CARTA DO RIO – 41 – por Rachel Gutiérrez

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8 de março. DIA INTERNACIONAL DA MULHER.

Há trinta anos, minha Dissertação de Mestrado, apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, teve como epígrafe provocativa, versos de um poema de Vinicius de Moraes, intitulado Receita de Mulher:

Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso

(…)É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche

No olhar dos homens.”

 

E eu afirmava que o poeta havia sintetizado o que os homens pensam sobre a “essência” feminina para dar início a esta reflexão:

(…) “Flor, ser vegetal, isto é, natureza. Ser sem ser, isto é, em-si. A mulher chafurda na imanência, diz Simone de Beauvoir.” E, pouco adiante: “a imanência é o que caracteriza o ser que permanece em si mesmo, fechado, sem expressão, sem projetar-se no mundo. Ora, projetar-se é próprio do ser humano. O animal é natureza, em-si, o homem é História, afirmação de si mesmo no tempo, para-si, transcendência. Mas, diz o poeta, é preciso que a mulher seja sem ser, e se reflita no olhar dos homens. É preciso, portanto, que o que não é seja através do que é. Em outras palavras, o em-si da mulher passa a ser, isto é, passa a transcender-se não como para-si, mas como um ser para o outro. À imanência acrescenta-se a alteridade.” E adiante concluía:

“Esse ser imanente, que só se afirma pelo outro e para o outro, constitui a si mesmo como Outro, um ser secundário, inferior, inessencial. Sua essência consiste em não ser essencial.”

Muito tempo passou, muitas coisas mudaram. Hoje podemos rir daquela flor e do “ser sem ser” de Vinícius, ou do que disse um jornalista, ao criticar veementemente a primeira aula ministrada na Sorbonne por uma mulher, Marie Curie, coisa por demais escandalosa nos idos de 1906 do século XX.  “- Que vai ser da superioridade dos homens? Prevejo, com espanto, que em breve todas as mulheres podem se tornar seres humanos!”  Marie Curie foi a primeira pessoa, no mundo, que recebeu duas vezes o Prêmio Nobel da Ciência; dividiu o primeiro, de Física, com seu marido Pierre Curie, em 1903, e o segundo, de Química, recebeu sozinha, em 1911.

Mas as mulheres jamais quiseram ser superiores ou mesmo “iguais” aos homens. O que sempre quiseram e continuam a desejar são as mesmas oportunidades, a equivalência, a paridade e a parceria. A luta das feministas, que passou a organizar-se em meados da década de 1860, na Inglaterra, chamou-se inicialmente sufragismo, a reivindicação do direito ao voto. E ao contrário do que se pensa, essa não foi uma luta burguesa. Cito a minha dissertação: “Operárias, como Annie Kenney, nobres, como Lady Lytton, e burguesas, como as famosas Pankhurst, enfrentaram a hostilidade da maior parte da população, a misoginia da imprensa e a forte resistência dos governantes.” O objetivo só foi atingido, parcialmente, em 10 de janeiro de 1918, no final da Primeira Grande Guerra, (período em que as mulheres substituíram os homens nas fábricas e em todo e qualquer tipo de trabalho). “Apenas as proprietárias, ou as esposas de proprietários”, porém, foram contempladas. “E só as maiores de 35 anos. As outras tiveram de esperar por mais dez anos.”

Do direito de votar ao direito de serem votadas, mulheres do mundo inteiro viram passar muitas décadas. Ainda hoje, judias ultraortodoxas precisam desafiar o conservadorismo da comunidade heredi (“temente a Deus”, em hebraico) que continua a rejeitar a presença delas na política. Nem vamos falar nas muçulmanas. É mais fácil falar sobre o Brasil e seus gritantes contrastes, seus pequenos avanços e suas grandes dificuldades.

As brasileiras, tão exaltadas no mundo inteiro por sua graça e beleza, principalmente quando são vistas seminuas, nas praias, ou praticamente nuas, no carnaval; as brasileiras que seus compatriotas homens fazem questão de homenagear ou ridicularizar nas folias, quando incansavelmente se vestem e se fantasiam de mulher, ano após ano; as brasileiras, que são manipuladas e degradadas na publicidade, ora reboladamente confundidas com o prazer da cerveja refrescante ou com a velocidade febril dos automóveis de último tipo, essas brasileiras também aparecem em tristes estatísticas. Apesar de já representarem quase a metade da força de trabalho do país, as mulheres do Brasil continuam a receber salários 30 % menores por tarefas iguais. No trabalho e no âmbito doméstico, sofrem discriminações, humilhações e abusos de todos os tipos. Senão vejamos: a cada 12 segundos, uma mulher é brutalmente espancada; a cada 10 minutos, outra (ou a mesma) mulher é estuprada; e 15 são assassinadas por dia no alegre país do futebol e do carnaval.

