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Pe. António Vieira
Fala-se em 2, na mesma edição VP
O de hoje apresenta-se na primeira pessoa e mete dó. O de ontem acaba de ser morto de vez!
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A diocese do Porto também tem o seu Pe. António Vieira, ainda visível entre nós e connosco. É pároco emérito de Figueiró e Lamoso, Paços de Ferreira. O semanário da diocese, edição de 4 de Março 2015, fala dele, na Tribuna do Leitor, uma local de somenos importância. Dito com mais precisão: Põe o próprio a falar. Na primeira pessoa. Mete dó o que ele nos diz, neste início do terceiro milénio. Lê-se e não se pode deixar de exclamar, Mas o que fizeram deste homem! A que grau de menoridade, o reduziram! Uma vida inteira de dedicação, de entrega a causas, que devem ser denunciadas, combatidas, nunca servidas. Muito menos, com a dedicação, a entrega com que o próprio no-lo testemunha na primeira pessoa. Já o outro Pe. António Vieira, o do país, o do mundo de língua portuguesa que tão brilhantemente escreve/fala, enche quase toda a primeira página da mesma edição, a propósito da publicação da sua Obra Completa, em 30 volumes, Círculo Leitores. Parece o maior reconhecimento/acolhimento do padre jesuíta português, do seu labor mais do que substantivo, do seu intenso comunicar/pregar/anunciar, mas é a forma mais sibilina de o matar definitivamente. Os graúdos, quando se juntam para levarem a cabo um feito destes, com tudo de monumental, mais não fazem do que erguer um sumptuoso sepulcro, para silenciarem, de vez, o pretenso homenageado. No caso em presença, precisamente, quando a sua voz mais falta está a fazer ao país, ao mundo, nomeadamente, o mundo que se comunica em português falado, escrito. Uma tragédia mascarada de monumentalidade, de glorificação.
Calculem que os graúdos não hesitaram em deslocar-se, juntos, a Roma, ao Estado do Vaticano, para entregarem em mãos ao próprio papa Francisco, a Obra Completa do Pe. António Vieira. Os 30 volumes, de uma assentada. Vão apodrecer todos no sepulcro dourado que é o Vaticano, a sua Cúria romana. Um lugar de morte, de vaidade, de opulência, de tirania, de hipocrisia, de inumanidade. Ainda que os ritos e os discursos oficiais, papais, pareçam dizer o contrário. É tudo encenação, para mundo ver e ficar impressionado, boca aberta de espanto, de escândalo, mas incapaz de o denunciar aos povos das nações. Certamente, porque, no fundo, o que mais lamentam, é que tudo aquilo não seja deles.
Obviamente, o papa Francisco, pau para toda a colher, prestou-se à encenação, tanto mais que se trata de um seu confrade jesuíta, quanto ele, que, depois de acabar de ser reduzido a 30 volumes, já não incomoda mais os grandes, os poderosos, entre os quais se conta também a Ordem dos jesuítas, sobretudo, o todo-poderoso Estado do Vaticano e seus príncipes da igreja, nos antípodas de Jesus, do seu Evangelho, da sua Ruah/Espírito maiêutico. Não fossem assim, teriam escutado, nessa audiência, a advertência/censura de Jesus, o de Mateus, “Ai de vós (…) que edificais sepulcros aos profetas e adornais os túmulos dos justos, dizendo: Se tivéssemos vivido no tempo dos nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos profetas! Deste modo, confessais que sois filhos dos que assassinaram os profetas. Acabai, então, de encher a medida dos vossos pais! (…) Por causa disso, envio-vos profetas, sábios, doutores da lei. Matareis e crucificareis alguns deles, açoitareis outros nas vossas sinagogas e havereis de persegui-los de cidade em cidade.” (29-34).
Antes de ter sido entregue ao papa, em audiência pública, a Obra Completa foi apresentada no Instituto Português de Santo António. A apresentação ficou a cargo do Delegado do Pontifício Conselho da Culltura, o bispo D. Carlos Alberto Moreira de Azevedo, que esteve para ser o actual cardeal patriarca de Lisboa, não tivesse havido aquele famigerado qui-pro-quo do capelão do Hospital de S. João no Porto contra ele – mas que indignidade, a deste padre-capelão! – em discreto conluio com o bispo do Porto, da altura, D. Manuel Clemente, hoje o cardeal patriarca de Lisboa. Enquanto D. Carlos Azevedo lá teve de ser “chutado” para cima, para a Cúria romana, para o lugar de responsável máximo das coisas da Cultura, no estado do Vaticano, entendida sempre no sentido de grandeza, de opulência, de fausto, por isso, do não-ser. Mas, exactamente por isso, tão do agrado do cristianismo paulino-constantiniano, o da Cúria romana.
Já com o outro Pe. António Vieira, tudo se passa na base da pirâmide eclesiástica que, apesar de o ser, é, ao mesmo tempo, o topo da pirâmide social, nomeadamente, nas sociedades onde os párocos-sacerdotes continuam a ser reis, senhores, tiranetes de se lhe tirar o chapéu. Ou, dito com palavras do próprio, no depoimento que escreve para VP e que a Direcção do semanário entendeu inserir na local, Tribuna do Leitor, embora o texto não se refrira a nada anteriormente lá editado. Mas, neste universo clerical-eclesiástico, tudo é permitido, desde que não ponha em questão a sua primazia. Como é o caso deste texto que dá notícia de duas sessões de homenagem ao Pe. António Vieira, da diocese do Porto, o próprio que o redige.
