A GALIZA COMO TAREFA – Nacionalismos – Ernesto V. Souza

Após uma primeira fase francesa, racionalista e revolucionária, que pretendeu transplantar nos Reinos os princípios de nação e cidadania, entrou em jogo, nas primeiras décadas do século XIX, uma dinâmica constitutiva pós revolucionária, liberal e pragmática que fixava os Estados possíveis em função de interesses políticos, económicos e territoriais do momento. Depois matizada pelos interesses econômicos e geoestratégicos das grandes potências (Inglaterra e França) já constituídas e em vias de se constituir em Potências Imperiais.

nacionalismo-300x171A meados do século XIX, por reação a essa construção necessária da identidade, que por imitação do modelo francês, exigia uma unificação da identidade, uma capital e uma centralização não apenas administrativa quanto modélica, e em não poucos casos como efeito da reação de elites e interesse locais às dinâmicas centro periferia, o nacionalismo sofreu uma evolução que o distanciaria dos seus antigos postulados, postergando critérios políticos vindos do mundo industrial como o principio de umbral (Smith, Hobsbawm, Gelner) – próprio do liberalismo – para adotar nas asas das novas ideologias e estéticas emergentes do romantismo e nacionalismo, como critérios centrais a língua e a etnicidade (folclore, particularismo), o que significou uma multiplicação das nacionalidades possíveis ou reivindicadas.

Entre 1820 e 1875, ficaram conformados, num jogo duplo entre interesses locais e internacionais, a maior parte dos estados europeus. Nessa fase, em que Alemanha e Itália são conformados e permitidos como estados conglomerados e mercados centrais e interessantes para Inglaterra e França respectivamente, e outros estados mínimos (Suiça, Países baixos, Luxemburgo) resultam relevantes na sua função de barreiras entre outros espaços estaduais expansivos que alterariam os frágeis equilíbrios europeus desenhados no Congresso de Viena, após o terramoto da Era napoleónica.

Nessa mesma fase, Espanha e Portugal, ainda são uma hipótese, não fechada como estados.No espaço interno e internacional debate-se intensamente a respeito dos prós e contra de uma unificação Ibérica. Condenados à perda dos seus impérios americanos e habilmente afastados deles e entre eles por uma Inglaterra empenhada em ser o árbitro do mundo em defesa dos seus interesses comerciais e marítimos, num cenário de lógica territorial o iberismo numa Espanha quase já sem colônias e num Portugal que disputa o Brasil os territórios africanos, tem importantes valedores.

Provavelmente será por causa dos interesses britânicos, que compreenderam pronto que uma união ibérica implicava a construção de um Estado geográfica e estrategicamente Atlântico, que lhe fechava de novo o mar e o retrotraia aos tempos isabelinos, quanto que um Brasil emergente com aquelas colônias da África criava um outro espaço econômico sur-atlântico de inimagináveis consequências.

Em 1880, a era das unificações nacionais parecía passada e novas unificações creariam problemas internacionais. Como destaca Hobsbawm, a partir de 1871 não se esperavam grandes mudanças no mapa da Europa, salvo no Império Otomano.

Em 1883 os Federalistas galegos ainda falam na Confederação Ibérica com a integração de Portugal, envolvida já nas brétemas da saudade. O Nacionalismo espanhol de forte base iberista ainda sonha com integrar Portugal, para Canovas ainda será uma possibilidade até 1884.veja

Nessa década de 80-90, na Espanha (intensamente após a reação conservadora contra a construção falida da I República) e em Portugal, o iberismo (que para Vazquez Cuesta ou Teófilo Braga, deixa de ser possibilidade para ficar num componente discursivo anti-británico, ecoando forte após o Ultimatum) é progressivamente substituído por um nacionalismo intenso, focado na fixação da Identidade nacional e no colonialismo (Africanismo), como manifestação do espírito de Grandes potências que invade a Europa e do que emerge o racismo científico e a lingüística.

Se na Espanha o federalismo é substituído pelo colonialismo e após a perca de Cuba, centra-se na expansão pelo no Norte da África, em Portugal, com um espaço colonial africano muito mais próximo, consolidado (e disputado pela expansão das grandes potências) o Nacionalismo emergente terá um claro componente anti-ibérico, resgatando mitologias históricas anti-castelhanas.

As circunstáncias internacionais favoreceram nacionalismos como o português e o espanhol. O Iberismo passou progressivamente (salvo na Galiza) a ficar nostálgico, no âmbito ideológico do republicanismo, com a maçonaria e o federalismo.

O nacionalismo espanhol e português é pois serôdio mas muito intenso. Se em Portugal, tomará as formas de saudade, fronteirização com Espanha e colonialismo imperial; na Espanha, fortemente construído desde o Estado na Restauração Canovista, será continuadamente combatido pelas elites locais, sendo significativamente interessante pela existência e conformação de nacionalismo paralelos, dotados de língua e de próprias dinâmicas, na Galiza, Catalunha e País Basco, em processos que eclodirão como em toda a Europa arredor da Grande Guerra.

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