O velho actor chegava sempre ao teatro duas horas antes do início do espectáculo, quando a cortina de boca ainda estava aberta.
Começava por se sentar na plateia numa das filas do meio da sala, primeiro à direita, depois à esquerda e aí se deixava ficar dez minutos de cada lado, olhos fixos no palco, o que levou um dia, há já muitos anos, a que o senhor Manuel, o arrumador, hoje tão velho como ele, lhe perguntasse o porquê de primeiro à direita e depois à esquerda, ao que o velho actor tinha então respondido que não sabia o porquê, apenas sabia que era assim.
Depois levantava-se e percorria o teatro de alto a baixo cumprimentando os poucos trabalhadores que não tinham sido dispensados, dois técnicos, dois arrumadores, um bilheteiro a quem perguntava inevitavelmente, João como está isto hoje, recebendo como resposta um simples fraco, duas mulheres de limpeza, o empregado do bar, com quem trocava dois dedos de conversa e onde tomava um cálice de Porto e a todos tratava pelo seu nome e desejava um bom espectáculo.
Só então descia para o seu camarim, que ficava no sub-palco, onde se recolhia durante uma boa meia hora, se vestia e se maquilhava sozinho, que o seu camareiro de sempre,o Joaquim, também fora dispensado e de onde saía já pronto para cena.
Era então que subia aos bastidores e cumprimentava o contra-regra e o seu único ajudante, aos dois tratando da mesma forma pelo próprio nome e entrava pela direita alta no palco, nessa altura já de cortina de boca fechada. Percorria todo o espaço da cena em passos firmes, embora lentos e suaves, como se pisasse uma pele delicada que não queria magoar, indoda direita alta para a direita baixa e depois para a esquerda baixa e para a esquerda alta, retornando finalmente à direita alta. De seguida, dava a volta aos bastidores, tocando ao de leve nas cordas da teia, nos telões dependurados, aqueles que as suas mãos alcançavam e pegando em cada um dos adereços que iria utilizar, se os houvesse, e que o contra-regra já mandara dispor segundo a ordem certa que ele velho actor determinara, na pequena mesa escondida por detrás da perna mais próxima da boca de cena do lado direito.
Então sentava-se exactamente a meio do palco numa cadeira de braços, de balanço, que o ajudante do contra-regra aí punha e nela se deixava ficar até que ouvia o ruído da entrada dos primeiros espectadores na sala. Corpo relaxado, olhos fechados, balançando-se numa longa letargia, durante a qual talvez dormitasse, nem ele nem o contra-regra o sabiam verdadeiramente, embora Manuel o arrumador estivesse certo disso e o garantisse aos espectadores, era esse dizia ele o segredo daquele velho actor, uma letargia em que corpo e alma do actor e da sua personagem se interligavam e se fundiam com o espaço em que o espectáculo iria decorrer.
Percorria em pensamento o texto da sua personagem, material sagrado que respeitava escrupulosamente e por vezes pequenas partes dos textos de algumas das outras personagens, visualizava a sua movimentação ao longo do espectáculo, os cenários, a posição dos projectores e as suas intensidades e mais que tudo procurava arduamente o que nessa noite faria de diferente, um pequeno pormenor aqui, outro ali, uma entrada retardada ou adiantada, de que só ele se inteiraria, talvez o contra-regra desse por isso e no final fizesse um comentário elogioso, pormenores que ao fim de uma centena de representações ajudariam a que a sua interpretação não fosse mecânica, ensinamento que retivera de um dos seus mestres e que ele inscrevera e sabia fazer parte da essência do trabalho do actor.
Nessa noite, como nos últimos quatro meses, iria ser D. Quixote de la Mancha, único actor no palco, que a solidão alarga a dimensão da personagem e da sua utopia tão necessária nos tempos indignos que se vivem, palavras do encenador que o convidara e que ele fizera suas, encenador que acrescentara,terás apenas por companhia a imagem de Dulcineia del Toboso e o velho Rocinante.
Fizera a personagem em novo e voltava a fazê-la, trinta anos passados.
Um D. Quixote agora marcado pelos anos, mas ainda cheio de energia, capaz de amar a sua Dulcineia, capaz de continuar a lutar contra todos os moinhos e de se bater incessantemente por todas as utopias, embora do cabelo preto, outrora abundante, apenas restassem uns fiapos brancos e ralos na nuca, em contraponto com a barba em bico, forte e grisalha e o bigode de pontas reviradas, que com a ajuda de sabão azul e branco se mantinham todo o espectáculo iguais ao que ele ao espelho do camarim compusera.
O figurino recuperara-o do que usara há trinta anos, uma magnífica criação de um grande figurinista seu amigo, já falecido, a base feita de malhas rotas, pretas, coberta de restos de redes metálicas, de pedaços de cartão prensado pintados de prateado e de dourado, tudo ligado por bocados de tiras de cabedal de diversas espessuras e cores, tudo como que prestes a desfazer-se e a reforçar assim a decadência e a impotência da personagem. Na mão direita a enorme lança de madeira negra, a mesma que usara e que encontrara guardada num monte de adereços arrumados no sub-palco, só que agora com a mão protegida por um gigantesco copo feito de um funil de plásticocastanho-escuro, perdão meu grande amigo, mas o funil de latão da antiga lança sempre me magoou a mão e os ossos já estão gastos e não aguentam a dor como outrora.
