ENTREVISTA DE DANIEL AARÃO REIS

O nosso colaborador Daniel Aarão Reis, professor titular de História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense, a propósito do trigésimo aniversário da redemocratização no Brasil, data que hoje se celebra, concedeu uma entrevista à Gazeta do Povo. Vamos transcrever essa entrevista conduzida pelo jornalista Chico Marés.

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Chico Marés: Tancredo e Sarney tinham um histórico político bastante distinto: um era do PMDB, outro era do PDS, um fazia oposição à ditadura, outro foi da base de apoio. Também tinham perfis políticos diferentes. Se Tancredo, ao invés de Sarney, tivesse sido o presidente no comando da transição para a democracia, essa etapa da construção da democracia poderia ter sido diferente? Em quais sentidos?

 Daniel Aarão Reis -A pergunta situa a trajetória dos dois políticos a partir da ditadura. Mas eles são mais antigos…antes do golpe, na conjuntura que antecedeu a instauração da ditadura, Sarney, na Bossa Nova da UDN, tinha posições à esquerda da Tancredo Neves. O fato é que as cassações rondariam as cabeças dos dois…Ao contrário de Sarney, que mudou rapidamente de lado, e aderiu à ditadura até o fim, em 1979, Tancredo cultivou a coerência – embora muito moderado, sempre esteve na oposição à ditadura. Não creio que Tancredo Neves tivesse feito um governo substancialmente diferente do de Sarney. Sua tradicional moderação, seu diálogo com os militares, seu trânsito junto às elites dominantes do país, colocariam para eles parâmetros incontornáveis.

Em 1985, o Brasil já amargava uma situação econômica bastante adversa. A inflação fechou o ano acima dos 200%. Para atacar esse problema, Sarney lançou mão de uma série de planos econômicos (Cruzado, Cruzado 2, Verão) que não tiveram sucesso. Isso poderia ter sido diferente com Tancredo? Até que ponto o governo era refém da situação econômica do país?

A inflação foi uma, dentre várias, pesadas heranças que a ditadura deixou para este país. As tentativas para jugulá-la, empreendidas por Sarney, estiveram sempre no limite dado pelos condicionantes acima referidos. Foi preciso esperar mais tempo para que surgisse, numa nova arquitetura, um novo Plano, o Real, que, realmente controlou a inflação. Difícil especular se Tancredo pudera encontrar este caminho ainda nos anos 1980…

Apesar da eleição ter sido indireta, havia um forte apoio popular à figura de Tancredo. Sarney, por outro lado, não tinha esse lastro. Além disso, ele terminou seu mandato como um político bastante impopular – tanto que Collor e Lula usaram o discurso “anti-Sarney” para impulsionar suas candidaturas em 1989. Até que ponto isso pode ter tido um efeito negativo na relação do brasileiro com a política? Ter uma figura controversa como Sarney como primeiro presidente da Nova República pode ter sido uma decepção para a população?

É certo que Sarney, quando assumiu, não tinha nem um décimo da popularidade de Tancredo Neves. Mas é preciso não esquecer que o Plano Cruzado o fez um presidente extremamente popular. Basta recordar que nas eleições daquele ano de 1986, o PMDB, partido de Sarney, elegeu todos os governadores de estado, com exceção de apenas um. Depois, com o fracasso do Plano, sua popularidade foi para o ralo, ensejando a construção, por parte dos adversários, da figura do bode expiatório, que Sarney encarnaria.

É importante observar que a chapa Tancredo/Sarney era a moderação em estado puro. As mesmas alianças e linhas de força os condicionavam e delas eles dificilmente se livrariam.

Após a morte de Tancredo, houve um “acordão” para a não realização de novas eleições – como era previsto constitucionalmente. Conversei com alguns parlamentares da época que me disseram que, na época, havia o temor de que novas eleições poderiam colocar a transição em risco. Esse risco era real? A realização de novas eleições não poderia ter resultado em um governo com maior legitimidade popular para conduzir o Brasil nesse momento delicado?

Se fossem eleições diretas, certamente confeririam maior legitimidade ao governo. Mas as “Diretas” estavam fora do esquadro das principais lideranças políticas, incluindo-se aí Sarney e Tancredo. Naquela altura, não havia mais ameaças de um retrocesso – a extrema-direita já fora desativada e as Diretas-Já, embora derrotadas em seu objetivo, haviam conferido uma legitimidade social à transição democrática que a tornara, a meu ver, irreversível.

Mesmo assim, e até hoje, as principais lideranças políticas no país continuavam muito amedrontadas com a hipótese de um “golpe de direita”. A maneira como foram então tratados os militares evidencia este medo patológico das lideranças civis frente a um golpe. Às vezes, me parece que elz exageram as “ameaças” para legitimar sua moderação, naquela base do: “ruim comigo, pior sem mim”. De certo modo, tal orientação regeu os governos civis, incluindo os de Lula e Dilma, até os dias atuais. Os militares continuam assim como “anjos tutelares” da República. Não são tratados, nem se sentem, como funcionários públicos uniformizados, mas como tutores das instituições. Mais um legado da ditadura no corpo da nossa democracia.

 

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