OS MEUS DOMINGOS – NA SECA DO ENTRUDO  – por ANDRÉ BRUN

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(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

 

I

 

Na quarta-feira, tendo finalmente acedido aos rogos da minha família, que, em torno do meu leito, chorava e arrancava o cabelo desesperadamente, resolvi-me a emergir dos sete edredons, debaixo dos quais me escondera para não ouvir os rugidos duma populaça toda entregue aos desvairos carnavalescos.

Encolhi o periscópio, passei a mão pelo ondeado das minhas madeixas e, tendo verificado nos jornais, que nesse dia se não publicam, o fim do Entrudo, vesti-me, almocei-me e, depois de ordenar a um dos fâmulos do meu séquito que se abrissem largas as portas da minha residência senhorial, despedi-me com um gesto sobranceiro das minhas casas militar e civil e saí para a rua, exclamando:

– Vamos à vida!

Gosto da quarta-feira de Cinzas porque nesse dia pode correr-se Lisboa de ponta a ponta que não se encontra sequer o nosso amigo Vivalma. Toda a cidade ficou a dormir. As ruas estão desertas, os armazéns fechados, as repartições ainda têm menos ninguém do que de costume e quem, como eu, seja dotado de um génio melancólico e aprecie a solidão como uma bênção da Providência, está nas suas sete quintas.

Regalava-me, pois, de ir caminhando sozinho pela Avenida abaixo, quando de cima de uma árvore ouvi uma voz chamar-me:

– Pstt! Ó simpático!

De começo não liguei ao facto a mínima importância. Sei de antemão que sou simpático; mas, como sou igualmente modesto, não me impressiona que me chamem de súbito. De resto, nessa ocasião cuidei que seria algum papagaio fugido, pousado numa ramaria e continuasse a repetir uma frase familiar.

Mas a voz insistiu, chamou-me pelos meus nomes, sobrenomes e apelidos e não tive remédio senão olhar para cima. Calculem a minha surpresa ao deparar com o melhor amigo da minha infância, o Procópio Baeta em resumo.

Não o via desde que ele ingressara há anos na Penitenciária, a fim de fazer esquecer na paz do claustro certos pecados da sua mocidade aventurosa.

– Que é feito, ó Baeta? – indaguei eu.

– Já acabou o Carnaval? – perguntou ele.

– Já. Podes descer. Estamos sós. O resto da população está ressonando sobre as ruínas da sua sensaboria.

Baeta deixou-se escorregar pelo tronco duma das «cor de mosto vesperais olaias», como dizia Eugénio de Castro noutro tempo falando das árvores da Avenida, e caiu-me nos braços.

– Até que enfim terminou esta inferneira, – explicou-me ele. – Fugi lá para cima sábado passado e, ao passo que a meus pés uma multidão hidrófoba e malcriadíssima esbravejava cometendo toda a espécie de brutalidades e dizendo toda a casta de inconveniências, estive ali entretido a discutir comigo mesmo vários problemas sociais e morais. Ainda bem que te encontro, porque vou ter enfim alguém inteligente, muito inteligente mesmo, com quem desabafe e a quem confie o produto das minhas reflexões…

– Fala, Baeta. – concordei eu. – É-me grato o convívio dos filósofos experientes e adivinho no teu olhar arguto e na tua fronte cavada de rugas, que Allah, o Grande, fez germinar no teu cérebro a flor da suprema sabedoria. Tens a palavra. Deixa-me ouvir a tua voz doce como o murmúrio das fontes e harmoniosa como a harpa fenícia tangida por uma virgem ao luar.

18 de Fevereiro de 1923

 

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