EDITORIAL – Faz hoje cem anos…

logo editorialNo dia 24 de Março de 1915 que notícias faziam as primeiras páginas da imprensa diária? Sabemos que nem sempre a comunicação social espelha as principais preocupações, os assuntos que mais interessam à chamada opinião pública, mas não existe outro registo mais credível para podermos avaliar o que pensavam os portugueses há exactamente um século. Não pensavam todos da mesma maneira (tal como acontece hoje) e muitos nem sequer tinham acesso a uma informação que lhes permitisse reflectir sobre os problemas mais ingentes.

Com uma elevada taxa de analfabetismo e sem os meios que de que hoje dispomos, o jornal, o telégrafo e uma incipiente rede telefónica constituíam a infraestrutura da informação. Fora das duas maiores cidades do país, deparava-se por vezes com a notícia de que viajantes, vindos por caminho de ferro de Lisboa ou do Porto, traziam as novas às cidades servidas pela rede ferroviária. Novas por certo filtradas pela opinião pessoal de cada um desses ilustres passageiros. No chamado «país profundo», vilas e aldeias viviam à margem do mundo, mergulhadas no letargo de rotinas que pouco diferiam das que pautavam a vida real na Idade Média. Não raro, a realidade era aquela que o pároco local quisesse que fosse. Desde 1910, os homens de saias tinham a concorrência dos caciques republicanos. Diga-se que, cem anos depois, com índices de analfabetismo residuais e a iliteracia reduzida a proporções razoáveis, com imprensa formalmente livre e com estações de rádio nas mais remotas povoações, com uma panóplia de centenas de canais televisivos, os curas de aldeia manterão alguma influência e os caciques partidários e sindicais têm também um papel activo na formatação da “opinião pública”. Os jornais de hoje, 24 de Março de 2015, reflectem com rigor o que preocupa os cidadãos? Não estamos seguros de que assim seja. Mas adiante.

A fazer fé nas notícias dominantes desse domingo, dia 24 de Março de 1915, o principal tema centrava-se na guerra que desde o Agosto anterior lavrava na Europa e em África. “Guerristas” e “anti-guerristas” digladiavam-se, os primeiros argumentando com a necessidade de defender o património colonial das arremetidas germânicas e os segundos, alguns deles, germanófilos ou conotados com posições pró-germânicas. A revista “Orpheu” foi lançada nesse domingo de Primavera, dia 24 de Março de 1915. Mas isso não era, fora dos círculos intelectuais, notícia importante. E no entanto, cem anos depois é a notícia que releva no meio da selva densa de caracteres que fizeram a actualidade dessa data.

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