Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte II – A escrita manual e o desenvolvimento intelectual. Escrever é pensar, e pensar é o caminho para agir.
Escrever e ler são recíprocos. Ambos são necessários para que as crianças se tornem leitores e escritores fluentes
Autora anónima do sítio Learning for Life da plataforma Medium
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Nota de editor:
A ordem que se segue nesta Parte II respeita a progressão de dificuldade estabelecida pelo autor da série — N1, N2, N3 — com uma sequência interna a cada grupo pensada para maximizar a coerência de leitura: dos conceitos mais gerais para os mais específicos dentro de cada nível. O presente texto enquadra-se no Nível 2.
FT
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
5 min de leitura
Texto 10 – O Que Se Perde com o Declínio da Escrita à Mão
Publicado por
em 2 de junho de 2014 (original aqui)

É importante a escrita à mão?
Não muito, segundo muitos educadores. Os padrões comuns, adotados na maioria dos estados americanos, determinam o ensino da escrita legível, mas apenas no jardim de infância e no primeiro ano. Depois disso, a ênfase rapidamente se volta para a proficiência no teclado.
Mas psicólogos e neurocientistas dizem que é cedo demais para declarar a escrita à mão uma relíquia do passado. Novos dados sugerem que os vínculos entre a escrita à mão e o desenvolvimento educativo mais amplo são profundos.
As crianças não apenas aprendem a ler mais rapidamente quando primeiro aprendem a escrever à mão, como também permanecem mais capazes de gerar ideias e reter informações. Por outras palavras, não é só o que escrevemos que importa — mas também como escrevemos.
“Quando escrevemos, um circuito neural único é ativado automaticamente“, disse Stanislas Dehaene, psicólogo do Collège de France em Paris. “Há um reconhecimento central do gesto na palavra escrita, uma espécie de reconhecimento por simulação mental no seu cérebro. E parece que esse circuito contribui de formas únicas que não percebíamos“, continuou ele. “A aprendizagem torna-se mais fácil.”
Um estudo de 2012 conduzido por Karin James, psicóloga da Universidade de Indiana, corroborou essa visão. As crianças que ainda não tinham aprendido a ler e a escrever receberam uma letra ou uma forma num cartão de índice e pediram-lhes que a reproduzissem numa das três formas: traçar a imagem numa página com contorno pontilhado, desenhá-la numa folha em branco, ou digitá-la num computador. Em seguida, foram colocadas num scanner cerebral e mostraram-lhes a imagem novamente.
Os investigadores descobriram que o processo inicial de reprodução era muito importante. Quando as crianças desenhavam uma letra à mão, elas apresentavam maior atividade em três áreas do cérebro que são ativadas em adultos quando leem e escrevem: o giro fusiforme esquerdo, o giro frontal inferior e o córtex parietal posterior.
Em contraste, as crianças que digitavam ou copiavam a letra ou forma não apresentavam tal efeito. A ativação era significativamente mais fraca.
A Dra. James atribui as diferenças à imperfeição inerente à escrita manual livre: não só precisamos primeiro de planear e executar a ação de uma forma que não é exigida quando temos um contorno para copiar, como também é provável que produzamos um resultado altamente variável.
Essa variabilidade pode ser, por si só, uma ferramenta de aprendizagem. “Quando uma criança produz uma letra imperfeita“, disse a Dra. James, “isso pode ajudá-la a aprendê-la.“

