É verdade, caro amigo, vão começar as férias da Páscoa. Houve uma altura em que eu já não sabia o que eram férias. Sei que as pessoas que trabalham muito e não têm tempo para descansar é que costumam usar essa expressão. Não era efectivamente o meu caso. Mas é que durante uns anos fui pouquíssimo à faculdade, de tal modo que a D. Suzete Baião me chegou a avisar uma vez que se continuasse assim, poderia chegar o dia em que a secretaria me recusava a inscrição. A verdade é que eu ou ficava em casa, sentado ou deitado no meu quarto a olhar para o tecto, ou dava longos passeios por Lisboa. Nesse tempo a Heloísa ainda trabalhava e nunca vinha para casa antes das seis e meia, sete horas da tarde. Muito cansada, sempre. Sentava-se, via um pouco de televisão, e ia para a cozinha. Nunca me perguntava como me tinha corrido o dia. Foi nessa altura que comecei a passar pela pensão da D. Generosa. Chegava a passar lá a tarde, à conversa com as raparigas, ou mesmo com a patroa, quando não estava nenhuma disponível. Só quando encontrei a Natália é que interrompi as minhas “visitas” à pensão da Travessa Estreita, como lhe chamam, porque a rua é ali muito apertada. Confesso-lhe, muito aqui entre nós, que mesmo nesse período ainda lá passei algumas vezes, depois de a minha namorada ir para casa. A Natália nunca soube disso. Nunca lhe contei. Porque o faria?
Já me perguntou como é que, sendo a D. Generosa irmã da D. Henriqueta, tão amiga da minha mãe e nossa vizinha do andar de cima, nunca chegaram aos ouvidos da Heloísa rumores sobre as minhas visitas à Travessa Estreita. Sabe o que lhe digo? Acho que realmente as pessoas têm mais que fazer do que andarem a falar da vida umas das outras. Diz-me que, de facto, fazem isso muitas vezes. Acredito plenamente no que diz, porque sei perfeitamente que o meu amigo tem uma grande preparação e muitos conhecimentos. Senão, não me conseguia ajudar tanto. Mas o facto é que a Heloísa nunca deu sinal de estar ao corrente das minhas aventuras, como lhe chama. E porque é que as amigas lhe iriam contar coisas a meu respeito? Confesso que ficaria muito incomodado com que essa situação. E já lhe contei a perturbação que senti quando descobri que a Maria Antónia vinha trabalhar para casa da D. Henriqueta. Mas tem corrido tudo bem, como lhe tenho dito. E tem sido muito bom, ter aqui a Maria Antónia… Ela troça de mim às vezes, é verdade, mas aprecia muito as minhas “visitas”, pode crer.
Mas deixe-me voltar ao presente, que é nele que vivemos. Imagine que a Maria da Luz veio cá a casa jantar novamente, ontem, sábado, e passou aqui o serão, a ver a telenovela com a Heloísa, e comigo também, claro. Foi magnífico, talvez ainda mais que das outras vezes que ela cá veio. A minha mãe cozinhou um frango com espaguete, com uns molhos e uns temperos que não lhe digo nada. Comi que nem um abade. E calcule que a Luzinha trouxe uma garrafa de vinho! Diz que a tinha trazido em tempo de casa dos pais. Que jantarada! Ah, meu amigo comi tão bem. Desde que ando com a Maria da Luz, trabalho bastante, é verdade, mas como tenho engordado. Pudera, ando a comer cada vez melhor em casa, e em casa da minha amiga. Qualquer dia tenho que começar a fazer dieta. Não sabe o que perde, meu amigo, ao teimar em não vir cá a casa.
Imagine que, depois de levantarmos a mesa, se puseram as duas a ver a nova telenovela. Afinal não tem nada com cardeais, mas sim com um problema de rivalidades. E assim chama-se A Sombra do Rival. Imagine um rapaz que encontra uma rapariga (as telenovelas têm sempre esta parte, não é?) e começam a dar-se bem. Tudo no melhor dos mundos possíveis. O problema surge uma noite, em que ela lhe conta a história de um namoro que teve em tempos. Conta-lhe a história com grandes pormenores. Quer que ele saiba que ela não lhe esconde nada. O rapaz apanha um complexo, porque o outro seria um indivíduo cheio de predicados. Ela contou aquilo tudo apenas por boa intenção, e ele percebe, mas fica um bocado inseguro. Começa a ver problemas em tudo na relação entre os dois, e a achar que anda a falhar. No episódio que vimos no sábado a coisa estava a azedar. A Heloísa e a Maria da Luz ficaram ambas muito incomodadas. Eu achei aquilo uma tolice, mas não quis dizer nada.