PODE O TEATRO, COMO OBJECTO E ESTRATÉGIA DE EDUCAÇÃO E ANIMAÇÃO COMUNITÁRIA, TRAVAR TENDÊNCIAS DE RECUO SOCIAL E CULTURAL? (2)Avelino Fernando Pinheiro Bento *

*Professor Coordenador Jubilado do Instituto Politécnico de Portalegre

(Conclusão)

As experiências que fui acumulando ao longo da vida permitem-me, hoje, ter do Teatro uma visão muito mais abrangente. Lá vaiImagem2 (2) o tempo, do jovem actor, que via o Teatro como a prática teatral pura e dura, feita quer por profissionais, quer por amadores. Nos últimos quinze anos a visão redutora que se tinha sobre o Teatro foi-se alterando porque o mundo também se alterou. Assim, da obra de arte efémera passou-se paulatinamente ao artefacto cultural. Apenas porque todos o utilizam, falam e escrevem sobre ele, vivem com ele. Foi a transformação e a passagem de uma expressão artística (que configura uma formação específica) para uma função de intervenção social, cultural e educativa (que configura outras formações mais diversificadas.

Na contemporaneidade, a globalização permitiu ver no(s) local(ais) elementos mais universais, mais transnacionais e mais afinidades. Objectivos, praxis comuns e semelhantes, dos quais resultam respostas que contribuem para a melhoria e qualidade de vida das pessoas. A Arte em geral e o Teatro em particular foi “apanhado” nesta rede global assumindo o compromisso de constituir-se também como um elemento de mudança. É com este sentido que Guénoun, D. (1997, p. 170) nos diz que “L’art du théâtre doit s’ouvrir aux flux de la vie qui lui reste étrangère”.

É verdade que a mudança esteve e está sempre no horizonte do Teatro, dos homens e das mulheres do Teatro. Mas era uma mudança direcionada para a consciencialização do Homem como ser operante, como “um operário em construção” (Vinícius de Morais), visando sempre a melhoria da Sociedade, quer na justiça social mais distributiva, quer na criação permanente de igualdades de oportunidades. Isto foi acontecendo quer com o aparecimento de novas estéticas, passando-se da aristotélica para a brechtiana, quer pela emergência de novas dramaturgias, recuperando-se grandes clássicos como Shakespeare, Molière, Goldoni, Racine e outros, quer ainda pelo aparecimento de novas dramaturgias que reescrevem a contemporaneidade a partir de novos interesses e de novas necessidades dos públicos, das pessoas. Uma História do Teatro, do séc. XX, muito direccionada para a produção teatral estruturada no movimento associativo, operário e intelectual, e nos projectos de vanguarda, de pesquisa e investigação, oriundos do sector profissional e da Academia. As fronteiras do Teatro passavam aqui pela definição do espaço, próprio à visualização teatral, segundo Jean Duvignaud (1973).

Não tenho dúvidas em afirmar que o Teatro, em Portugal, enquanto espectáculo mas também enquanto arte de intervenção social, cultural e educativa, contribuiu para consciencializar as pessoas para os seus direitos/deveres de cidadania, para a apropriação do saber e do conhecimento, enfim, para uma mudança cultural tout court e que se pensava ser ininterrupta. O caminho seria sempre percorrido em solidariedade, em educação e conhecimento e em prazer lúdico e estético.

Para surpresa verifica-se que a sociedade, devido à crise sistemática que nos tem assolado nos últimos sete, oito anos, tem tido alguns retrocessos nos direitos e nas conquistas, colocando em causa a paz no mundo e violando permanentemente aquilo que é entendido como a qualidade de vida dos cidadãos no sentido mais lato. Os valores societais têm vindo a ser desvirtuados, a tradição fenece e perdem-se as referências do passado; a história esbate-se, escamoteia-se ou ignora-se, os direitos civilizacionais vão-se perdendo na velocidade acelerada deste novo tempo. Que já não é de descoberta, de afectos, de saberes, mas de individualismos, de ódios e de pequenas/grandes guerras que paulatinamente se vão instalando no mundo, permitindo emergir novos donos do planeta cada vez mais anónimos e minoritários, e de um terror civilizacional que se aproxima.

Vejo, neste contexto, sem recear a expressão, uma espécie de retorno à barbárie, onde a violência gratuita, a pobreza e a miséria e as injustiças socias e as desigualdades se acentuam a um ritmo assustador.

Uma das consequências da globalização, e das novas tecnologias mal utilizadas, é o aumento de espaços, conteúdos e territórios da solidão. É preciso e necessário combatê-la, ocupando muito as pessoas, mesmo as que julgam estar ocupadas. Reparo, pela experiência dos últimos anos, com a utilização das artes, em especial do Teatro, que podemos ser capazes de travar esta tendência de recuo social e cultural, por caminhos e objectivos ainda mais progressistas, porventura ainda não percorridos ou pouco explorados, de forma a trazer de volta o Bem-Estar das pessoas, com a recuperação de hábitos de socialização e com o aparecimento de novas formas associativas, organizacionais e políticas. Ocupar as pessoas, os grupos, as organizações com projectos, não de sobrevivência mas de luta, de persistência, de optimismo e de competências.

