CRÓNICA DE DOMINGO – Mudar de Rumo – Reindustrialização – por Henrique Neto

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Este artigo, publicado no Jornal de Leiria, é por nós editado com expressa autorização do autor.

 

A palavra reindustrialização surgiu recentemente no léxico económico e foi adoptada com demasiada facilidade por muitos portugueses, sem a devida compreensão e correndo o risco de se perder o seu verdadeiro significado e importância. Esquecendo-se neste processo que a indústria portuguesa é ainda muito recente e que a industrialização tradicional ainda tem muito caminho a percorrer.

O conceito foi criado nos Estados Unidos, onde depois de um processo de desindustrialização de cerca de trinta anos, se concebeu a ideia de um retorno à indústria, mas a uma indústria de novo tipo. De uma forma simplificada trata-se de uma indústria que utiliza ao máximo as tecnologias da informação mais avançadas e a robótica para desenhar, projectar e produzir produtos a partir da recolha das necessidades e dos gostos dos clientes. Produtos em certos casos produzidos em pequenas quantidades, ou até individualmente, para serem entregues aos clientes directamente, depois de uma encomenda personalizada e sem custos de armazenamento.

Este conceito baseia-se no facto de hoje, utilizando os sistemas digitais integrados de desenho, projecto, prototipagem, fabrico de componentes, montagens e embalagens, os produtos poderem ser planeados e executadas com um mínimo de intervenção humana. O que permite oferecer no mercado, sem aumento de custo, uma vasta gama de produtos perfeitamente adaptados a cada cliente individual.

Trata-se de um processo que foi iniciado há já alguns anos com o projecto Saturno da General Motors e que hoje existe em quase todas as marcas de automóveis, em que o cliente pode escolher, sem aumento de custo, uma vasta gama de diferentes características do carro que pretende comprar, como motorização, cor, electrónica, assentos, painéis e uma imensa variedade de acessórios e de materiais disponíveis. Algumas outras empresas utilizam o mesmo conceito para os mais variados produtos, como, por exemplo, a General Electric, que planeia oferecer ao mercado electrodomésticos fabricados a partir das preferências de cada cliente.

No meu livro “Uma Estratégia para Portugal”, introduzi uma pequena história que escrevi em 1996 quando estava na Assembleia da República, para explicar o conceito a deputados do Parlamento Europeu de visita a Portugal, com o objectivo de demonstrar que os sectores da indústria chamados tradicionais são tão passíveis de modernização tecnológica como os outros considerados mais avançados. No caso, escolhi a indústria de confecção, mas poderia ter escolhido os sectores do calçado, cerâmica, vidro, ou quaisquer outros. Felizmente, essa história serviu para convencer os deputados visitantes, mas não serviu para convencer os deputados portugueses que ignoraram olimpicamente aquela nova proposta de modelo económico.

.Neste contexto, quando utilizamos hoje o conceito de reindustrialização é importante não o confundir com o mero crescimento industrial, ou com a criação em Portugal de novas indústrias do modelo tradicional, ou até com o retorno de sectores industriais que tenham emigrado ou desaparecido da nossa economia. Sendo certo que todas estas formas de produção industrial são desejáveis e devem ser promovidas, ainda que distintas deste novo modelo de produção industrial mais avançado que é a reindustrialização.

Finalmente, será também útil compreender que quer na indústria mais tradicional, quer no novo conceito de reindustrialização, é crescente a componente dos serviços, ao ponto de, por vezes, os serviços se tornarem num factor mais presentena indústria do que a componente industrial propriamente dita. Trataremos disso mais tarde.

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