DIA DO TEATRO – “Falando de Teatro”- por Rachel Gutiérrez

O mundo do teatro é umImagem1 mundo mágico por excelência. Até as palavras que designam o ato de representar têm seu próprio encanto em cada língua: nós dizemos representar e atuar; em italiano diz-se recitare, (recitar); em inglês e em francês é um pouco como brincar: to play, jouer… e ensaio é répétition (repetição): como as histórias infantis, é preciso repeti-las muito para aprendê-las de cor – com o coração.  De tempos em tempos dizem que o teatro vai morrer, que o cinema o teria superado, ou que as novelas de televisão teriam ocupado o seu lugar. Nada, porém, substituirá jamais “as tábuas”, o palco italiano ou a arena com a presença viva dos atores, seus movimentos, sua expressão corporal, seus gestos, suas vozes e tudo que acontece ali, tão perto, diante de nós. Sem efeitos especiais, sem muitos truques além da mágica transfiguração, a encarnação dos personagens pelos atores que revivem em cada espetáculo os dramas ou as comédias deste nosso mundo de conflitos, de paixões, de superações ou de tragédias.

Hoje em dia, muitas vezes é uma campainha que anuncia que as luzes da plateia serão apagadas para que a cortina seja aberta e o espetáculo comece. Prefiro as antigas batidas no tablado, seguidas pelos três toques solenes, que haverão de evocar sempre os meus primeiros deslumbramentos.

Imagem3Na minha infância e adolescência, na pequena cidade da fronteira do Rio Grande do Sul, tive a oportunidade de ver encenadas algumas peças maravilhosas como Deus Lhe Pague, de Joracy Camargo, com o grande Procópio Ferreira e As mãos de Eurídice, um monólogo brilhante de Pedro Bloch, com o ator que viajou o Brasil inteiro: Rodolfo Mayer. E vi Maria Della Costa em A Prostituta Respeitosa, de Jean-Paul Sartre, no Cine Teatro Colombo, que ficava em frente à minha casa. Naquele mesmo palco, começou sua carreira meu grande amigo Hélio Ary, que se tornaria conhecido muitos anos mais tarde, em programas cômicos de Jô Soares, na televisão. Depois, quando estudei em Porto Alegre, vi espetáculos memoráveis da Companhia de Dulcina de Morais. E o título de uma peça protagonizada pela mãe da atriz, a grande Conchita de Morais, ressoa ainda em minha memória com toda a sua carga poética: As árvores morrem de pé, de Alejandro Casona. É deste também outro belo título de um drama que apenas li: Prohibido suicidarse en Primavera. Naquela época, vi muitas peças de Ibsen: A Dama do Mar, Solness, o Construtor, Os Espectros, e me encantei com a vanguardista Casa de Bonecas, talvez a primeira peça feminista, que o mago norueguês escrevera em 1875!

Ainda em Porto Alegre, acompanhei de perto os ensaios e a inesquecível encenação da comovente Nossa Cidade, de Thornton Wilder, que o diretor carioca Carlos Murtinho foi lá montar. Espantou-me a ousadia do palco vazio, onde a simples mudança de posição de quatro cadeiras conseguia convencer-nos de que havia ali duas casas vizinhas, suas portas, suas janelas, e no meio, o jardim onde tudo acontecia. E também a igreja. Por fim, até mesmo o túmulo da jovem heroína, no cemitério. É extraordinário o poder de convencimento que adquirem o espaço teatral e seus atores.

No Rio, muito tempo depois, foi maravilhoso ver a bela Tonia Carrero em Um deus dormiu lá em casa, de Guilherme Figueiredo, cujo irmão, João Figueiredo viria a ser, anos mais tarde, o último presidente do período de chumbo da Ditadura Militar. Foi nessa época que nosso teatro chegou a ser heroico: seu repertório abarcava, além de peças clássicas do teatro grego, para despistar a Censura, textos ousados de Oduvaldo Vianna Filho, como Rasga Coração, ou Um grito parado no ar, de Gianfrancesco Guarnieri. Sim, o teatro brasileiro soube resistir galhardamente durante os anos difíceis do regime ditatorial.

