;
-Portugal (51,79%+124,9%) do PIB= 176, 69% do PIB
Estes são os resultados oficiais que nos mostram que temos andado a ser sujeitos a uma pura mistificação, quanto aos níveis de endividamento. E isto não entrando ainda em linha de conta com um facto espantoso: por ser considerado porto de abrigo e no quadro da mobilidade absoluta dos capitais que é regra de ouro na UEM, a Alemanha terá beneficiado de juros mais baixos que os que existiriam se a crise não se tivesse instalado e da forma que o foi, o que lhe terá proporcionado uma economia de 120 mil milhões de euros na despesa pública, a demostrar que a própria União Monetária é uma verdadeira ficção pela qual se quer que todos nós nos sacrifiquemos agora. Que nos sacrifiquemos, a favor dos alemães, claro! Como noticiava o jornal Handelsblatt (o equivalente alemão do Financial Times) de 10 de Agosto de 2014:
“Desde 2007, as taxas de juro têm sido muito baixas na Alemanha. As poupanças em termos de despesa pública com o serviço da dívida vão-se adicionando e, segundo o Bundesbank, atingiriam já a cifra de 120 mil milhões de euros”.
Na verdade há um senhor e há os escravos, a provar a tese de Hegel explicada naquela que para é para nós uma das obras mais fundamentais na filosofia, a Fenomenologia do Espirito. Os alemães, assumidos como os senhores, na dialética do senhor e do escravo, a partir dos dados macroeconómicos do tipo dos dados acima apresentados e que, neste caso, dizem respeito ao ano de 2013, os últimos disponibilizados por Eurostat! Uma potência, com estes dados? Dá que pensar, que raios de espinha dorsal têm os nossos políticos actuais. A dos répteis talvez.
A tese do filósofo de Iena demonstrada mais de 200 anos depois, a partir do seu próprio país, a Alemanha e na base de uma verdadeira ficção como mostram os números acima, todos eles de Eurostat. A falsa robustez de uns a gerar a falsa fragilidade dos outros, custa a acreditar! Uma vez aceite esta ficção, esta transformou-se em realidade pensada, vivida, usufruída pelos alemães, sofrida pelos países em dificuldade. Produz-se a ideia de que são os senhores da Europa, os menos endividados porque os mais virtuosos e, a partir daí, assumem-se como os decisores desta Europa onde se passeiam, sobre os corpos dos que passaram a ser os seus escravos. Deste modo e, por esta razão de fundo, são eles que decidem sobre os nossos próprios destinos e em nome de todos nós como se lhe tivéssemos cedido numa salva de prata, a nossa soberania. Foi-se a salva de prata, foi-se a soberania. Com efeito, a Europa fala agora a uma só voz, a voz da Alemanha, ou seja este país fala pela Europa, e isso só foi possível porque houve dirigentes políticos que num dramático concurso de reptilização do poder e de destruição real da democracia se assumiram como os seus escravos, sacrificando por essa via os seus respetivos povos. Corrijo o que acabo de escrever. Foi assim até agora, até que David recusou aceitar como verdade o que sabe ser ficção, se empertigou e está disposto a lutar também por todos nós! Essa é a tarefa que o Syriza está a assumir por todos os povos europeus, talvez também à espera que despertemos da hibernação de répteis em que nos transformámos, e os ajudemos a eles no seu esforço titânico para salvar a Europa.
Demagogia, dirão alguns colegas meus, economistas de carreira, contra o aprendiz que eu fui sempre. Mas basta somente olhar para os gráficos e percebemos claramente que as políticas de austeridade impostas representam um verdadeiro massacre para todos os europeus e vêm-nos agora dizer que somos um bom exemplo de como o programa funciona bem! Uma falta de vergonha total para quem o diz, para quem afirma que um país completamente destruído e por décadas é um país de sucesso. Uma vergonha para quem se vangloria com esta afirmação quando se pode morrer nas urgências dos hospitais em nome da austeridade e sentado numa cadeira por falta de macas, onde para se resolver a questão dos doentes com hepatite C foi necessário ameaçar o próprio ministro da saúde. Dois dias depois, tudo resolvido! A falta de vergonha não tem limites, sabemo-lo todos os que têm consciência desta enorme crise, a transformar-se fortemente numa crise civilizacional, e com a eventualidade de mais uma guerra à escala europeia e facilmente transformável numa Terceira Guerra Mundial. É tempo de parar a máquina que a todos está a levar ao inferno, e o Syriza indica-nos o caminho. Saibamos segui-lo.
Na lógica do jogo da galinha, o choque frontal será pois um enorme e desnecessário risco. Os dados são contundentes. E claramente o nosso germanófilo Alexios Arvanitis estará enganado. No nosso jogo, para além da melhor das hipóteses, a de se abandonar o jogo e passar-se à cooperação entre todos, e da hipótese do choque frontal, temos ainda duas outras hipóteses:
– desiste a Alemanha e salva-se a Grécia. Neste caso a Europa pode ver a luz ao fundo e começar a realizar uma trajetória de crescimento sustentado que nos vai beneficiar a todos, inclusive a própria Alemanha, embora os efeitos benéficos desta possam ser mais importantes a médio e longo prazo do que a curto prazo, mas mesmo aqui sempre positivos.
– desiste a Grécia e salva-se a Alemanha. Neste caso, a desistência grega significa que o Syriza terá traído o seu povo e o mais provável a seguir é que se desencadeie uma revolução ou a guerra civil na Grécia. Pelo lado da Europa, esta hipótese representa a continuação do mesmo modelo, da mesma política, a da austeridade sem limites até à morte de todos eles e, por fim, a destruição da zona euro.