O seu texto é por demais confrangedor. Refere-se a duas sessões de homenagem que os paroquianos de cada uma das duas paróquias onde ele foi o pároco, lhe promoveram. Em Figueiró, primeiro, em Lamoso, depois. Que nisto de sessões de homenagem aos párocos-sacerdotes, as populações não deixam seus créditos por mãos alheias. E como os párocos, nestas coisas de homenagens, não se fazem rogados, pelo contrário, são, a maior parte das vezes, os primeiros a “soprar” a iniciativa a alguma das suas “ovelhas” mais fiéis, o consenso foi de imediato conseguido e as sessões aconteceram. Nada, porém, que se compare com o ocorrido em Roma, com o outro Pe. António Vieira. Mas, convenhamos, o Pe. António Vieira da diocese do Porto não tem, até hoje, no seu activo clerical-sacerdotal, nada que se pareça com o do jesuíta. É tudo muito mais caseiro, artesanal, comezinho, terra-a-terra, previsível, do mesmo.
A tragédia nem são sequer as sessões de homenagem. A tragédia é o que, a propósito e já depois delas, escreve o homenageado Pe. António Vieira, neste seu depoimento. Transcrevo, para que não digam que invento, ou que vejo o cisco no olho do outro e não vejo a trave que está no meu. Eis: “Aquilo não foi uma simples homenagem à minha pessoa, mas à pessoa de Cristo, sumo e eterno sacerdote, único pastor do povo de Deus. Claro que também eu – por misericórdia e bondade do Senhor – estou incluído, pois qualquer sacerdote actua na pessoa de Cristo: é sempre Ele que, através do seu Espírito, orienta a sua Igreja, servindo-se daqueles que escolheu para O representar – missão sublime, que nos faz pensar e tremer, mistério que só se aceita pela Fé. (…) Sendo isto assim, como tinha eu coragem para os impedir de agradecerem a graça do sacerdócio, de que eles beneficiaram durante quase cinquenta anos?”
Lê-se e não se acredita. Porque já vamos em 2015. Não no tempo de S. Paulo, nem no tempo logo a seguir a ele, o da Carta aos Hebreus. Como é que o Pe. António P.S. Vieira, com quem convivi nos anos do seminário do Porto, mais de 50 anos depois da sua ordenação presbiteral, não sacerdotal, consegue continuar ainda totalmente formatado pela teologia pré-concliar com que a diocese do Porto, na altura, nos formatou? Que práticas presbiterais foram as dele, até hoje, que não o resgataram/libertaram desses medonhos mitos do cristianismo? Nem sequer enxerga que o que chama de sacerdócio não tem a indelével marca da Ruah de Jesus Nazaré, o filho de Maria, fonte de inevitável e permanente conflito com todo o institucional que se auto-diviniza e se faz adorar? Não enxerga que o sacerdócio tem tudo do davinismo bíblico, que vai beber no sacerdote Aarão, irmão de Moisés, o(s) pai(s) do judaísmo davídico, da casa/dinastia de David/Salomão, que Jesus liminarmente repudia, por amor à verdade, por amor a todos os povos das nações, judeus incluídos? Como podem as populações beneficiar, como ele diz, do sacerdócio, se Jesus nunca foi sacerdote, nunca participou nos cultos a que os sacerdotes presidiam no templo de Jerusalém, e acaba condenado à morte crucificada por eles, nas pessoas dos dois sumos-sacerdotes de então?! Porque reincidimos em negar reiteradamente a História, a Realidade? Porque resistimos tanto a escutar/acolher/atender maieuticamente as vítimas da História, a começar pelas vítimas dos sacerdotes, do seu mítico Cristo/poder monárquico absoluto, o papal e, sobretudo, o do grande poder financeiro global?
Que mundo é o teu, meu amigo e quase condiscípulo, Pe. António Vieira? Não me perguntes, como os cínicos Nicodemos de todos os tempos, lugares, mais do que convencidos, Como pode ser isso? Sabe que Jesus Nazaré, o filho de Maria, o ser humano pleno e integral, é o caminho. Vamos pela sua mesma Fé política, não-religiosa, pela sua mesma Ruah, e somos-vivemos. No mundo, não nos templos, mas sem sermos do mundo onde se incluem os templos. Porque, inteiros, das vítimas, com as vítimas, que o mundo com os templos incluídos impunemente continua aí a fabricar em série. Com a bênção dos sacerdotes, “in persona Christi” (na pessoa de Cristo), como tu escreves! Esta inquestionável realidade não nos faz estremecer?! Somos já tão inumanos, bonzinhos, que já nem a Realidade mais real sentimos? Quando deixamos a fé infantil e somos mulheres, homens adultos, outros Jesus, porventura, crucificados, simbolicamente que seja, como ele?!