Anos mais tarde, em certa ocasião, em Londres, tive a felicidade de assistir a comédia de J.M. Barrie, The admirable Crichton, com o inesquecível Rex Harrison, numa récita em que por acaso encontrava-se num camarote, a Rainha Mãe (de Elizabeth II), o que deixou todo o público alvoroçadíssimo, é claro. E em Dublin, pude ver, na terceira fila do Abbey Theatre, fundado por ninguém menos do que W.B.Yeats, a fantástica Pigmalion, de George Bernard Shaw.

 Continuaria a falar interminavelmente nas minhas alegrias como espectadora de espetáculos, e até mesmo no simples prazer de ouvir a voz de um Gérard Philipe dizendo, por exemplo, Le Bateau Ivre, de Rimbaud, ou a de John Gielgud, dizendo trechos de Shakespeare, ou a de Victorio Gassmann dizendo Dante Alighieri e, mais recentemente Roberto Benigni também dizendo Dante. Admiro e respeito muito o trabalho dos atores: as horas e horas de exercícios e ensaios, o cultivo da voz, as aulas de canto, de ginástica e de esgrima, o esforço e a dedicação que às vezes levam a virtuosismos técnicos que ninguém imagina. Meu amigo Hélio Ary me contou, por exemplo, que para uma cena do Jardim das Cerejeiras, de Tchekov, aprendeu a derramar uma lágrima só com o olho direito porque esse é que era visto pelo público naquele momento em que precisava chorar.

E acontecem coisas engraçadas: na noite da leitura dramatizada de minha peça Palavra de Mulher, que fizemos para o público da Casa da Gávea, no Rio, minha amiga Maria Esmeralda Forte, a atriz que leu o papel da carnavalesca Eneida, conhecida jornalista comunista, devia cantarolar num dado momento a Internacional, mas enganou-se e cantarolou a Marselhesa. Assustada, explicou para o público: – Não era isso que eu queria cantar, era a Internacional!. O “caco” soou tão espontâneo e simpático que fiz questão de acrescentá-lo ao texto quando publiquei a peça em livro.

Antes de encerrar esta conversa já tão longa, quero mencionar ainda o caráter coletivo do teatro. Porque às vezes esquecemos que também são importantes, aliás, indispensáveis, todos os técnicos e os que trabalham como contra regra, cenaristas, iluminadores, figurinistas, carpinteiros, porteiros, bilheteiros, faxineiros, sem esquecermos, é claro, as incansáveis camareiras, cujo “papel” foi homenageado por uma autora francesa, de quem agora, infelizmente, me escapa o nome. Na última cena, que se desenrola nos camarins de um velho teatro, não tendo mais mãos para segurar tantas roupas e adereços que precisa guardar, a camareira coloca a coroa da personagem que faz a rainha do espetáculo na própria cabeça.

 

 

 

2 Comments

  1. O Teatro, do qual estou um bocado afastado nos últimos anos, fez parte da minha vida na adolescência. Estudava num Colégio, administrado por Padres, como a maior parte naquela altura, e fiz, durante o tempo que por lá andei, quase três anos, parte do grupo de teatro. A primeira peça em que entrei, foi o Auto da Senhora da Aparecida, e eu tinha quatorze anos.
    Depois de sair do Colégio, e durante alguns anos, frequentei grupos de teatro amador, mas nunca como actor. A minha qualidade não era suficiente para fazer parte e elencos com uma qualidade acima da média. Limitei-me a fazer algumas fotografias que infelizmente perdi. Depois, com o tempo, a minha vontade foi esmorecendo até acabar rendido ao cinema. Hoje, quase não vejo, a não ser musicais.
    Gostaria de voltar a, pontualmente, fotografar ensaios de peças de teatro, dança, óperas, etc
    Quem sabe, um dia!

    Adorei o seu texto

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