Além disso, ao avanço no mercado de trabalho e ao nível cada vez mais alto de escolaridade não corresponde a libertação dos encargos domésticos e do cuidado com os filhos. E embora 3 em cada 5 mulheres sejam capazes de administrar com sucesso o orçamento de suas casas, 68% das que tomam conta sozinhas dos filhos não recebem qualquer tipo de ajuda dos pais de seus filhos.

Voltando à questão da violência, lê-se no jornal O Globo de hoje, 8 de março de 2015: “No governo de Dilma, primeira presidente do país, ações prometidas contra violência de gênero não avançaram.” Projetos de construção de Casas da Mulher, para abrigar mulheres espancadas ou ameaçadas de morte por seus companheiros, que previam 27 unidades ainda no primeiro mandato da presidente, tiveram apenas uma casa inaugurada este ano, em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Um sistema de denúncia por telefone disponibilizou o número 180 que, não se sabe por quê,  ainda não está integrado aos órgãos de segurança e saúde.  O problema principal é que há muito poucas parlamentares para defender as causas das mulheres nas casas do Poder Legislativo. Em mais de 80 anos, apenas 197 deputadas foram eleitas. A ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, reconheceu que isso reflete a cultura patriarcal do nosso ambiente político predominantemente masculino. Cultura patriarcal e reacionária. O movimento feminista aponta as dificuldades que podemos prever na aplicação de uma nova lei que deverá ser sancionada no dia 9 de março, agora, pela presidente Dilma Rousseff. Trata-se da lei que qualifica o feminicídio (assassinato decorrente de discriminação de gênero) como crime hediondo e determina penas de 12 a 30 anos de prisão, e não mais como no caso do homicídio simples, para o qual são previstas penas de 6 a, no máximo, 20 anos. Com relação à lei Maria da Penha, que pune a violência doméstica, o número de ações no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro passou de 17.756, do ano de 2007 para 94.689, em 2014.

Outra questão inquietante é a da discriminalização do aborto, que esbarra sempre na resistência dos parlamentares evangélicos, que não entendem o sentido dessa reivindicação. Como disse o grande e sábio ex-presidente do nosso vizinho Uruguai, Pepe Mujica, ninguém é a favor do aborto, mas temos de ser a favor da defesa da vida das mulheres que se encontram em situações desesperadas e morrem, em número alarmante, em consequência de abortos clandestinos. Em 1985, eu já escrevia: “Ao optar pela interrupção de uma gravidez não desejada, acidental ou resultante de falha do contraceptivo, a mulher encontra-se, é verdade, numa situação-limite. (…) Mas a opção deve ser sua, pois é no seu corpo que a gestação ocorre, e essa ocorrência modifica a sua vida. Trata-se, portanto, da sua liberdade.” E continuava, pouco adiante: “Ao mesmo tempo em que reivindicam o direito ao aborto, as mulheres, para preveni-lo ou evitá-lo, reivindicam o direito à contracepção, à educação sexual, à informação. (…) Reivindicar esses direitos é promover a maternidade consciente, responsável, isto é, livre.”

Neste novo dia internacional da mulher, só posso continuar evocando aqui as palavras cheias de esperança, talvez um tanto ingênuas e assumidamente românticas do meu primeiro livro:

“A transfiguração da mulher, que há de decorrer da vitória sobre o estereótipo feminino, há de derrotar, também, as deformações do estereótipo masculino, transfigurando igualmente o homem.” (…) E apesar da violência que continua, como também já escrevi em outro livro, “a luta feminista prenuncia o advento de uma nova era. Juntos, as mulheres, os jovens, os que defendem a natureza e os que lutam pela paz, os negros e os homossexuais, todos os oprimidos, com as crianças e com os poetas, somos os artífices do futuro, de um novo renascimento, de uma possível epifania.”

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