Sobre as mentiras quanto à saída da crise, sobre os novos Vichy implantados por toda a Europa, tudo sob a “vigilância apertada” de Bruxelas, tudo sob o comando de Berlim.
Uma crítica que poderia ser apresentada ao nosso Primeiro-ministro se valesse a pena
(continuação)
…
V. O papel da Alemanha na construção de um sistema em crise-uma síntese
Excertos do trabalho de Onubre Einz
Deste extraordinário trabalho, de quase 170 páginas, repartido por vários capítulos, aqui vos deixamos alguns excertos.
1. Os relógios na Alemanha não marcam as mesmas horas da Europa
A saída da crise na Europa reduz-se assim a um aumento da competitividade, supondo uma baixa das despesas públicas e uma reforma dos mercados de trabalho. O convite é claro: se os europeus querem sair da rotina, eles devem inspirar-se nas reformas Schröder e no exemplo da virtuosa Alemanha.
É assim que a Alemanha transforma uma crise da zona euro, que ela abriu ao exagerar a política tradicional da desinflação competitiva, em crise orçamental ao impor por toda a parte uma política de rigor ou de austeridade (os espíritos fortes e aqueles que são muito hábeis e lógicos que façam a distinção entre uma e outra). Se há um país que pode ser considerado responsável por esta crise é a Alemanha. A moderação salarial e a redução de encargos sociais impulsionaram as exportações alemãs e estimularam o crescimento alemão. Na altura em que os desequilíbrios comerciais beneficiavam a economia alemã, os países cigarras não foram abertamente chamados à ordem, a hora dos cortes orçamentais exigentes ainda não tinha chegado. Nem a Alemanha, nem a Comissão Europeia estavam preocupadas com estas questões.
Certamente, as agendas dos conselhos europeus — e outras reuniões — deixam de fora as suas questões embaraçosas: não suporiam que se desse conta que, na última década, o crescimento alemão tivesse sido feito às custas dos seus vizinhos europeus através dos confortáveis excedentes da balança comercial e de pagamentos. Deveria ter então chegado a hora da solidariedade. Mas no relógio da Alemanha, as agulhas nunca devem marcar essa hora.
2. A quadratura do círculo: a saída pela dinâmica das exportações com todos os países em recessão
As análises até aqui feitas quanto aos efeitos das reformas Schröder mostram-nos que estas se fizeram realmente sentir. O seu efeito foi máximo na zona euro, mais modesto nos países da Europa comunitária que não adoptaram o euro, fraco nos países da Europa que não pertencem ao euro. É isto que mostram as balanças comerciais. Se examinarmos as exportações e os saldos comerciais é a Europa que está no centro do crescimento alemão estimulado pelas exportações. Mas para que este centro permaneça dinâmico, a Alemanha teve de recorrer a reformas radicais que melhoraram a sua posição nas trocas europeias. Sem isso, o seu crescimento teria sido mais fraco; a Alemanha efectivamente criou o seu crescimento em detrimento do crescimento dos países da Europa comunitária, tendo 17 países da Europa comunitária pago o preço mais elevado.
A Alemanha registou espantosos resultados que deslumbram noutros lugares.
O exemplo americano mostra o primeiro dos limites de um crescimento estimulado pelas exportações. A Alemanha penetra apenas no mercado norte-americano já aberto a todos os ventos. A Alemanha não teve nenhum êxito a expandir-se fortemente no mercado sul-americano dinâmico e teve de se contentar com um resultado positivo na América Central. O saldo da balança comercial está ainda para ser considerado de bom.
O exemplo asiático confirma a nossa análise mitigada. Os países asiáticos desempenham um papel crescente nas trocas comerciais da Alemanha, mas este papel não deve ser sobreavaliado. E, sobretudo, a Alemanha permanece deficitária com países agressivos como a China e o Japão. O futuro quanto a esta zona é tudo menos risonho para as exportações europeias.
A análise da situação do comércio alemão leva-nos a formular uma tese. A penetração do comércio alemão nos mercados externos varia na razão inversa do seu dinamismo e da sua dureza. A zona euro é típica de um mercado permeável onde as reformas Schröder actuaram em pleno, sendo a sua eficácia ainda sensível na Europa comunitária fora da zona euro. Ela deixa de ser visível fora deste espaço económico.
