EDITORIAL – “Primavera di bellezza” ou “arma cargada de futuro”?

Tlogo editorialemo-lo dito à saciedade – não gostamos dos «Dias mundiais» – parecem-nos formas de procurar esconjurar más consciências. O Dia da Mulher tenta compensar as inaceitáveis desigualdades a que a condição feminina está sujeita, o Dia dos Animais pede desculpa aos animais domésticos abandonados e mal tratados, às espécies extintas por caçadores e por indústrias criminosas,  o Dia da Criança, não evita o sofrimento a que muitos seres indefesos são submetidos… Celebra-se hoje o Dia Mundial da Poesia. Nós, todos os dias celebramos a poesia – uma das mais matinais rubricas do nosso blogue é preenchida por um poema. Hoje, primeiro dia de Primavera, é por decisão assumida na XXX Conferência Geral da UNESCO, datada de Novembro de 1999, o Dia Mundial da Poesia. O propósito desta celebração é promover a leitura, a escrita, a publicação e o ensino da poesia. Em Lisboa e no Porto haverá hoje comemorações com homenagens a Fernando Pessoa, Cesário Verde e Sophia de Mello Breyner Andresen. É justo, é bonito e é elevado.

Mas, perguntamos – afinal, o que será a poesia? Estaremos todos a falar do mesmo? As respostas são muitas. Aqui vai a nossa –  poesia pode, de certo modo, ser comparada ao fogo – o fogo aquece-nos, permite-nos cozinhar os alimentos, ilumina-nos; mas se não o tratamos com cuidado e respeito, incendeia-nos a casa, mata-nos. Este fogo que embeleza uma sociedade feia, que espiritualiza uma comunidade sem alma, onde roubar um pacote de leite é crime, mas onde destruir as poupanças de milhares de pessoas é mera contingência, é chama que arde serenamente numa lareira renascentista ou é um incêndio vingador, incontrolável; é um gatinho ronronante ou um tigre feroz e impiedoso? Um animal exótico ou uma besta tsunâmica que leva tudo à frente?

O “Orpheu” revista do modernismo português, que completa cem anos neste mês de Março, e os seus três fundadores são hoje homenageados no Teatro Nacional D.ª Maria II, em Lisboa, com uma declamação de poemas de Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Mário de Sá-Carneiro. Não se contesta o grande valor literário do movimento, lembramos só que ele se fazia contra a boçalidade de uma classe dirigente que fizera cair a instituição monárquica, mas que culturalmente mantinha todos os estigmas herdados do passado. O futuro que o “Orpheu” defendia era compatível com o fascismo, acompanhava uma lógica que conduzia a um conceito de beleza que não excluía a saudação romana. Condenava a filosofia burguesa de Júlio Dantas, mas aceitou anos depois o plano cultural que o Secretário da Propaganda Nacional pôs em prática, «Morra o Dantas, morra! Pim!» Morra o Dantas, mas Almada Negreiros não rejeitou as encomendas para a Exposição do Mundo Português. Não comparemos, no entanto, o manifesto de Almada, integrado numa sessão futurista, com a obra de Pessoa. Sem entrarmos na questão polémica sobre o carácter reaccionário ou não da obra pessoana, não há dúvida de que a Mensagem foi explorada pelo regime salazarista – Deus quer, o homem sonha, a obra nasce, foi frase de inaugurar chafarizes, estradas, bairros sociais… Estamos a misturar alhos com bugalhos? A denegrir a poesia tout court em favor da poesia panfletária?

É curioso que se classifique como panfletária a poesia que veicule ideias de esquerda, como se a outra poesia, a “respeitável”não transportasse ideias também – Camões, exalta o papel de D.Manuel no sonho dos Descobrimentos e cala o papel de D. João II que ocupado a pôr de pé o Plano da Índia não teve tempo para sonhar. Mas não era prudente elogiar perante quem ia pagar a tença, o assassino do seu tio-bisavô. E o poema nacional escamoteia “só” o verdadeiro arquitecto da gesta, o Príncipe Perfeito (na Mensagem, Pessoa repõe a verdade e diz a quem obedece o homem do leme). Mas a inverdade histórica não retira o brilho à obra de Luís Vaz.

Nas encruzilhadas da vida dos homens e dos povos, há opções a fazer. Que caminho escolher? Naqueles anos difíceis das primeiras décadas do século XX, havia quem optasse pelo caminho que parecia florido e que apostava na juventude – Giovinezza. Giovinezza/primavera di belezza… A primavera de beleza desembocou no horror de milhões de mortos e de um mundo em ruínas. Nós pensamos que a poesia «es un arma cargada de futuro» como a definiu Gabriel Celaya. Um futuro que não será de direita nem de esquerda, porque a esquerda só existe por referência à direita e eliminada a animalidade que sobrevive na nossa espécie, quando formos seres humanos, os pressupostos em que assenta a direita deixarão de existir. a luta pela igualdade, pela fraternidade e pela liberdade, configura um ideário de esquerda? Pois então, afirmemos que ou este ideário prevalece ou os seres humanos caminham para a extinção.

Hoje damos as boas-vindas à Primavera. E à Poesia, claro.

3 Comments

  1. Um texto lúcido e emotivo. Um texto actual. Nada existe isolado do momento histórico em que ocorre. Deixemos que a poesia seja « un arma cargada de futuro» como a definiu Gabriel Celaya, como referes. E busquemos outras armas.

  2. Acho que está muito bem posta a questão. A poesia ajuda ao entendimento, em todos os aspectos. Claro que pode ser usada de muitas maneiras… E pode ser encontrada em todos os lugares, e nas pessoas mais diversas. Pense-se na influência, a vários níveis, que Ezra Pound teve sobre os seus colegas escritores seus contemporâneos, das mais variadas orientações políticas. Contudo, isso não diminui a importância da poesia para a comunicação humana.

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