Podíamos elencar um conjunto de técnicas teatrais, de estéticas diferentes, de dramaturgias variadas, de abordagens singulares. Poderíamos falar de todo o Teatro de Boal, das técnicas de Stanislavski e Grotowski, da Comédia del’Arte, do teatro de improviso, etc. poderíamos falar de todo o Teatro utilizando-o das formas mais diversas. Da estrutura profissional aos grupos de amadores que apresentam os seus produtos artísticos; do trabalho teatral comunitário que configura processos de participação, autonomia e criatividade; enfim, de um conjunto de estratégias utilizando definitivamente o Teatro. Afinal este é um dos objectos artísticos mais flexíveis, impulsionador da criatividade; é também divertimento incentivando o humor e a reflexão de quem o faz e de quem o usufrui; é uma escola viva de aprendizagens, onde o saber e o conhecimento andam de mãos dadas; é um território de consciencialização social e política; enfim o Teatro é a vida, mas só se concretiza com a vida que as pessoas lhe dão.

Assim são as Pessoas que têm de reaprender a utilizar o Teatro. Encontrar novas formas de o pôr em acção: mais originais, mais emergentes, mais políticas, mais criadoras/criativas e mais humanas. São as pessoas que têm de iniciar a mudança de forma que esta possa travar os retrocessos sociais e culturais.

Como? Dizia quase no início deste texto que tem de haver uma dialéctica entre a Arte e as pessoas e que as fragilidades da organização da sociedade devem ser observadas a montante: nas famílias, nas escolas, nas associações, nas organizações, no poder (central e local) e nos partidos. Se reiniciarmos por esta ordem a (re)aprendizagem da vida, utilizando o Teatro nas suas diversas formas e funções, desde a artística à educativa, passando pela social até à cultural, a Sociedade terá mais consciência política, será mais culta e as suas opções serão sempre previamente analisadas.

Uma sociedade que se reconstrua a partir da sua essência, isto é, da sua humanidade, fará um esforço de reencontrar os melhores caminhos para a sua afirmação e dignidade.

As Artes são privilegiadas, mas também a Ciência, a Literatura e Poesia, a Técnica e as Novas Tecnologias. Todas são indispensáveis nessa redescoberta da vida. Todavia, do meu ponto de vista, o Teatro é o que está mais próximo. Está na génese do Homem, por isso, entendendo o Teatro, ele poderá criar uma nova semiologia que o ajude a encontrar novas soluções para a sua afirmação e dignidade humana. Apenas tem de perceber como se deve servir do Teatro e como o Teatro o pode servir. No fundo é aquilo que José Gil (2001) chama de “afecto de vitalidade”.

Receitas? Não tenho! Mas como eu, há milhares de pessoas que têm as experiências da vida. Os velhos, os menos velhos, os jovens, os homens e as mulheres, as crianças, todos são indispensáveis para reconstruirmos um mundo mais harmonioso, justo e solidário.

O Teatro, diz-se, é a Vida! Mas a vida somo nós que a conduzimos utilizando todos os instrumentos que constituam suportes de progresso, de inovação e de paz.

Nota: Este texto surge a partir de uma Comunicação feita no Congresso Internacional “As Artes na Educação” realizado em Amarante em 14, 15 e 16 de Setembro de 2014. Organizado pela INTERVENÇÂO – Associação para a promoção e divulgação cultural/Chaves.

Referências Bibliográficas

Livros

Benjamin, Walter (1992) Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa, Relógio d’Água.

Bento, Avelino (2010) O meu blog deu-me o mundo – antologia de textos sobre Cultura, Educação, Arte e Animação, Portalegre, IPP – Largo da Sé.

Bento, Avelino (2002) Teatro e Animação – outros percursos do desenvolvimento sociocultural, Lisboa, Colibri.

Duvignaud, Jean (1973) Les ombres collectives, Paris, PUF.

Chaui, Marilena (2008) Cidadania cultural: o direito à cultura, S. Paulo, Cortez.

Gil, José (2001) Movimento Total – o corpo e a dança, Lisboa, Relógio d’Água.

Guénoun, Denis (1997) Le theater est-il nécessaire? Dijon, Circé.

Urfalino, Philippe (2004) L’invention de la politique culturelle, Paris, Hachette.

Capítulos em livros

Bento, A., 2013, Teatro e/da Comunidade – na busca do opressor e do oprimido de hoje, in Pereira, J.D.L., Lopes, M.S., Vieites, M.F., Teatro do Oprimido – teorias, técnicas e metodologias para a intervenção social, cultural e educativa no séc. XXI, Intervenção, Chaves, pp.203-207.

Bento, A., 2012, Consciência Cidadã: novas práticas de participação e de envolvimento social tendo como itinerário a Arte e a Animação Sociocultural, in Pereira, J.D.L., Lopes, M.S., Cebolo, C.S.G., Animação Sociocultural – Intervenção e Educação Comunitária: Democracia, Cidadania e Participação, Intervenção, Chaves, pp. 91-94.

Bento, A., 2011, O Teatro na Animação Sociocultural – parceiros inequívocos em estratégias de participação social e de desenvolvimento cultural, in Pereira, J.D.L., Lopes, M.S., As fronteiras da Animação Sociocultural, Intervenção, Chaves, pp.257-267.

Bento, A., 2010, Dramaturgias Emergentes: (re)construção da função social do Teatro, in Pereira, J.D.L., Lopes, M.S., Rodriguez, R.P., O Estado do Teatro em Portugal, Intervenção, Chaves, pp.143-152.

Nota: Este texto foi escrito em desacordo com o AO.

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