PORTUGAL NA ENCRUZILHADA – SOBRE AS MENTIRAS QUANTO À SAÍDA DA CRISE, SOBRE OS NOVOS VICHY IMPLANTADOS POR TODA A EUROPA, TUDO SOB A “VIGILÂNCIA APERTADA” DE BRUXELAS, TUDO SOB O COMANDO DE BERLIM. – UMA CRÍTICA QUE PODERIA SER APRESENTADA AO NOSSO PRIMEIRO-MINISTRO SE VALESSE A PENA – por JÚLIO MARQUES MOTA – III

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Sobre as mentiras quanto à saída da crise, sobre os novos Vichy implantados por toda a Europa, tudo sob a “vigilância apertada” de Bruxelas, tudo sob o comando de Berlim.

Uma crítica que poderia ser apresentada ao nosso Primeiro-ministro se valesse a pena

europe_pol_1993 (continuação)

Mais preocupante é o contínuo aumento dos níveis de endividamento nas economias avançadas. Apesar de um maior condicionamento nos padrões do empréstimo, a dívida das famílias relativamente ao PIB diminuiu significativamente em apenas cinco economias avançadas, Estados Unidos, Irlanda, Reino Unido, Espanha, e Alemanha. Os Estados Unidos e a Irlanda conseguiram a maioria da redução do endividamento das famílias, dita deleverage, utilizando mecanismos muito diferentes ( falências nos Estados Unidos, e os programas da alteração dos empréstimos na Irlanda). Entretanto, um número de países na Europa do Norte, assim como no Canadá e na Austrália, têm agora maiores rácios de dívidas das famílias em relação ao PIB do que as que existiam nos Estados Unidos ou no Reino Unido no pico da bolha do crédito. As grandes empresas não estavam altamente alavancadas no início da crise de 2008 e o seu endividamento aumentou apenas ligeiramente desde então. Para as pequenas empresas, particularmente nalguns países da Europa, os novos empréstimos praticamente desapareceram.

Dívida pública: há necessidade de uma escala bem mais larga de soluções para enfrentar o endividamento dos governos nas economias avançadas que aumentou de 19 milhões de milhões entre 2007 e o segundo trimestre de 2014 e de $6 milhões de milhões nos países em vias de desenvolvimento. Dada a profundidades da recessão, o aumento das despesas públicas era um contrapeso bem-vindo contra o claro declínio na procura do sector privado. Muito correctamente,, na primeira reunião do G20 em Washington, os responsáveis políticos incitaram os governos a utilizar os estímulos orçamentais para combater a recessão.

Mas a dívida pública alcançou agora níveis elevados num leque de países e consideramos que além disso esta vai continuar a crescer. Dados os saldos primários actuais, as taxas de juro, a inflação e as projecções orçamentais consensuais quanto ao crescimento do PIB, nós estimamos que os rácios da dívida pública relativamente ao PIB continuarão a aumentar durante os próximos cinco anos no Japão (onde a divida pública é já 234 por cento do PIB), no Estados Unidos, e na maioria de países europeus, com as excepções de Alemanha, da Irlanda, e da Grécia.

Não é claro como é que os países mais altamente endividados destas economias avançadas poderá reduzir o seu nível de endividamento público. Nós calculamos que o ajustamento orçamental (ou a melhoria no saldo orçamento do governo) exigido para que o governo possa começar a desendividar-se estão próximos dos 2 por cento do PIB em mais de seis países: Espanha, Japão, Portugal, França, Itália, e o Reino Unido (Gráfico E4). Alcançar estes valores e manter de forma sustentada estas dramáticas variações nos orçamentos públicos é pois um enorme problema, um enorme desafio. Além disso, os esforços para reduzir os défices orçamentais poderiam ser contraproducentes – contrariando e contrariando o crescimento que é necessário para poder reduzir o nível relativo do endividamento.

Nem estão estas economias provavelmente em condições para conseguirem que os respectivos governos saiam da situação de elevado nível de endividamento, o que foi essencial em alguns dos precedentes episódios de desendividamento bem sucedidos, tais como aconteceu com a Suécia e a Finlândia nos anos 90. Nestes países, também, o nível de endividamento do governo aumentou nas recessões que se seguiram às suas crises. Mas os seus sectores privados desendividaram-se rapidamente, e ambas as nações tiraram proveito de um crescimento das suas exportações, crescimento este alimentado em grande parte por uma depreciação de moeda de 30 por cento e por uma procura global forte. Hoje, muitas das maiores economias do mundo estão a tentar desendividarem-se todas elas ao mesmo tempo e num ambiente de crescimento global limitado e da inflação persistentemente baixa. A nossa análise mostra que o crescimento real do PIB precisaria de ser duas vezes o valor que é actualmente estimado ou mais ainda para poder começar a reduzir os rácios de dívida publica relativamente ao PIB em seis países: Espanha, Japão, Portugal, França, Itália, e Finlândia.

