EDITORIAL – BOM DIA DO TEATRO!

logo editorial«O Dia Mundial do Teatro  foi criado em 1961 pelo International Theatre Institute (ITI), organização não governamental, fundada em Praga em 1948 pela UNESCO, e é celebrado todos o anos a 27 de Março, pelos centros nacionais do Instituto Internacional do Teatro e pela comunidade teatral internacional. São organizadas numerosas manifestações teatrais nesta ocasião, sendo uma das mais importantes, a difusão da mensagem internacional, tradicionalmente redigida por uma personalidade do Teatro, de renome mundial, a convite do ITI».

Esta é a informação que, mais palavra, menos palavra, podemos colher em qualquer entrada enciclopédica. Nós, neste blogue, não gostamos dos Dias que a UNESCO cria a torto e a direito – uma afirmação que de forma recorrente temos vindo a fazer – não gostamos desta forma de exorcismar os fantasmas da má consciência – o Dia Mundial da Mulher não desculpa a violência doméstica o Dia Mundial do Teatro não compensa nem atenua o desprezo a que o Teatro, expressão mais nobre da cultura dos povos, é votado, particularmente em democracias onde, como em Portugal, impera uma oligarquia que encontrou na “democracia representiva” e formal uma forma limpa, assépica, de prolongar as injustiças sociais que existiam no regime derrubado em 1974.

Temos na nossa frente um documento datado de Março de 1964 e assinado por Luiz Francisco Rebello, assinalando a realização em Portugal do I Dia do Teatro Amador, em circunstâncias que, diz Rebello, «não hesito em considerar das mais dramáticas e difíceis da acidentada existência do Teatro Português». Referia-se o reputado homem de Teatro à situação vivida num quadro histórico de ditadura – de repressão  exercida em todos os planos – do político ao económico. Num período florescente da criatividade dramatúrgica, o Teatro asfixiava. A abundância de textos disponíveis é evidente: O render dos heróis (1960), de José Cardoso Pires; Felizmente há luar! (1961), de Luís de Sttau Monteiro; Bocage (1965), de Romeu Correia; O judeu (1966), de Bernardo Santareno; Bocage alma sem mundo (1967), de Luzia Maria Martins; A outra morte de Inês (1968), de Fernando Luso Soares; Quem move as árvores (1970), de Fiama Pais Brandão; Antonio Vieira (1973), de Fernando Luso Soares; Legenda do cidadão Miguel Lino (1973), de Miguel Franco. E a de companhias e grupos de Teatro, não menos importante: Teatro Moderno de Lisboa (TML, 1961), Teatro Estúdio de Lisboa (TEL, 1964), Teatro do Instituto Superior Técnico (IS T, 1964), Grupo 4 (1967), Teatro Experimental de Cascais (TEC , 1965). E outros que vinham de um pasado recente:  Experimental do Porto (TEP, 1952, tornando-se profissional em 1957), Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CI TAC , 1956), Cénico de Direito (Teatro da Associação Académica da Faculdade de Direito, 1954). Etc.

Cinco décadas depois, já sem censores, estamos nas mãos de imbecis manhosos e corruptos – soi disant pragmáticos –  aquilo a que chamam “pragmatismo” mais não é do que a submissão rafeira a uma realidade que “pragmaticament” eles vão tornando pior de dia para dia.  É a forma de nos levar a aceitar o inaceitável – como a recusa de subsidiar grupos de Teatro, enquanto do erário público saem ajudas a “fundações” de duvidosa origem e de objectivos ainda mais duvidosos.  Claro que isto não se passa apenas com o Teatro.

Não, Amigos – não é com Dias que um problema de anos, décadas, se resolve. Em todo o caso: Bom Dia do Teatro!

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