O que nos apercebemos na Ásia e na América é que o dinamismo de uma região não é acompanhado por uma penetração ou formação de excedentes comerciais equivalentes por parte da Alemanha. É a razão pela qual a diferença entre o papel dos países europeus e dos países não europeus no crescimento alemão permanece assim tão importante.
Pode interpretar-se o peso sempre determinante da Europa no comércio alemão e a sua fraca penetração nos mercados dinâmicos da América e da Ásia assim: a Alemanha não constitui em nada um modelo de crescimento pelas exportações em que todos os países europeus se deveriam inspirar. Este modelo, com efeito, mostra que as variações dos salários e dos encargos indirectos não produzem nenhum efeito milagroso visível e é por isso que as reformas Schröder foram somente eficazes na Europa e que o seu efeito é pouco perceptível nas trocas com as regiões mais dinâmicas do planeta.
Assim, aplicar este modelo à letra não é só a melhor garantia de mergulhar a Europa numa recessão e na deflação que se lhe segue, ao associar-se a redução das dívidas e dos défices públicos e a moderação salarial, é também propor aos europeus um relançamento da economia pelas exportações que será um impasse a médio prazo. A miragem alemã permite prometer aos europeus uma retoma pelas exportações que justificam sacrifícios que mostrámos já que estão mal correlacionados com as exportações, esforçando-se em encontrar no sector exportador uma eficácia concreta das reformas Schröder.
3. O modelo alemão não é reproduzível
Mas se nos quisermos dar ao trabalho de pensar um pouco, surge rapidamente a ideia de que o modelo alemão não é substituível. As condições do sucesso alemão são específicas para a Alemanha. Querer transpô-las tem, portanto, o risco de erradamente estar a ser induzido pela referência permanente das elites que nos governam — especialmente as francesas — a um modelo alemão mítico de que se retém apenas alguns aspectos bem definidos onde figura em primeiro lugar a redução dos encargos e dos salários assim como os seus efeitos positivos sobre o crescimento.
Este trabalho mostrou que a palavra de ordem: competitividade-exportação-baixa dos custos do trabalho não garante nenhum resultado de sucesso brilhante na Europa e no mundo. Muito pelo contrário. A desinflação competitiva que a Alemanha tem implementado tem resultado no aumento dos desequilíbrios tanto nas trocas comerciais como no crescimento dos países na Europa. Esta não garante as melhorias desejáveis nas exportações nem nos saldos comerciais. Mais importante ainda, ela é insustentável num contexto de euro forte que implica entrar em mercados dinâmicos com um handicap monetário. O modelo alemão aparece de novo como muito pouco generalizável a não ser que se siga um caminho absurdo de relançamento pelas exportações que se constitui já como um impasse quando se medem os sucessos — bem mais limitados do que o que parece — da Alemanha.
No final deste artigo, só posso acrescentar duas notas: a Alemanha tenta uma Sonderweg, se bem que de forma um tanto desajeitada. Não quererá a Alemanha retomar a sua visão de uma hegemonia pós-nacionalista? É possível, mas neste caso a Sonderweg alemã é, em última análise, a expressão de ganância de uma fracção das famílias alemãs ricas ou muito ricas…
4. O poder da Alemanha e a divisão internacional do trabalho
1º A Alemanha combina uma sub-acumulação de capital (taxas e volume de capital acumulado) relativamente à riqueza nacional (valor do PIB) que a Alemanha importa para repartir e ficar com a parte do leão[1]. No caso contrário, a riqueza criada pela Alemanha seria mais baixa devido ao nível de investimento e de stock de capital demasiado fraco.
2° Esta riqueza importada (e não paga) é a consequência exacta da riqueza importada pelos EUA sob a forma de fluxos de mercadorias e do saldo líquido dos capitais financeiros (Entrada-saída de capitais). Mas onde os Americanos consomem em excesso (sobre-consumo) sem se estarem a preocupar em produzir (a sua balança dos pagamentos é deficitária) ou em poupar, os Alemães produzem com a preocupação de aumentar a sua riqueza nacional pela via das trocas desiguais que permitem a sua posição final na cadeia de produção dos valores.
