EDITORIAL: O encontro fortuito, de uma mosca e de um submarino

logo editorialNos seus Cantos de Maldoror, Isidore Ducasse, um dos precursores do surrealismo, sob o pseudónimo de Conde de Lautréamont, apresenta como paradigma de beleza, improvável de uma perspectiva realista, “o encontro fortuito, sobre uma mesa de operações, de uma máquina de costura e de um guarda-chuva” – E no entanto esse improvável encontro, diz Lautréamont, pode verificar-se, por exemplo, durante uma mudança. O que, de certo modo, prova que a realidade objectiva pode não ser um valor absoluto.

Octavio Paz, o poeta marxista mexicano, o surrealista que recebeu o Prémio Nobel da Literatura de 1990, foi chamado a depor na comissão de inquérito ao caso BES/GES. Veio pela mão de Paulo Portas, ajudá-lo na questão dos submarinos chamada à colação pelo deputado socialista José Magalhães. Octavio Paz e as moscas, Paulo Portas e os submarinos, são temas que parecem ser de universos diferentes. E no entanto…

Após José Magalhães ter aludido aos submarinos, a conversa azedou e levou à intervenção de Fernando Negrão, deputado do PSD, presidente da comissão, pedindo que se mantivesse a “elevação” na troca de argumentos. Mas vamos ao que disse Portas: “Daqui a 10 anos ainda está convencido dos seus próprios convencimentos. O senhor deputado é inacessível à racionalidade”[…] “O Ministério Público investigou, os polícias verificaram, os peritos checaram, os procuradores escreveram o que entenderam, o juiz de instrução decidiu o que decidiu e o senhor deputado acha que o senhor deputado é que está certo. Mais a sua amiga Ana Gomes. Todo o resto do mundo está errado”[…] Faz-me lembrar a história do Octavio Paz: as moscas andavam todas com patas para baixo e depois há uma mosca que anda com as patas para o ar e acha, essa mosca que anda com as patas para o ar, que as outras moscas estão todas erradas e ela é que está certa”[…] Quando começou a ser questionado por José Magalhães sobre o caso dos submarinos, Paulo Portas respondeu: Voltamos à sua obsessão do costume que são os submarinos. O senhor deputado é deputado, não é polícia, nem investigador, nem procurador, nem juiz […] Por isso, peço-lhe o respeito pelo bom nome de pessoas que foram absolvidas em tribunal”, acrescentou Portas face às considerações de José Magalhães acerca das escutas relacionadas com o processo de compra de dois submarinos por parte do Estado português durante o Governo de coligação PSD/CDS-PP liderado por Durão Barroso, no qual Portas era o ministro da Defesa.[…]”Não há dúvida nenhuma de que o senhor é uma mente totalitária, porque quando a realidade não corresponde ao que pretende, altera a realidade.

Ficamos a saber que quem é absolvido em tribunal com base em erros na instrução do processo, mesmo que seja evidente a sua culpa, tem bom nome. Como diz um ditado popular – ladrão é quem rouba, mas corre menos do que o polícia.

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