Poder-se-á pensar que estaremos aqui a ser demagógicos. Mas tomemos um excerto, embora longo, de um texto espantoso de Michael Pettis todo ele centrado sobre a crise:
“ Mesmo se a questão de quem é a “culpa”, da Grécia ou da Alemanha, seja uma questão importante, a resposta não mudaria a dinâmica da dívida. A situação atual para resolver o peso da dívida grega sem uma depreciação, sem uma redução, do seu montante pode corresponder a assumir que esta dinâmica corresponde à dinâmica verificada com as políticas de austeridade brutais de Ceausescu na Romênia, que foram impostas durante os anos 1980, para que o país pudesse pagar totalmente a sua dívida externa. Tendo em conta que as políticas de Ceausescu levaram directamente à Revolução de 1989, que culminou com as mortes, tanto de Ceausescu como da sua esposa, que foram executados por um pelotão de fuzilamento na praça pública, não é pois surpreendente a relutância de Atenas em imitar a Roménia na década de 1980, provavelmente para não acontecer isso mesmo.
Mas dizer simplesmente que a Grécia não pode pagar, isso não é o fim da história. Agora que a Europa se move sobre o caminho de uma política mais racional sobre a dívida da Grécia, eu lembraria aqui três coisas importantes que não devem ser esquecidas:
Há um enorme custo económico, para não mencionar social e talvez mesmo político, para que se devam evitar imperativamente atrasos na solução do problema. Eu preocupo-me assustadoramente com o baixo nível de sofisticação entre os decisores e os economistas que os aconselham quando se trata de compreender a dinâmica dos saldos orçamentais e a da reestruturação da dívida. O excesso de dívida da Grécia impõe um aumento nos custos para resolver as dificuldades financeiras e impõe igualmente distorções cada vez mais profundas na estrutura institucional da economia grega ao longo do tempo, e quanto mais tempo demora a resolver, maior será o custo económico, social e político a pagar.
(…)
Na verdade, a reestruturação global deve ser projetada de modo a que os interesses da Grécia, o dos produtores que criam o PIB grego e o dos credores, estejam corretamente estabelecidos, corretamente conformes. Até à data, as reestruturações de dívida soberana quase nunca incluíram os instrumentos que reflitam os instrumentos em reestruturações de dívida das empresas que conduzem a esse respeito de interesses de todas partes envolvidas, principalmente porque esses instrumentos não têm sido “inventados”, [mas corresponderam a uma lógica de reestruturação eficiente] . Entre outras coisas, a comissão de negociação poderia querer revisitar as garantias estabelecidas sobre a evolução do PIB que foram incluídas na última reestruturação da dívida da Argentina.
(…)
Se a reestruturação é bem concebida, dentro de um ano pós reestruturação penso que se poderia facilmente ver o crescimento grego surpreender-nos com o seu vigor. Fiquei satisfeito ao ver que o novo ministro das Finanças da Grécia defende o mesmo ponto de vista. Um artigo no Financial Times de segunda-feira começa com a afirmação de que “O novo governo radical da Grécia revelou propostas na segunda-feira para acabar com o confronto com os seus credores, trocando dívida por novos títulos ligados ao crescimento, à execução de um excedente orçamental permanente e especificando objetivos no combate à fraude e à evasão fiscal praticada pelos mais ricos”. O Financial Times de hoje tem um artigo de Martin Wolf, que menciona os benefícios de ” de uma ligação entre as obrigações de dívida e o crescimento económico “. Em The Machine Volatility eu gasto vários capítulos a explicar como criar estruturas de passivo que minimizem choques externos, tornem conformes os interesses dos credores e dos cidadãos, e melhorem a qualidade dos pagamentos aos credores e mostro igualmente porque é que isto leva a uma reestruturação muito mais bem sucedida para todas as partes interessadas. Mas isto é apenas teoria básica de finanças. O ministro Yanis Varoufakis deve realmente assumir a liderança na conceção de uma forma inteiramente nova de reestruturação da dívida soberana, e não apenas para a Grécia, mas para muitos países, na Europa e noutros lugares, que em breve irão entrar em incumprimento.
Haverá muita gente que parece odiar ou temer o Syriza e que fará muito poucos esforços para tentar abordar os problemas da Grécia com a imaginação suficiente para dar a uma ou à outra parte o que elas precisam, mas, na verdade, atuar em boa cooperação, com imaginação e compreensão intuitiva da forma como as estruturas das contas (públicas) alteram a criação do valor global. Neste caso, uma reestruturação da dívida grega poderia claramente deixar ambos os lados em muito melhor situação do que qualquer um dos lados poderia antes imaginar. É claro que se a reestruturação for bem feita isso importa muito mais e o seu impacto vai muito para além do impacto sobre a economia grega. Enquanto toda a gente provavelmente concorda que a Grécia simplesmente não pode prosseguir sem o perdão da dívida, menos amplamente aceite, mas não menos óbvio na minha opinião, é admitir que há uma série de outros países europeus que também precisam de perdão da dívida, se é que eles não continuam a aumentar. Porque eu nasci e cresci em Espanha, e a minha mãe francesa fundou e dirigiu uma empresa em que foi bem sucedida, que a minha família e eu próprio ainda mantemos, estou confiante de que conheço suficientemente bem o país para dizer que, mesmo com o facto de algumas reformas impressionantes terem sido implementadas sob Mariano Rajoy, a Espanha é, no entanto, um desses países. Eu suspeito que muitos outros países, incluindo Portugal, Itália, e talvez até mesmo a França também o são.”
Uma longa citação, mas que vale a pena pela força da argumentação de Michael Pettis. Ele está a falar de Portugal, da Itália, da Espanha, e mesmo da França, que exagero, pensarão.
(continua)
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Para ler a parte I desta carta de Júlio Marques Mota à presidente da assembleia da república, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:




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