Encostou a lança à parte de trás da cadeira e sentou-se sob a luz fria e difusa do panelão de iluminação do palco e sob o olhar atento do contra-regra, que quando viu o seu percurso habitual pelo palco lhe achou o andar mais pesado, menos alegre do que habitualmente, talvez o velho actor estivesse cansado e por isso lhe disse, não que o espectáculo tivesse sido especialmente melhor do que os anteriores,
– Grande espectáculo o de ontem, pena tão pouco público, perderam uma noite rara.
– Obrigado, João Luís, obrigado pela tua condescendência.
Fechou os olhos e deixou que o corpo se fosse relaxando ao balanço da cadeira e fundindo com o palco e com tudo o que dele faz parte, como se ele o velho actor mais não fosse do que a tábua do meio daquela última quartelada da esquerda baixa, ou do que aquela corda, a curta, do telão do fundo com os três moinhos gigantes, ou mesmo do que a pequeníssima lâmpada vermelha da luz de serviço de acesso à teia.
Passou o texto febrilmente ao contrário do que era seu costume numa ânsia que o surpreendeu de chegar à parte mais desejada daquele caminho, a procura dos momentos especiais da representação de hoje, aqueles que seriam únicos, irrepetíveis e dos quais só ele se aperceberia.
Num estremecimento, que o contra-regra notou, decidiu o que faria, o que iriam ser e como iriam ser esses momentos, iria trabalhar apenas sobre a energia, esta noite amaria Dulcineia como nunca amara, olharia os seus olhoscom uma intensidade como nunca olhara, cavalgaria o seu Rocinante comuma leveza como nunca cavalgara, combateria contra os moinhos com uma destreza como nunca combatera, esta noite seria assim.
Decidido procurou com os seus os lindos olhos azul cinzento da sua amada, para lhes transmitir a intensidade única do seu amor, da sua entrega, a entrega de quem nada quer da sua amada, apenas que ela saiba que por ele é imensamente amada e o será para sempre e nessa procura insistiu uma e outra vez sem que aos lindos olhos chegasse, que em seu lugar estavam uns olhos vítreos sem cor e sem alma, dos quais as lágrimas desciam e caíam sobre o branco colo, quais pequenas gotas de água a cair de um telheiro passada que foi a intensa chuvada. Novamente lhe estremeceu o corpo, estremecimento que mais uma vez não passou despercebido ao contra-regra que disse ao seu ajudante, olha deve estar a sonhar com a sua Dulcineia.
Chamou então o Rocinante com o seu assobio de sempre mas o cavalo não veio para que ele o montasse, ou porque partira para terras distantes por sua própria iniciativa, ou porque talvez não o tivesse ouvidoque o assobio não fora tão forte como era costume,ou mais certamente porque não teve forças para dele se aproximar, fraco que está da falta de erva,que nos pastos já não existe ou tão rala é que mesmo boca de cavalo, que a erva consegue arrancar até à raiz, já nada deles consegue tirar e para o feno não há moedas na sua algibeira e ao contra-regra lhe pareceu que o actor no seu sonho qualquer coisa procurava no bolso esquerdo.
Numa grande agitação, visível até para o ajudante do contra-regra, subiu a colina a pé e de lança em riste na mão direita enfrentou apeado os três moinhos que no cume ficavam, branco o da esquerda, castanho o do centro, negro o da direita e aos três gritou que em guarda se pusessem que ele, apesar de velho e gasto, em três gestos os derrotaria e os tornaria em pó, já que esse era o destino que aos monstros os Deuses reservavam. E isto dito e estando os monstros em guarda, disso ele se assegurou, embora notasse que as velas estavam paradas não por falta de vento que ele bem sentia os ralos cabelos da nuca a esvoaçarem, avançou sobre o moinho branco no qual a ponta da lança se quebrou e depois sobre o castanho da luta contra o qual restou meia lança e finalmente sobre o preto ficando então apenas com o punho e o copo da lança na mão.
Na cadeira o corpo do actor após um último estremecimento sossegou e também isso, estremecimento e sossego, o contra-regra observou.
Foi então que no palco se ouviu o burburinho dos primeiros espectadores a entrar na sala, momento em que o velho actor se levantaria da sua cadeira, que o ajudante do contra-regra retirava de cena e guardava no bastidor, e se colocaria entre as duas pernas do meio do lado direito até que todos os espectadores entrassem e se sentassem e então o contra-regra batesse com o bastão no palco as sete mais três pancadas de Molière e em seguida o palco se enchesse de nevoeiro, a luz dos projectores subisse, a cortina se abrisse e no meio da névoa D. Quixote fizesse a sua triunfal entrada em cena.
Mas o velho actor não se levantou da sua cadeira, nem sequer se mexeu, o que fez com que o contra-regra dissesse ao ajudante que fosse com muito cuidado acordar o actor o que o ajudante fez sem resultado e por isso fez sinal ao contra-regra que se aproximou e perguntou suavemente ao actor se ele tinha adormecido sem que obtivesse resposta, o que levou o contra-regra a chamar ao palco o director do teatro e os três, director, contra-regra e ajudante, confirmaram, pela ausência de embaciamento do pequeno espelho pendurado no bastidor direito e que levaram até à boca do actor,a morte do velho actor.
Então o contra-regra, por indicação do director, disse ao microfone, para os poucos espectadores que se encontravam na sala,
– Senhores espectadores lamentamos informar que o nosso actor se encontra doente, muito doente, pelo que nos vimos obrigados a cancelar o espectáculo. Pedimos o favor de se dirigirem à bilheteira onde o dinheiro dos bilhetes vos será devolvido. Obrigado.