3° O método para aumentar o rendimento das classes mais favorecidas produz efeitos similares (queda da taxa de investimento, base produtiva em contracção relativa) mas há diferenças sensíveis em termos de contas externas. A Alemanha limitando a procura – que deve reduzir-se se o sistema produtivo estiver em contracção relativa – de uma parte dos seus concidadãos (é a célebre moderação salarial) tem de encontrar vias de retransmissão do crescimento fora das suas fronteiras. Vimos que a Alemanha o conseguia em zona mole (Zona Europa, Europa comunitária para lá dos 17, Europa fora da UE, América do Norte e Médio Oriente) e menos bem na zona dinâmica (Ásia e América do Sul) devido à especificidade das suas exportações e à qualidade-preço dos seus produtos. Segue-se que numa tal situação, era indispensável encontrar clientes sempre mais numerosos fora das suas fronteiras. O enriquecimento dos alemães de rendimentos elevados e dos muito ricos supunha por conseguinte a retransmissão do crescimento principalmente na Europa e acessoriamente no resto do mundo como o mostra o delta persistente entre as exportações para a Europa e para o mundo inteiro.
4° É assim que a Alemanha se tornou uma base de produção e de montagem que permite aumentar o volume de produtos exportados e vendidos pela Alemanha, em que uma parte crescente desse valor deve ser vendida para o exterior. Pode-se assim constatar, como o fizemos, que a parte das exportações alemãs no PIB não deixa de crescer. Isto seria impossível com taxas de investimento produtivo a evoluírem em sentido inverso. O balanço é o enriquecimento de uma fracção da população alemã e a existência de desequilíbrios que ameaçam todo o edifício europeu. Estaríamos errados efectivamente se considerássemos esta situação como apenas um efeito do dinamismo da indústria alemã, e com a economia alemã a sofrer de uma sub-acumulação relativa de capital, a não ter o poder, a robustez, que representa o volume do seu comércio externo. Mais o tempo passa, mais esta produz fora das suas fronteiras, mais a Alemanha se enfraquece. Este enfraquecimento é visível na queda na parte de riqueza consagrada ao investimento produtivo e na queda da parte do investimento público.
A Alemanha não construiu um vasto sistema financeiro, as famílias privadas exportam os seus rendimentos para os sistemas financeiros estrangeiros sem esquecer o repatriamento dos juros e dividendos. O sistema produtivo alemão centrado sobre a produção na Mitteleuropa é apenas uma base que permite acumular valor para as camadas de topo na repartição do rendimento e em que estas o exportam para o estrangeiro sob a forma de aplicações financeiras. Em suma, não há necessidade de uma corrida à dimensão dos patrimónios financeiros que permitem captar uma fracção dos rendimentos pela via de formas derivadas dos rendimentos das propriedades das empresas (dividendos) ou das aplicações financeiras (Juros ). É o que explica que o investimento na habitação seja assim muito fraco na Alemanha. Não se trata de uma simples política imobiliária a permitir evitar uma inflação dos preços e dos alugueres imobiliários. Trata-se de uma variável que estrutura o modo de criação e distribuição do rendimento na Alemanha. Uma fraca taxa de investimento no imobiliário permite proteger o nível da procura do (e o escoamento dos produtos alemães sobre o mercado interno), condicionando também a captação pelas camadas superiores de parte crescente de rendimento.
(continua)
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[1] O autor faz aqui referência a um tema hoje banido dos manuais de Economia Internacional: a Troca desigual. Em termos simples, se os preços estivessem correctamente formulados, os produtos alemães que hoje vale 100 euros alemães valeriam 80 euros alemães, por exemplo. Em contrapartida, se os preços estivessem correctos e em euros alemães, o que é importado do exterior em vez de valer 100 euros valeria 120 euros alemães. Simplesmente quer isto dizer que para as mesmas mercadorias importadas ao valor de 100 (valeriam 120 num sistema de preços justamente estabelecido) os alemães teriam de pagar mais 50% do que pagam, teriam de exportar mercadorias avaliadas agora em 120 euros e as anteriormente enviadas são agora avaliadas em apenas 80 euros.
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