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Um leque bem mais largo de soluções é então necessário para permitir o desendividamento das contas públicas. As especificidades dependerão das circunstâncias de cada país. Mas estas podem incluir, por exemplo, vendas alargadas dos activos públicos, impostos mais altos sobre os patrimónios e um imposto aplicado de uma só vez ao património de cada cidadão, objectivos de inflação mais alta e programas mais eficientes para a reestruturação da dívida.

O endividamento das famílias continua a crescer a crescer rapidamente, e situações de desendividamento são raras. Os insustentáveis níveis de endividamento dos agregados familiares nos Estados Unidos e numa mão cheia de outras economias avançadas estiveram no centro da crise financeira que rebentou em 2008. Entre 2000 e 2007, o rácio do endividamento das famílias relativamente ao PIB aumentou de um terço ou mais nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Espanha, na Irlanda e em Portugal. Isto foi acompanhado de perto e contribuiu para isso, por um aumento dos preços das casas. Quando os preços das habitações começaram a diminuir e a crise financeira rebentou, o esforço a fazer com este endividamento conduziu a uma contracção aguda no consumo e a uma profunda recessão.

Desde então, as famílias nesses países começaram a desendividarem-se, com mais progressos na Irlanda e nos Estados Unidos. Em muitos outros países, no entanto, a dívida das famílias continuou a subir rapidamente. Na Holanda, Dinamarca e Noruega, a dívida das famílias ultrapassa agora 200% do PIB — muito acima da dívida das famílias nos EUA ou na Inglaterra no pico da crise.

Noutras economias avançadas, tais como Canadá, a Coreia do Sul e a Austrália, a dívida dos agregados familiares também continua a crescer. A dívida das famílias aumentou rapidamente nalguns dos países em desenvolvimento, também — quadruplicou na China, por exemplo —, mas permanece a níveis mais baixos em relação ao rendimento do que nas economias avançadas (Malásia e Tailândia são excepções).

Porque é que o desendividamento das famílias é tão raro? As hipotecas são a principal forma de dívida dos agregados familiares em todas as economias avançadas, e o aumento dos preços de habitação contribui para mais endividamento. E, quando os compradores podem obter maior volume de hipotecas, por efeito da procura aumentam os preços das casas mais ainda. Encontramos uma forte correlação entre os aumentos nos preços dos imóveis e a dívida dos agregados familiares em todos os países e entre os Estados federados dos Estados Unidos. Os preços da habitação, por sua vez, reflectem os custos da terra, que são influenciados por limitações físicas, pelas políticas regulatórias e pela concentração urbana. Mostramos que os padrões de urbanização são relevantes: os países em que uma grande parte da população vive num pequeno número de cidades têm preços no imobiliário mais elevados — e forte endividamento das famílias — do que os países com um desenvolvimento urbano mais disperso. Os responsáveis pelas decisões das políticas seguidas necessitam, portanto, de estar particularmente atentos à evolução do crescimento da dívida e da sua sustentabilidade em cidades globais com os preços dos imóveis muito altos.

A questão que agora se levanta é a de saber se o endividamento das famílias em alguns países desencadeará uma crise. Nós considerámos o nível e o crescimento do rácio do endividamento relativamente ao rácio, o serviço da dívida e as variações dos preços no imobiliário. Utilizando estas métricas estimamos que sete economias têm hoje vulnerabilidades potenciais no endividamento dos agregados familiares: a Coreia do Sul, o Canadá, a Suécia, Austrália, Malásia, Tailândia e a Holanda. Mais do que nunca, são necessários instrumentos eficazes para a emissão, a monitorização e para a gestão do endividamento familiar. “

(continua)

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Para ler a Parte II de “Sobre as mentiras…”, de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

PORTUGAL NA ENCRUZILHADA – SOBRE AS MENTIRAS QUANTO À SAÍDA DA CRISE, SOBRE OS NOVOS VICHY IMPLANTADOS POR TODA A EUROPA, TUDO SOB A “VIGILÂNCIA APERTADA” DE BRUXELAS, TUDO SOB O COMANDO DE BERLIM. – UMA CRÍTICA QUE PODERIA SER APRESENTADA AO NOSSO PRIMEIRO-MINISTRO SE VALESSE A PENA – por JÚLIO MARQUES MOTA – II

 

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