OS MEUS DOMINGOS – NA SECA DO ENTRUDO  – por ANDRÉ BRUN

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(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

 

II

Baeta sorriu e começou:

– Imagina tu que, pouco antes de trepar para o meu refúgio, tinha lido nas gazetas um telegrama da América do Norte, anunciando que certo sábio de Além-mar acaba de descobrir um novo sal – o rádio fosfato não sei de quê – que, em matéria de rejuvenescimento, deixa a perder de vista as célebres glândulas de macaco…

– Não me fales nisso, Baeta, se és meu amigo e pretendes que, no dia do teu enterro, eu faça à beira da tua campa um comovido discurso de despedida. Quando li essa do rádio-fosfato fiquei que nem uma fera. Como sabes, as glândulas de macaco tinham uma particularidade: não se podiam enxertar senão nos homens. Só nós da espécie barbada nos podíamos permitir o luxo de, chegados aos setenta e cinco anos, ir a uma floresta africana buscar um chimpanzé de boa família e, depois de efectuarmos com ele, por intermédio dum cirurgião habilitado, a troca dumas miudezas tudo quanto há de mais intersticiais, voltarmos de repente aos nossos vinte e cinco anos. Às mulheres estavam vedadas todas as probabilidades de recomeçar a vida. Envelheciam e, por menos amigas de fazer vontades que fossem, sempre acabavam por falecer exactamente na altura em que nós estávamos tendo trinta e seis anos pela segunda vez e sorvendo os gozos da existência pelo «biberon» da realidade a mais concreta. Vem agora este sábio das dúzias com o seu rádio-fosfato da Silva e a injecção que propõe aplica-se indiferentemente a ambos os sexos. Meu Baeta, sexta-feira passada, antes de eu me esconder debaixo de sete «edredons» e de tu fugires para a tua árvore, estavam no Cais da Desinfecção quinhentas e setenta e nove velhas para embarcar para Nova Iorque. Que nos resta fazer, meu caro? Deixar-nos morrer na flor da idade, com oitenta e cinco primaveras…

– Pois, como te ia dizendo, – continuou o Baeta, que não prestara a mínima atenção às minhas lamentações, – tinha lido o telegrama e, nessa altura, reflectindo no assunto do prolongamento da vida, nas suas vantagens e nos seus inconvenientes, lembrei-me dum médico que conheci outrora e tinha quase chegado a resolver esse grave problema muito antes do enxertador de glândulas e do sábio do rádio-fosfato. Um dia convidou-me a ir visitar a sua casa de saúde e, ao chegar lá, deparei no jardim com cinco ou seis cavalheiros de idade, entregues aos folguedos da mais pura meninice. Um juntava montinhos de areia. Outro rebolava-se no chão, querendo à viva força meter um pé na boca. Um terceiro fazia o que costuma fazer os meninos que não vedam bem. Havia um quarto que se ensaiava a dar pulinhos, gritando: – Apipi! Apopó! Mamã! Papá!

Como eu contemplasse atónito aquele espectáculo, o tal médico meu amigo explicou-me que esses seus clientes estavam experimentando um sistema de rejuvenescimento e dando-se muito bem com ele.

– O que faz principalmente a velhice, – acrescentou o doutor, – é o desgaste do cérebro. Tanto assim que muitas pessoas, à força de darem voltas ao miolo, envelhecem antes de tempo. Eu resolvo o problema substituindo o cérebro gasto dos meus doentes pelo das crianças da mais tenra idade. A cirurgia permite esses enxertos, como sabe…

Fiquei pasmado, como podes calcular, e passado um mês voltei à clínica do meu amigo. Encontrei-o desolado.

– Então os seus «meninos»? – perguntei eu.

– Deixe-me cá. Olhe: o de noventa e quatro anos morreu de sarampo, o general reformado faleceu de tosse convulsa e o juiz do Supremo, esse, quando já lhe estavam a aparecer três dentes, foi-se embora com convulsões a noite passada.

 

18 de Fevereiro de 1923

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Para ler a parte I de “Na Seca do Entrudo”, publicada domingo passado, 15 de Março, em A Viagem dos Argonautas, vá a:

OS MEUS DOMINGOS – NA SECA DO ENTRUDO  – por ANDRÉ BRUN

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