O nosso cérebro deve compreender que cada possível iteração de, por exemplo, um “a” é a mesma, independentemente de como a vemos escrita. Ser capaz de decifrar a imperfeição de cada “a” pode ser mais útil para estabelecer essa representação final do que ver o mesmo resultado repetidamente.
“Esta é uma das primeiras demonstrações de que o cérebro pode ser alterado devido a essa prática“, disse a Dra. James.
Num outro estudo, a Dra. James compara crianças que formam as letras fisicamente com aquelas que apenas observam outras a fazê-lo. As suas observações sugerem que é apenas o esforço real que ativa as vias motoras do cérebro e proporciona os benefícios de aprendizagem da escrita à mão.
O efeito vai muito além do reconhecimento de letras. Num estudo que acompanhou crianças do segundo ao quinto ano, Virginia Berninger, psicóloga da Universidade de Washington, demonstrou que escrever em letra de imprensa, em letra cursiva e digitar no teclado estão todos associados a padrões cerebrais distintos e separados — e cada um resulta num produto final diferente.
Quando as crianças compunham textos à mão, não só produziam consistentemente mais palavras e com maior rapidez do que no teclado, como também expressavam mais ideias. E os exames de neuroimagem nos participantes mais velhos sugeriram que a ligação entre a escrita e o gerar de ideias ia ainda mais longe. Quando se pedia a essas crianças que desenvolvessem ideias para uma composição, as que tinham uma caligrafia melhor apresentavam uma maior ativação neural nas áreas associadas à memória de trabalho — e uma ativação geral mais elevada nas redes de leitura e escrita.
Agora parece que pode haver até uma diferença entre a escrita em letra de forma e a escrita cursiva — uma distinção de particular importância à medida que o ensino da cursiva desaparece em cada vez mais currículos. Na disgrafia, uma condição em que a capacidade de escrever fica comprometida, às vezes após uma lesão cerebral, o défice pode assumir uma forma curiosa: em algumas pessoas, a escrita cursiva permanece relativamente preservada, enquanto noutras é a letra de forma que se mantém. Na alexia, ou capacidade de leitura comprometida, alguns indivíduos incapazes de processar a letra de forma conseguem ainda ler a cursiva, e vice-versa — o que sugere que os dois modos de escrita ativam redes cerebrais distintas e mobilizam mais recursos cognitivos do que seria o caso com uma única abordagem.

A Dr.ª Berninger chega mesmo a sugerir que a escrita cursiva pode treinar a capacidade de autocontrolo de uma forma que os outros modos de escrita não conseguem, e alguns investigadores defendem que pode até constituir um caminho para o tratamento da dislexia. Uma revisão de 2012 sugere que a letra cursiva pode ser particularmente eficaz para indivíduos com disgrafia do desenvolvimento — dificuldades de controlo motor na formação das letras — dificuldades motoras no controlo da formação de letras — e que pode ajudar a prevenir a inversão e a reversão de letras.
Seja cursiva ou não, os benefícios de escrever à mão vão além da infância. Para os adultos, digitar pode ser uma alternativa rápida e eficiente à escrita manual, mas essa mesma eficiência pode diminuir a nossa capacidade de processar novas informações. Não apenas aprendemos as letras melhor quando as memorizamos por meio da escrita, como a memória e a capacidade de aprendizagem em geral também podem beneficiar-se.
Dois psicólogos, Pam A. Mueller, de Princeton, e Daniel M. Oppenheimer, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, relataram que tanto em ambientes laboratoriais como em salas de aula do mundo real, os estudantes aprendem melhor quando fazem anotações à mão do que quando digitam no teclado. Ao contrário de estudos anteriores que atribuíam a diferença aos efeitos distrativos dos computadores, a nova pesquisa sugere que escrever à mão permite que o estudante processe o conteúdo de uma aula e o reformule — um processo de reflexão e assimilação que pode levar a uma melhor compreensão e fixação da memória.
Nem todos os especialistas estão convencidos de que os benefícios de longo prazo da escrita à mão sejam assim tão significativos. Ainda assim, um desses céticos, o psicólogo de Yale Paul Bloom, afirma que as novas pesquisas são, no mínimo, estimulantes.
“Com a escrita à mão, o próprio ato de escrever obriga-nos a que nos concentremos no que é importante“, disse ele. E acrescentou, após uma pausa para refletir: “Talvez isso ajude a pensar melhor.”
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A autora: Maria Konnikova [1984 – ] é uma escritora russo-estado-unidense doutorada em Psicologia pela universidade de Columbia. Colaboradora do The New Yorker online, é autora de “Mastermind: How to Think Like Sherlock Holmes”, “The Conficence Game”, “The Biggest Bluff”. Entre 2017 e 2019 dedicou-se ao poker professional.


